A mãe de todos os bloqueios

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A influência da criatividade nos negócios não é novidade no mundo corporativo. Há mais de dez anos, Jerry Hirshberg, fundador do centro de design da Nissan, já havia chamado a atenção para isso em seu livro The creative priority: Putting innovation to work in your business . Ainda assim, muitas empresas continuam engatinhando nesse quesito. Para orientá-las, o especialista em criatividade, inovação e estratégias Paulo Benetti estará no CONARH 2009 – 35º Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas, que a ABRH-Nacional realizará de 18 a 21 de agosto, no Transamerica Expo Center, em São Paulo (SP). Confira um pouco do que ele levará aos congressistas durante a palestra Criatividade – A hora de soluções não convencionais .

Em situações de crise, as organizações precisam de mais criatividade, mas, em geral, é quando fecham as portas para novas experiências, tentando se proteger. Criar é efetivamente arriscar? Sim, mas existem poucos dirigentes com capacidade de liderança e interessados em correr riscos. A crise gera medo e este gera a ansiedade, que é a mãe dos bloqueios. É triste ver empresas com mil, dois mil, 10 mil colaboradores não usarem todos esses cérebros a seu favor. Quando uma crise irrompe, uns poucos concentram o poder de decisão e os demais atuam como meros expectadores. Essa situação leva as pessoas a procurarem a última zona de conforto em que se encontravam. Por isso, dizemos que elas vão para a mesmice.
 
Melhor – Como é possível correr risco e, ao mesmo tempo, se proteger?
O risco é inerente aos processos de criação e inovação e pode envolver aspectos financeiros. Mas, em geral, os valores envolvidos não são altos, visto que existe uma grande quantidade de novas soluções que podem ser aproveitadas a um baixo custo. Ainda, o custo de implementação de uma nova ideia é mensurável e, com isso, a empresa pode decidir se quer (ou não) levá-la adiante. Por isso, acredito que implementar processos de criação e inovação é, antes de tudo, uma decisão política, pois onde há criação e inovação há mudanças, e muitos dos que estão à frente das empresas não estão interessados em mudanças.
 
Melhor – O potencial de criatividade é decisivo na perenidade de uma empresa?
Pesquisas recentes realizadas pela consultoria McKinsey, pela American Management Association e por Richard Florida para a União Europeia mostram que a criatividade é o tema mais importante dos próximos anos. Não foi por mera liberalidade que a UE decidiu que 2009 seria o ano da criatividade na Europa. O potencial criativo e inovador é que vai dizer se a empresa permanece ou não. Creio que os campos da engenharia genética, robótica e farmacêutica e soluções para resgatar o meio ambiente vão dominar os mercados. Envolvidos nisso, vários produtos e serviços novos na área digital serão oferecidos. A indústria criativa também dará grande contribuição. A partir disso, teremos muitas atividades novas, com empresas novas.
 
Melhor – Até que ponto os governos podem ajudar?
Podem ajudar muito criando políticas mais agressivas para criatividade e inovação. No Brasil, fizeram uma lei sobre inovação e esqueceram que para inovar é necessária a criatividade. Empresas inovadoras não estão mais preocupadas com a gestão da inovação; estão buscando ambientes criativos, novas formas de fazer seu pessoal criar. Por isso, continuam inovadoras. Algum tempo atrás, trabalhei para uma empresa na China e vi como estão interessados em criatividade. Vale destacar que a China, hoje, tem mais engenheiros e pesquisadores do que os EUA. Também trabalhei na Irlanda, uma cultura totalmente diferente, mais conservadora, mas muito interessada em buscar caminhos para a criatividade de seu pessoal. É importante lembrar que esses dois países, há uns vinte anos, estavam atrás do Brasil no cenário econômico internacional.
 
Melhor – É possível articular os potenciais humanos da criatividade com as necessidades das organizações?
É fundamental que isso ocorra tanto para o crescimento das empresas quanto para a realização pessoal de seus colaboradores. Queiramos ou não, cada cérebro é criativo e as empresas têm de saber imediatamente como aproveitar isso. E não é montando caixas de sugestões, mas, sim, implantando uma estratégia clara de aproveitamento do manancial de ideias. As possibilidades são imensas para reduzir custos, aumentar vendas, criar novos produtos e serviços, melhorar processos, alterar o modelo de negócio, enfim, em todas as atividades, é possível melhorar. Mas, para isso, há que se trabalhar muito bem o ambiente e, então, preparar as equipes para produzirem o melhor.
 
Melhor – O que é preciso parater um modelo de gestão que contemple a criatividade na estratégia do negócio?
Em 1961, Mel Rhodes escreveu o seu clássico trabalho An analysis of creativity , mostrando que a implementação da criatividade obedece a quatro dimensões: ambiente; pessoal; processo; e produto (resultado). Em 1986, eu era superintendente-geral de uma grande empresa e decidimos implantar um programa de criatividade. Após um ano e meio de trabalho, vimos que não tínhamos resultados. Mais tarde, estudando nos EUA e na Europa, constatei que havíamos nos esquecido de duas dimensões: ambiente e resultado. Na realidade, havíamos deixado para depois. Ora, isso não existe. Agora, como consultor internacional, vejo que as empresas que obtêm os melhores resultados administram em harmonia as quatro dimensões. Não é difícil estimular e captar muitas ideias em uma empresa nem gerenciar os processos de inovação. O que importa são os detalhes que existem no entorno, que, muitas vezes, são relegados. É aí que os programas não dão certo. Por isso, acredito que criatividade e inovação vão além do modelo de gestão. É uma questão de valores da organização. E, se isso não corre pelas veias de todos, sempre haverá dificuldades.
 
Melhor – Nas empresas criativas, qual é a tendência?
Acredito que, em um futuro muito próximo, empresas criativas aproveitarão os cérebros de outras empresas para produzir novas ideias para elas. Elas não precisarão contratar aqueles cérebros; simplesmente irão incentivá-los a produzir ideias novas para as suas atividades e os compensarão por isso. Ou seja, o que hoje chamamos Open Innovation terá uma dimensão ampliada.

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