Carreira e Educação

A lição dos mais inovadores para seu RH

Felipe Falletti
29 de novembro de 2013

Mike Giovanni é engenheiro da fabricante de câmeras Lytro, uma empresa criada há sete anos em Mountain View, no Vale do Silício, nos EUA. Fundada pelo malaio Yi-Ren, a Lytro desenvolveu uma forma inovadora de organizar as lentes dentro de uma câmera e permite que milhares de informações sejam gravadas em seu chip de memória sempre que uma foto é disparada. O resultado desse engenhoso processo é que, mesmo após feita a foto, o usuário pode ajustar o foco do clique, modificando imagens captadas de uma forma que nem o mais habilidoso mestre em Photoshop faria.

Giovanni abandonou o emprego em um banco de sua Nova York natal há três anos para trabalhar na Lytro e afirma que sofreu um choque cultural ao mudar-se para o Vale. “No setor financeiro, eu entrava sempre às 9 horas e saía às 17 horas. Tínhamos todo um esquema de trabalho pronto, bastava se encaixar na fórmula”, relembra. Do outro lado do país, o engenheiro não tem hora para entrar ou sair, pode levar seu cachorro border colie para o trabalho sempre que quiser e, em vez de almoçar em praças de alimentação de shopping centers, costuma fazer lanches no refeitório a céu aberto do campus da Lytro.  “A ideia principal é nos dar autonomia e liberdade para pensarmos nos melhores projetos. As pessoas aqui trabalham duro, mas de um jeito muito mais informal”, explica Giovanni, que todas as sextas-feiras recebe passe livre para beber uma cerveja com os colegas durante o expediente.

O modelo adotado pela Lytro é similar ao que a maior empresa de Mountain View pratica desde sua fundação, o Google. Com seus escritórios encravados em uma área relativamente isolada do Vale do Silício (o nome “mountain” não existe à toa), o Google notou que para reter seus melhores talentos naquela cidadezinha precisaria criar uma estrutura para eles, como oferecer refeições, lavanderia, academia de ginástica, creche para mães com bebês e alguns mimos, como quadras de esportes e fliperama. O resultado dessa ação foi que os funcionários em Mountain View produziam mais e tinham as melhores ideias da empresa, quando comparados a trabalhadores localizados em outros escritórios.

De acordo com o brasileiro Daniel Delarossa, fundador da fabricante de circuitos eletrônicos Cyclades e morador do Vale do Silício há doze anos, a mudança no método de gestão de pessoas foi um dos trunfos da região para se converter no polo mais inovador do mundo. “Ao criar ambientes informais e relaxados, as companhias da região conseguiram liberar o potencial criativo de seus colaboradores ao mesmo tempo que se tornaram objetos de desejo para trabalhadores do mundo inteiro. O resultado disso é que as mentes mais brilhantes migraram para cá, ampliando ainda mais a vantagem das empresas que estão aqui sobre as companhias de tecnologia localizadas em outras áreas do mundo”, diz Delarossa.

Horários flexíveis e comida gratuita, no entanto, estão longe de responder sozinhos pelo sucesso das companhias do Vale. A região se beneficia, ainda, de sediar as universidades mais avançadas do mundo, como Berkeley, e reunir fundos de investimento com fôlego para financiar empresas inovadoras pelo tempo necessário até que elas comecem a apresentar resultados. A combinação entre educação de alto nível, atração de talentos brilhantes e dinheiro de fundos de investimento foi decisiva para criar uma economia onde, nos últimos dez anos, emergiram empresas de sucesso global como LinkedIn, Twitter e Facebook.

“É difícil definir em um ou dois argumentos a razão de essa região do mundo ter se tornado um polo tão destacado de inovação, mas é evidente que a cultura de valorização dos talentos e o método de trabalho que confere poder, autonomia e liberdade às pessoas exercem um papel fundamental para que projetos fantásticos floresçam aqui”, diz Giovanni.

Tempo livre e troca de ideias
Para o professor de economia da FEA/USP Antonio Godoy, a mudança na cultura corporativa registrada nas empresas de tecnologia não começou de forma organizada, mas se beneficiou de um clima de contestação e rebeldia herdado dos movimentos hippies dos anos 70. “É preciso lembrar que toda a Califórnia foi uma região muito ativa durante os anos da contracultura e ícones da inovação, como o fundador da Apple, Steve Jobs, estiveram muito imersos na cultura hippie vivendo experiências que contribuíram para criar, décadas depois, um mercado de trabalho mais flexível”, diz Godoy.

Até os anos 1990, no entanto, o método de trabalho das empresas sem horário fixo e que não determinavam normas rígidas de ação para seus funcionários era visto com desconfiança até mesmo dentro das companhias do Vale do Silício. Uma das empresas mais importantes da região, a Hewlett Packard, passou muitos anos oscilando entre oferecer regras flexíveis para seus funcionários ou copiar os modelos tradicionais praticados em Nova York e na Europa.

“A grande virada para aquela região aconteceu a partir do sucesso de startups como Google, Facebook e Twitter. Quando essas empresas regidas por regras que colocavam a criatividade e a inovação antes de qualquer outro protocolo corporativo se tornaram grandes companhias mundiais, então um sinal muito claro foi transmitido para empresas de toda a região de que, sim, esse modelo de gestão era muito eficiente”, avalia Delarossa.

Atualmente, tornou-se uma norma para as empresas da região pagar pela comida de seus funcionários e instituir métodos de avaliação por desempenho em projetos, deixando de lado itens clássicos do mercado de trabalho, como o cumprimento de jornadas com hora marcada. Quando a ex-Googler Marissa Mayer, por exemplo, deixou Mountain View para trabalhar no Yahoo!, uma de suas primeiras medidas foi implementar refeições grátis na companhia. “É incrível como os americanos acreditam que a comida pode ajudar as pessoas a produzir mais”, afirma Delarossa. Ao tomar a medida, Marissa  afirmou que desejava ver os funcionários do Yahoo! mais confortáveis e passando mais tempo juntos. A nova CEO tomou ainda uma medida mais polêmica, suspendendo o trabalho remoto de seus colaboradores, com a justificativa de que para ter ideias novas as pessoas precisam conversar mais entre si.

O passo atrás de Marissa ao suspender o direito ao home office causou um rebuliço no Vale do Silício. Será que o modelo de gestão que dá o máximo de liberdade aos colaboradores precisaria ser revisto? De acordo com Godoy, o fim do home office foi um ato de exceção num contexto de crescente liberalização das condições de trabalho no Vale. Godoy avalia, no entanto, que essas medidas são eficazes em ambientes de alta produtividade e quando há grande concentração de talentos. Para o especialista, há determinados tipos de atividade que não podem se beneficiar dessa cultura. “Num hospital ou numa empresa de transportes, as pessoas têm de cumprir horários e protocolos prestabelecidos. Os métodos praticados no Vale funcionam para fins específicos, em que o relacionamento entre as pessoas e o fluxo de ideias criativas exerce papel fundamental”, diz.

Aplicação no Brasil
Uma dúvida comum dos especialistas em gestão de pessoas é se a aplicação de uma cultura corporativa como a encontrada no Yahoo! ou Facebook funcionaria no Brasil e, ainda, se geraria resultados positivos por aqui. Uma amostra poderia ser tomada nas representações que essas companhias mantêm em nosso território. No entanto, por aqui, essas companhias possuem equipes basicamente para venda de publicidade digital. São poucos os núcleos de desenvolvimento de novas tecnologias construídos no Brasil, segmento em que os benefícios da informalidade no trabalho ajudariam a trazer melhores resultados. “A cultura desenvolvida no Vale do Silício é muito eficiente para favorecer a inovação e não tão brilhante para motivar forças de vendas, onde prevalecerá o método mais antigo – e eficaz de todos – para impulsionar o trabalho: pagar boas comissões”, diz Godoy.

Segundo Godoy, é preciso cautela na adoção de métodos inovadores desenvolvidos nas companhias do Vale do Silício no RH das empresas brasileiras. “De fato, há vários estudos que comprovam a eficácia da criação de ambientes divertidos e informais. No entanto, se você lida com funcionários que estão historicamente acostumados a serem cobrados por horários fixos, será difícil implementar essa cultura. A tendência, num primeiro momento, é que sua força de trabalho apenas relaxe”, diz. Para Godoy, quem tiver coragem de avançar numa política de liberalização e autonomia, no entanto, tenderá, com o tempo, a tornar-se mais atraente para as pessoas mais talentosas e eficazes do mercado. “Oferecer um ambiente divertido é uma forma incrivelmente eficaz de reter talentos”, conta Godoy.

Ainda que a mudança nas regras de trabalho traga riscos, pode ser ainda mais arriscado simplesmente manter-se preso a modelos convencionais enquanto outras empresas se movimentam para criar ambientes mais informais, produtivos e atraentes para reter os profissionais mais brilhantes. Afinal de contas, as ideias brilhantes que permitiram a companhias como Facebook, Lytro, Google ou Twitter conquistarem mercados no mundo todo não foram elaboradas por homens de gravata, às 8 horas da manhã.



Seis ideias das companhias do Vale do Silício

Em busca de atrair as mentes mais qualificadas e oferecer um ambiente estimulante e criativo, as empresas de tecnologia do Vale do Silício mudaram algumas regras tradicionais para selecionar pessoas e motivá-las.

1 Dê autonomia a seus colaboradores. Se possível, dedique um pedaço da jornada de trabalho deles para que possam trabalhar em pesquisas e projetos individuais que, após uma fase inicial, podem ser apresentados à direção da empresa.

2 Crie refeitórios gratuitos e áreas de convívio com lanches e bebidas. Comer é um ato social que ajuda a integrar as equipes e fazê-las ter melhores ideias em conjunto.

3 Ofereça serviços que mantenham as pessoas ocupadas apenas com o trabalho. No Vale do Silício, várias companhias oferecem lavanderia, costureiro e até troca de óleo para carros.

4 Ofereça boas máquinas e ótima conexão de internet. Com equipamentos mais eficazes, as pessoas serão mais eficientes.

5 Fomente o desejo de mudar o mundo. No Vale do Silício, os profissionais têm a sensação de que criam produtos incríveis, que impactaram a vida das pessoas.

6 Incentive a troca de ideias e a interação entre as pessoas.  Ambientes que colocam áreas correlatas em contato ajudam no surgimento de novos projetos.

 

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