A influência dos valores pessoais

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Segundo o Instituto Ethos, a Responsabilidade Social Corporativa (RSC) é uma forma de gestão definida pelas relações éticas e transparentes entre uma empresa e todos os grupos com os quais ela se relaciona. Isso é alcançado por meio da criação dos valores e objetivos corporativos compatíveis com o desenvolvimento sustentável que preconiza a preservação dos recursos do meio ambiente para as futuras gerações, o respeito pela diversidade e a eliminação da desigualdade social.

E o Brasil tem tido uma experiência considerável com programas de RSC, resultado de sua tradição de filantropia – ações altruístas deflagradas por organizações em prol de populações desfavorecidas. Pesquisa realizada em 2005 pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) apontou que 101 de suas empresas-integrantes haviam investido cerca de 555 milhões de dólares em iniciativas filantrópicas, o que correspondia a aproximadamente 25% de todo o dinheiro privado destinado a fundações e organizações sem fins lucrativos no Brasil. O tempo passou e, nas duas últimas décadas, atividades filantrópicas pontuais de empresas brasileiras foram gradualmente dando lugar a estruturas formais de RSC, desenhadas para implementar programas sociais e ambientais com metas transformadoras que vão bem além das ações de caridade de curto prazo.

Na essência dos sistemas de RSC residem os valores organizacionais que distinguem uma empresa por sua característica de ser ética, justa e transparente em relação aos seus stakeholders. Com o tempo, esses valores fazem surgir estruturas organizacionais específicas, como Divisão de Responsabilidade Social e Unidade de Relações com a Comunidade; práticas como políticas e iniciativas orientadas para a comunidade; regras de segurança e saúde ocupacional; e manifestações simbólicas, como missão da empresa, código de conduta e eventos especiais para fortalecer os laços entre empresa e comunidade.

É dessa forma que culturas organizacionais de RSC se tornam representantes dos princípios do triple bottom line, o paradigma gerencial proposto por John Elkington (Cannibals with forks: The triple bottom-line of 21st century Business; Capstone; Oxford, 1997) [NR. No Brasil, Canibais com garfo e faca, Editora Pearson Education], baseado numa visão mais ampla da responsabilidade social que engloba “lucros, planeta e pessoas”.

Além dos valores organizacionais, os valores pessoais dos gestores responsáveis pelo estabelecimento das estruturas de RSC também desempenham um papel crucial na criação e na manutenção das culturas de RSC. Isso é consubstanciado por um estudo que realizei entre 2008 e 2009 com uma pequena amostra de empresas brasileiras com culturas consolidadas de RSC. Nesse levantamento, busquei a opinião de gestores responsáveis pela entrega de programas desse tipo sobre o papel desempenhado por seus valores pessoais no trabalho. Nas entrevistas, houve uma concordância generalizada entre os participantes de que os valores pessoais exerciam uma influência significativa naquilo que haviam feito.

Assim, se as decisões organizacionais tomadas por gestores são guiadas pelos seus próprios valores e interesses pessoais, pode-se dizer que a performance positiva e as culturas saudáveis de RSC podem resultar da tenacidade de alguns indivíduos que abraçam crenças e valores éticos. Os gestores podem, dessa forma, “fazer a diferença” em suas companhias e, por associação, na sociedade, dada a grande importância dos negócios no mundo contemporâneo.

* Fernanda Duarte é Ph.D. em Sociologia pela Universidade de New South Wales. Atualmente, atua como professora sênior e pesquisadora da School of Management, University of Western Sydney

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