Gestão

A bola da vez

Natalia Gómez
21 de novembro de 2011
Paula Giolito
Barranco, da Logum: importância de ter um programa de desenvolvimento para a mão de obra jovem (foto: Paula Giolito)

O estudante de engenharia Marco Fontes, de 21 anos, deixou o Recife para trabalhar em uma empresa de tecnologia com sede no Rio de Janeiro. Seu estágio começou em julho deste ano, e a experiência deu tão certo que o jovem escolheu a cidade maravilhosa como residência permanente. No final do ano, vai para Recife apresentar o relatório de estágio para a Universidade Federal de Pernambuco, e rapidamente voltará para retomar sua posição no Rio. Histórias como a do estudante pernambucano se repetem com frequência assustadora, e não é para menos: a economia fluminense fervilha com investimentos de 181,4 bilhões de reais previstos entre 2011 e 2013, e jovens talentos são disputados a peso de ouro por empresas das mais diferentes áreas.

Além de caprichar na remuneração, as companhias estão trabalhando para falar a língua dos estudantes. A Radix, empresa de tecnologia que contratou Fontes, tem um amplo programa de integração com as universidades, que inclui palestras, participação em feiras, jogos e patrocínio de projetos dos alunos. Foi justamente em uma feira que o estudante conheceu a empresa e decidiu participar de um concurso para a produção de um vídeo caseiro de cinco minutos, com o tema da indústria de óleo e gás. Ele venceu, junto com um colega, e ganhou uma viagem para a maior feira mundial do setor, em Houston (EUA), com direito a uma visita à Nasa. Em poucos meses de estágio, já participou de projetos de plataformas de petróleo e do setor petroquímico. No que depender das previsões de investimentos no Rio, não vai faltar trabalho para Fontes. Segundo estudo realizado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a segunda maior economia do país em Produto Interno Bruto (PIB) será impulsionada pelas oportunidades dos Jogos Olímpicos e pelo setor de petróleo e gás, além do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), do Complexo Industrial do Porto de Açu, e do projeto de revitalização do sistema portuário, batizado de Porto Maravilha. O volume de investimentos previsto para os próximos três anos dá ao Rio o título de maior concentrador de investimentos do mundo: mais de 4 milhões de reais por metro quadrado.

Revolução
Esse aquecimento recorde está provocando uma verdadeira revolução na área de mão de obra. As empresas precisam de jogo de cintura para lidar com a escassez de trabalhadores no mercado. “Os CEOs das empresas estão realmente preocupados com o apagão de talentos, e nos efeitos que isso terá sobre os negócios nos próximos quatro ou cinco anos”, afirma José Augusto Figueiredo, vice-presidente de operações da DBM Brasil e América Latina. Hoje, cada companhia tem procurado suas próprias soluções para esse problema, como buscar profissionais de outros estados, trazer brasileiros que moram no exterior e investir na formação dos universitários.

Na empresa em que o estudante Fontes trabalha, existem profissionais de 12 estados diferentes em uma equipe de 200 pessoas. A maioria é atraída ainda na universidade. “Em alguns estados das regiões Norte e Sul existem faculdades excelentes, mas não tanta demanda por mão de obra”, explica João Chachamovitz, diretor e um dos sócios-fundadores da Radix, que é fornecedora da Petrobras. Preocupada com a escassez de profissionais no mercado, a empresa já se aproxima de estudantes do ensino médio, com palestras sobre engenharia e concursos anuais. “Temos de pensar cinco anos à frente, não adianta ser imediatista”, afirma. Em sua visão, a formação de profissionais jovens é a saída mais inteligente para o apagão atual, pois disputar os profissionais que já estão no mercado não vai resolver o problema. “Com a mão de obra que existe, não dá para crescer.”

O desafio de recrutar os jovens profissionais está no treinamento. Segundo o executivo, é preciso fazer um treinamento focado na integração à empresa e treinamentos específicos para novos projetos, realizados por profissionais mais experientes ou consultores contratados. Além disso, a Radix procura fazer um aperfeiçoamento contínuo com cursos de especialização e idiomas. Com um ano e meio de vida, a empresa ampliou sua equipe de seis para 200 pessoas, e pretende contratar mais no ano que vem.

Etanol
Fora do setor de petróleo e tecnologia, outros mercados sentem o impacto da escassez de engenheiros no mercado doméstico. A Logum Logística, empresa criada ainda em 2011 pela Petrobras e parceiras para transporte e armazenamento de etanol, tem escritórios no Rio e preencheu 53 vagas neste ano, que incluem não apenas cariocas, mas profissionais da capital paulista, do interior de São Paulo, do Grande ABC paulista e do Espírito Santo.

“Hoje, existe uma carência de profissionais com experiência técnica desenvolvida, que possam entrar na organização já preparados para responder às demandas no curto espaço de tempo”, afirma o gerente corporativo de recursos humanos, Reinaldo Barranco, destacando os setores de infraestrutura, óleo e gás, construção civil, suprimentos e logística como os mais aquecidos e impactados pela competição por mão de obra qualificada.

De volta à casa
O aquecimento doméstico não tem apenas atraído pessoas de outros estados, mas também tem chamado atenção de brasileiros que haviam saído do Brasil nos últimos anos para trabalhar no exterior. “Hoje, o país volta a ser atrativo para profissionais do setor de óleo e gás que tinham ido trabalhar no Mar do Norte, na Arábia Saudita e Oriente Médio”, diz Barranco. Até o final deste ano, a Logum pretende contratar mais 12 pessoas. O projeto da companhia prevê a movimentação de 21 bilhões de litros de etanol  até 2020, com investimentos na ordem de 6 bilhões de reais. O sistema permite a entrega de etanol produzido na região centro-sul do país, por meio de um sistema integrado multimodal de transportes (dutoviário, hidroviário e outros).

O sistema será capaz de atender os mercados consumidores localizados na Grande São Paulo, Rio de Janeiro, Paulínia (SP) e Vale do Paraíba (SP), além da entrega de etanol nos terminais marítimos de São Sebastião e Ilha D´Água para atendimento das regiões Norte e Nordeste via cabotagem. A Petrobras detém 20% da companhia; a Copersucar, a Odebrecht Transport – OTP e a Raízen (fusão da Cosan e da Shell) detêm outros 20% cada, enquanto a Camargo Corrêa e a Uniduto Logística contam, cada uma, com fatia de 10%, respectivamente.

A partir do ano que vem, a Logum pretende trabalhar na atração e formação de mão de obra jovem, captando graduandos ou mestrandos das áreas de engenharia, suprimentos, logística e demais áreas-chave para serem estagiários e trainees da empresa. Estão no radar universidades do Rio e dos outros estados pelos quais o sistema de transporte vai passar. No momento, a empresa está discutindo o modelo de competências de negócios e de gestão dentro das funções para desenvolver os novos profissionais. “Estamos determinando as ferramentas e definindo as competências de atuação necessárias hoje e no futuro”, afirma.

Barranco destaca que é importante ter um programa claro e definido de desenvolvimento da mão de obra jovem e recém-formada para não frustrar suas expectativas de carreira em uma empresa e garantir a retenção dos profissionais qualificados no futuro.  “Nosso projeto é muito novo e pouca gente no mercado conhece a operação de um sistema multimodal de transporte de combustível. Temos a responsabilidade de formar e desenvolver profissionais qualificados com essa expertise, tanto para os resultados do nosso negócio quanto para o conhecimento da sociedade e do país como um todo.”

Se no início dos anos 2000 o Rio de Janeiro observou a saída de muitos cariocas rumo ao exterior ou outras capitais brasileiras, hoje o movimento é inverso. Segundo Rafael Menezes, sócio da filial da consultoria ASAP do Rio, muitos cariocas estão voltando para a cidade, enquanto pessoas de várias partes do país estão de olho na região. “Dificilmente víamos paulistas vindo para cá. Hoje, somos abordados por muitos profissionais mineiros, paulistas e brasilienses que desejam trabalhar no Rio”, afirma.

Getty Images

Os salários são mais atrativos, assim como os benefícios e a participação nos resultados. Segundo Menezes, muitos profissionais estão apostando em empresas em estágio inicial de operação de olho na bonificação variável que virá mais à frente. No ramo da engenharia, os salários subiram entre 30% e 40% devido à escassez de profissionais. O Brasil forma 40 mil engenheiros por ano, número muito inferior ao dos outros países do BRIC, que chegam a formar 400 mil ao ano.

Turismo
Enquanto é palco de grandes aportes nos setores de indústria e infraestrutura, a cidade que vai sediar as Olimpíadas de 2016 se prepara para receber os visitantes com investimentos vultosos em hotelaria. A Accor é um dos maiores investidores, e pretende abrir nove hotéis até 2015, o que demandará 600 contratações. Atualmente, a rede conta com 12 hotéis no Rio, Macaé e Niterói e cerca de mil colaboradores. No segundo semestre do ano que vem, será inaugurado o primeiro dos novos hotéis da Accor na cidade maravilhosa, e as contratações começam apenas 60 a 90 dias antes da abertura do empreendimento.

O gerente de recursos humanos da Accor para América Latina, Maurício Reis, conta que as posições de camareira, cozinha e garçom sofrem grande concorrência de outros setores da economia que oferecem remuneração maior e jornada mais tranquila, sem trabalho no fim de semana. Por isso, todo o setor hoteleiro está preocupado em mostrar o lado positivo do mercado. “É um segmento em que se consegue um crescimento rápido se a pessoa tiver interesse”, afirma.

O Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) está planejando ir até escolas, cursos profissionalizantes e ONGs de profissionalização para mostrar o lado positivo da hotelaria. “O FOHB tem um grupo trabalhando no tema e faremos isso nos próximos meses”, conta. A Accor procura atrair e reter seus profissionais por meio de incentivo em formação e na mobilidade. “Não temos como competir com os salários, mas outros indicadores podem atrair”, diz. Ele conta que a negociação salarial com o sindicato dos trabalhadores no Rio tem sido difícil devido ao contexto econômico. No momento, a Accor estuda novas formas de reter seus profissionais, mas ainda não concluiu a criação dos novos projetos.

RH em alta
Toda a efervescência do mercado carioca está levando as áreas de recursos humanos das empresas a trabalharem a plena carga. Afinal, nunca os processos de atração e retenção de talentos tiveram tanta importância como agora. “As atividades do RH estão exacerbadas”, afirma o diretor da DBM, José Augusto Figueiredo. Segundo ele, este é o momento certo para os profissionais de recursos humanos mostrarem para o mundo que sua área é estratégica dentro das empresas. “Se a companhia não entregar resultados por falta de gente, essa responsabilidade vai cair no colo do CEO. Por isso, os profissionais de RH precisam estabelecer diálogo com o CEO”, explica.

Na visão do consultor, a remuneração é um fator de atração insuficiente porque todos estão pagando melhor. Aspectos sutis estão ganhando importância, como o engajamento e a realização dos profissionais dentro das empresas. “A questão existencial chegou à mesa porque as pessoas estão procurando significado no seu trabalho. Então não adianta só dar dinheiro”, explica.

No trabalho com seus clientes, a DBM procura identificar os valores e a missão dos colaboradores, para que eles possam fazer a escolha de se alinhar com os valores e a missão da empresa. O plano de desenvolvimento individual do profissional deve ser feito de acordo com suas expectativas, de forma que ele seja o dono da sua própria carreira. A ideia de “vestir a camisa da empresa” ficou para trás, segundo Figueiredo. É preciso que o próprio trabalhador tenha sua identidade. “As pessoas têm sua própria camisa, e a empresa não pode continuar com o mesmo discurso”, afirma. Esse é um dos principais conflitos entre o mercado e a geração Y, que tem mais consciência de identidade no trabalho do que as gerações anteriores. Além da revisão dos conceitos de recursos humanos, o executivo defende uma integração entre as empresas para enfrentar o apagão de talentos, e pedir ajuda de governos e ministérios. “Cada empresa está buscando suas soluções, mas para fazer diferença é preciso que ocorra uma união entre as maiores companhias”, afirma.

O gerente de infraestrutura e novos investimentos do Sistema Firjan, Cristiano Prado, conta que algumas grandes empresas costumam procurar a entidade anualmente para falar sobre os empreendimentos em curso e saber como isso impactará sua mão de obra. Algumas iniciativas recentes incluem parcerias com o Senai para formar trabalhadores, como ocorreu com a CSA, a Volkswagen , a OSX e a Nissan recentemente.

Apesar da crise de talentos, Prado acredita que esse cenário não coloca em risco os projetos de investimento no Rio. “Significa aumento de salários em todos os níveis e maior turnover, mas não ameaça os projetos”, afirma. O treinamento de novos profissionais e a ida de pessoas de outros estados para o Rio são fatores atenuantes, mas não serão suficientes para aliviar os preços. “Esse mercado vai ficar pressionado mesmo nos próximos anos pela concentração de investimentos em pouco tempo. As empresas precisam se preparar”, afirma.

Mudança de padrão
Na opinião do presidente da seccional do Rio de Janeiro da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-RJ), Fábio Ribeiro, muito se fala sobre a falta de mão de obra especializada no Brasil, mas é preciso refletir sobre o que fazer para evitar esse apagão de profissionais. Para ele, os trabalhadores devem entender onde estarão as oportunidades e investir em formação, pois competência não se obtém instantaneamente, e é por essa qualidade que o mercado pagará bem. Ele também acredita que profissionais especializados como tecnólogos em áreas de petróleo, gás, metal mecânica, elétrica, construção civil, portuária e turismo devem ser mais demandados nos próximos anos. Haverá oportunidades ainda em áreas de administração, fisioterapia e publicidade voltadas para esporte, além de direito internacional, demandado por conta das relações de trabalho entre vários países.

Ribeiro acredita que esse novo momento vivido pelo Brasil fará com que as empresas dediquem mais tempo e recursos para formar pessoas com qualidade para operar. Além disso, os esforços para a retenção de talentos devem se estender a um número mais amplo de trabalhadores em vários níveis hierárquicos.  “As empresas não poderão mais reter somente os tradicionais 10% dos colaboradores porque terão de conseguir pessoas para preencher suas linhas de produção. Isso tudo vai movimentar o mercado de trabalho, fazendo o Rio passar por uma mudança de padrão na maneira de formar, reter e atrair novos trabalhadores”, finaliza.

 

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