A ideia nossa de cada dia

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Antes de encontrar uma solução, é preciso compreender com exatidão e clareza qual é o problema. Esse é o passo básico para se pensar de maneira criativa, na visão do especialista canadense Min Basadur. “As pessoas frequentemente perdem tempo tentando resolver o problema errado”, afirma. Professor de inovação e psicologia organizacional na Universidade McMaster, Basadur começou a carreira em desenvolvimento de produtos na Procter & Gamble. Depois, tornou-se especialista em criatividade e inovação, formatando métodos e ferramentas para desenvolvimento dessas competências. Em novembro, esteve no Brasil para ministrar um curso, a convite do Centro de Inovação e Criatividade da ESPM. E concedeu a seguinte entrevista a MELHOR:

MELHOR – Quais as habilidades e atitudes básicas para pensar de modo criativo?
Min Basadur –
As habilidades, atitudes e comportamentos mais importantes são: ter a mente aberta e ser capaz de adiar o julgamento. Criatividade exige tanto a habilidade de criar alternativas quanto a habilidade de avaliar e selecionar as melhores opções que criamos. No entanto, muitas pessoas não conseguem separá-las. Em outras palavras, não conseguem adiar o julgamento e avaliam prematuramente um pensamento inicial, em vez de dar a oportunidade de ele ser desenvolvido. Outra importante habilidade é ser capaz de adiar o julgamento antes de passar para uma solução, antes de definir o problema de uma maneira mais precisa ou vantajosa. As pessoas frequentemente perdem tempo tentando resolver o problema errado. Albert Einstein disse uma vez que se tivesse uma hora para salvar o mundo, ele levaria 55 minutos para definir o problema e então precisaria só de 5 minutos para resolvê-lo. John Dewey [filósofo e pedagogo norte-americano] disse que um problema bem definido está resolvido em 50%. Edwin Land, inventor da Polaroid, disse que se você pode definir um problema, ele pode ser resolvido.

MELHOR – Várias pesquisas realizadas mundo afora mostram que as pessoas se consideram criativas, mas que não usam seu potencial no trabalho. Do outro lado, as empresas precisam de gente criativa, que pense de forma inovadora para se diferenciarem. Qual o motivo desse desencontro?
Muitas empresas não sabem como fazer do pensamento inovador e criativo um procedimento de rotina na empresa. Acreditam que essa atividade é uma coisa separada do trabalho normal. As empresas mais eficazes do mundo encontraram modos de engajar seus funcionários em resolução de problemas importantes em qualquer nível da organização. Também sabem engajar as pessoas na resolução de problemas entre departamentos e de forma colaborativa para: melhorar os lucros da empresa, tornar os custos mais efetivos e identificar novas oportunidades de crescimento. Em outras palavras, o trabalho criativo deve se tornar a prática regular do trabalho e não trabalho adicional. Deste modo, a empresa engaja os cérebros e conhecimentos de todos os seus funcionários em vez de depender apenas de alguns líderes.

MELHOR – O que os gestores podem fazer para criar um ambiente mais favorável para que o pensamento criativo aflore?
Os gestores precisam saber serem líderes inovadores e não apenas administradores. Nossa pesquisa mostra que os líderes do século 21 terão de saber como conduzir mudanças mais do que qualquer outra habilidade. Além disso, terão de saber como desenvolver novos líderes abaixo deles que possam inspirar os colegas de equipe para fazer mudanças positivas. É importante incentivar a resolução criativa de problemas como um atributo-chave esperado de cada indivíduo e pelo qual seu desempenho será avaliado para promoção.

MELHOR – Algumas vezes, funcionários apresentam ideias, mas que não são aplicáveis. O que esses líderes devem fazer nesses casos, sem causar embaraços nem desmotivar as pessoas?
A primeira coisa a fazer quando se tem alguma nova ideia é agradecer a pessoa por ter dado a ideia e por pensar criativamente. Em segundo lugar, é dizer à pessoa no mínimo três coisas que você gosta na ideia. Então, se você tem algumas preocupações sobre a praticidade da ideia, vale declarar isso positivamente e encorajando a pessoa a alterar a ideia para melhorá-la e superar essas preocupações. E encorajando-a a voltar para conversar quando tiver aperfeiçoado a ideia. Também é importante para o funcionário entender que se espera que ele faça o trabalho para implementar a ideia, não você, o gestor. Ele não deve esperar que você faça o trabalho de implementação. Na nossa visão, criatividade é mais do que só sonhar com ideias. Criatividade passa pela busca de oportunidades ou de “bons problemas”, por uma boa definição dos problemas, resolução e capacidade de implementar a solução. Só então, pode-se dizer que a pessoa foi criativa.

MELHOR – As pessoas podem pensar coletivamente de forma criativa em uma organização? Como isso se dá? 
Claro que podem. Elas têm de aprender uma linguagem da criatividade ou o pensamento inovador; então podem se comunicar entre si de forma eficiente. Essa linguagem inclui adiamento de julgamento, o entendimento se se está divergindo ou convergindo ou resolvendo ou definindo um problema ou propondo um plano de implementação. Nós chamamos isso de ter um processo comum para pensar de forma inovadora e resolver problemas de forma criativa em conjunto, em colaboração com outros. Também os indivíduos num time devem aprender a respeitar os estilos pessoais ou preferências por diferentes partes desse processo.

MELHOR – Existe alguma forma de medir o potencial criativo de um candidato, por exemplo, numa entrevista de emprego?
Não acredito que isso possa acontecer sem risco de se cometer um grande erro. A criatividade de uma pessoa é medida pelo seu comportamento e pelo seu desempenho e realizações no trabalho. Além disso, diferentes entrevistadores podem ter ideias distintas sobre o que é criatividade.

MELHOR – O senhor poderia nos contar uma história que o tenha impressionado em todos esses anos trabalhando com criatividade?
Tenho pessoas me procurando 25 anos depois que eu as treinei na resolução criativa de problemas me contando sobre um recente sucesso que tiveram usando as habilidades, atitudes e comportamentos que lhes ensinei. Quando definem um problema, por exemplo. Também facilitei equipes em muitos níveis que fizeram grandes mudanças, redefinindo seus problemas de um modo que as fazem pensar fora da caixa. Um time de desenvolvimento de produto trabalhou por 6 meses tentando otimizar a aparência de um novo sabonete sem sucesso. Em testes cegos, o produto não conseguia ser avaliado de forma superior ao seu concorrente. Quando me pediram ajuda, nós trabalhamos de manhã para redefinir o problema – não para a aparência, mas para o real desejo do consumidor que era por uma performance superior. À tarde, geramos 200 soluções para a nova definição de problema “fora da caixa” para inventar um sabonete melhor, que finalmente conseguiu obter a preferência dos consumidores.

MELHOR – Muitos profissionais criativos relatam insights que tiveram quando não estavam com o foco no problema. Por exemplo, durante um concerto musical ou quando estavam prestes a pegar no sono, e a solução apareceu. Por que isso acontece?
Isso é o que chamamos incubação. Nossa pesquisa mostra que as pessoas resolvem problemas de forma mais inovadora quando estão relaxadas e num ambiente que oferece suporte. Isso lhes permite adiar julgamento e não se sentir pressionadas a oferecer soluções prematuras. Quando alguém tem um problema que está tentando resolver e se afasta dele e faz algo relaxante como dormir ou ir a um concerto ou praticar atividade física, permite que a sua mente resolva o problema de uma maneira relaxada, mesmo que não esteja consciente de que essa atividade está acontecendo. Dá tempo suficiente para que o cérebro resolva o problema e o apresente num momento inesperado, como quando estamos tomando banho ou ao acordar. Algumas pesquisas sugerem que as pessoas podem aprender e resolver problemas muito mais rápida e eficientemente quando estão relaxadas do que quando estão sob estresse. Quando uma pessoa fica em intenso relaxamento pode fazer coisas extraordinárias. Seu cérebro está tão relaxado que pode resolver o problema excepcionalmente bem. Líderes precisam aprender a engajar as pessoas na resolução de problemas e permitir que trabalhem em ambientes que ofereçam suporte.

 

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