Gestão

A longa formação de um gestor

Vicente Nogueira Filho
13 de julho de 2012

Na década de 1970, a Universidade Harvard criou um grupo de pesquisa para estudar o processo de formação natural de gestores. Coordenada pelo professor Robert Katz, os resultados da pesquisa mostraram que um gestor deve desenvolver, durante sua carreira, três tipos de habilidades: a técnica, que trata das coisas; a humana, que trata das pessoas; e a conceitual, que trata das ideias. A habilidade técnica adquirida nas universidades em nível de graduação, mestrado ou doutorado refere-se ao conhecimento dos processos técnicos de áreas específicas de cada profissão. A habilidade humana se refere à capacidade de trabalhar como integrante de um grupo, à cooperação, à comunicação etc. A habilidade conceitual se refere à capacidade de visualizar a organização, permitindo a proposição de ideias e a solução criativa de problemas.

Ao ingressarem nas organizações, as pessoas utilizam a habilidade técnica. Os poucos funcionários que conseguem desenvolver a habilidade humana durante o trabalho são selecionados para cargos gerenciais. Nesse novo cargo, eles utilizam principalmente a habilidade humana, coordenando o trabalho dos seus subordinados e, em contato com a diretoria, passam a enfrentar problemas complexos, os quais a escola não ensinou a resolver. Pelo sistema de erros e acertos, alguns deles aprendem a solucionar esse tipo de problema e desenvolvem a visão do todo, sendo então promovidos a cargos de direção, nos quais a habilidade conceitual ocupa a maior parte do tempo.

Nos países desenvolvidos, a taxa de formação natural de gestores é da ordem de 4%, no prazo de 24 anos, sendo quatro anos na universidade e 20 anos no trabalho. Já nos países em desenvolvimento a taxa de formação natural de gestores é de 0,8%, também no prazo de 24 anos.
Nos países desenvolvidos, até a crise de 2008, praticamente todas as áreas estavam controladas: saúde, educação, transportes, segurança etc., indicando que a taxa de 4% de formação natural de gestores era superior à taxa das mudanças. Os problemas que surgiam eram resolvidos rapidamente, devido à existência de gestores preparados. Nos países em desenvolvimento, ao contrário, os problemas que surgem não são resolvidos e se acumulam, indicando que a taxa de 0,8% de formação natural de gestores é inferior à taxa das mudanças. Com a globalização, a taxa de mudanças vem se acelerando e já superou os 4% da taxa de formação natural de gestores dos países desenvolvidos. As crises mundiais começaram a surgir, mas as providências para a formação estruturada de gestores ainda não entraram nas prioridades das universidades e das organizações. É necessário que sejam tomadas providências para acelerar a formação desses profissionais, pois a formação natural não atende nem mais às necessidades dos países desenvolvidos.

As instituições precisam atualizar seus sistemas de ensino, pois é possível desenvolver as habilidades gerenciais dos alunos durante o período de faculdade, em substituição ao sistema atual, que consome 20 anos de trabalho nas empresas para preparar somente uma pequena percentagem de profissionais.


Vicente Nogueira Filho é presidente da Faculdade AIEC

 

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