Gestão

A capacidade de proteger o futuro

Mario Sergio Cortella*
7 de agosto de 2012

Cada vez mais se fala em liderança e da importância de quem lida com pessoas ser capaz de educá-las e educar-se. Paulo Freire, em seu livro Pedagogia do oprimido, escreveu: “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho. As pessoas se educam reciprocamente numa relação, mediatizada pelo mundo”. Ao olhar a frase na sua inteireza, Paulo Freire afirma que ninguém é só educador, porque quem educa também é educado, quem ensina também é ensinado. As pessoas se educam reciprocamente na convivência, na relação, isso significa que ninguém é exclusivamente líder. Somos líderes e liderados. Somos capazes de inspirar ideias, pessoas e projetos em várias direções e somos capazes de ser inspirados.

Existem três atributos essenciais para um líder educador: generosidade mental, coerência ética e humildade intelectual. Todos estão reunidos brilhantemente na frase de Beda, um britânico que viveu no século 8: “Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe; não praticar o que se ensina; não perguntar o que se ignora”. De outro modo, pode-se dizer que há três caminhos para o sucesso: ensinar o que se sabe, isto é, generosidade mental; praticar o que se ensina, ou seja, coerência ética; perguntar o que se ignora, isto é, humildade intelectual.


1 – Generosidade mental
A capacidade de ensinar o que se sabe parece estranha porque dá a impressão de que “se eu tenho uma competência, tenho de guardá-la para mim”. Ao contrário, “se eu tenho uma competência, tenho de reparti-la”. E reparti-la significa fortalecer o grupo. Há 20, 30 anos, a noção de competência era individual. A frase era: “A minha competência acaba quando começa a do outro”. Quem tinha uma competência ficava quieto: “Eu não vou passar para a frente, senão vão me tirar daqui”. E quem tinha uma incompetência, ficava quieto: “Não vou falar nada, senão vão me mandar embora”. As duas atitudes são perigosas. A regra básica hoje é “a minha competência acaba quando acaba a do outro”. Num grupo, numa área, numa estrutura, se você perde competência, eu perco. Você ganha, eu ganho. A noção de competência é coletiva. Na gestão de pessoas, é preciso ser capaz de desenvolver o conceito de competência coletiva, apoiada em dois princípios: quem sabe reparte; quem não sabe procura. Quem sabe e não reparte, enfraquece a si mesmo e ao grupo. O mesmo se dá se alguém se calar em relação ao que ignora. O indivíduo e o grupo são prejudicados por quem finge domínio sobre o que não sabe. Por isso, é necessário criar um ambiente no qual seja possível que quem algo ignore tenha condições de perguntar e no qual aquele que algo sabe possa reparti-lo. Isso é generosidade mental, ensinar o que sabe é o princípio do líder educador. Não significa fazer pela outra pessoa, mas ajudá-la a construir a própria competência.

O mundo está mudando. Isso é óbvio. Está mudando e sempre mudou. Não é essa novidade. O ineditismo está na velocidade com que as alterações se processam. Nunca em toda a história humana houve tanta velocidade na mudança. Dessa forma, se não ensinarmos o que sabemos, fragilizamos a competência coletiva. A mudança veloz altera o modo de fazer, de pensar, de realizar, de agir em qualquer área. O líder educador é aquele que se preocupa com a superação das incompetências. Aquele que está consciente da necessidade de aprender sempre e mais. Quem não tiver percepção da mudança, em vez de acompanhá-la, terá reduzida a capacidade de liderar, formar e gerir.


2- Coerência ética
É praticar o que se ensina. O líder não pode ter uma adesão cínica Í  ética, como uma máscara conveniente. Porque existe muita gente que fala sobre ética, mas não a pratica no rumo da saudabilidade e da decência. Desse ponto de vista, o líder se torna um péssimo educador se não pratica o que ensina, porque a educação é de natureza exemplar. As pessoas se inspiram no exemplo. Para a gente praticar o que ensina, é preciso ser capaz de partilhar não apenas informações, conhecimentos e competências, mas também valores de convivência. As empresas que sustentam o princípio de “Não fazemos qualquer negócio” são as que têm a capacidade de desenvolver conhecimento, tecnologia para gerar vida, e não para diminuí-la. São as que têm o firme propósito de colher lucro decente, a partir também do cuidado com a vida.


3- Humildade intelectual
Consiste em perguntar o que se ignora. Ressalve-se que humildade é diferente de subserviência. Subserviente é quem se dobra a qualquer coisa. Humilde é a pessoa que sabe que não é a única que sabe, que sabe que não sabe tudo, que sabe que a outra pessoa sabe o que ela não sabe, que sabe que ela e a outra pessoa poderão saber muito juntas, que sabe que ela e a outra pessoa nunca saberão tudo o que pode ser sabido. Um educador que queira liderar ou um líder que queira ser educador na gestão de pessoas precisa ser capaz de ter dúvidas. Gente que não tem dúvida não cria, não avança, não inova, só repete. A pessoa não pode ter só dúvidas, mas não tê-las é sinal de mediocridade. É fundamental questionar-se: “Será que o que estou fazendo é o melhor? Será que este é o único modo de pensar? Será que esta alternativa é exclusiva?”. Para ter dúvida é preciso humildade. Muitos não compreendem que ter dúvida não é expressar ignorância. Ignorante é aquele que, não sabendo algo, se cala, e persiste na ignorância. Muita gente não fala por medo de errar. Mas o erro faz parte do processo. Thomas Edison, que inventou a lâmpada elétrica de corrente contínua, foi um homem genial, porque não temia errar. O que ele temia era desatenção, negligência e descuido. Erro não é para ser punido, é para ser corrigido. O que é passível de punição é desatenção, negligência e descuido. Errar faz parte do processo de inovação. Antes de chegar Í  lâmpada, Edison errou 1.430 vezes. Mas não desistiu. Não existe fracasso no erro, o fracasso está na desistência! Cabe ao líder educador não perder essas trilhas virtuosas de vista; são elas que estão no nosso cenário para construirmos e protegermos o futuro.


*Mario Sergio Cortella é filósofo e escritor, professor-titular da PUC-SP e professor convidado da Fundação Dom Cabral, autor, entre outros livros, de Qual é a tua obra – Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética (Vozes)

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