A moeda do século

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Na busca por ganhos materiais, conforto e fama, o homem, em sua trajetória, tem superado todos os seus limites. No entanto, hoje, há uma ameaça no caminho: o fenômeno chamado Síndrome do Déficit de Atenção. Uma doença dos tempos modernos, caracterizada pelo fato de que as coisas a que um ser humano tem de dar atenção não cabem no lapso de tempo de que ele pode dispor. Começa com o enorme volume de informações que ele tem de processar só para sair de casa. Não há tempo, nas 24 horas do dia, para a gama de situações que lhe clama por dedicação, contando o fato de que precisa, também, de dormir. Além da vida privada, que demanda dele atenção, outros aspectos também exigem isso: o cliente; a carreira; os compromissos sociais. O chefe lhe chama a atenção e, também, as estratégias de negócios exigem isso. Enfim, a atenção tornou-se algo escasso, por isso precioso, na vida de qualquer profissional.

Há um consenso entre os estudiosos de que a atenção é, atualmente, o mais importante valor corrente para os negócios. Gerenciá-la é uma atividade determinante para o sucesso no atual cenário empresarial. Essa é uma teoria defendia por Thomas Daveport no livro Attention economy (Economia da Atenção). Por tudo isso, a atenção tornou-se algo valioso, uma nova moeda, uma moeda virtual preciosíssima. As gerações seguintes tê-la-ão como a moeda do século.

Os cientistas sabem que, embora não haja limite na intelectualidade humana, há um limite no processamento simultâneo de informações no cérebro. Eles afirmam que ele tem uma programação que, se desrespeitada, trará consequências maléficas. Uma delas pode ser vista em todos os cantos que o ser humano frequenta: o estresse negativo, decorrente do excesso de ansiedade e considerado patológico. É por isso que se vê, hoje, tanta gente irritada, sem paciência, sem gentileza e educação, sem um mínimo de tolerância com o outro e com pressa, muita pressa. Assim, as muitas demandas naturais da vida, a crueldade do insano movimento nos negócios, as mudanças e as cobranças da carreira roubaram do homem um dos seus bens mais preciosos, a atenção e esta sequestrou-lhe o tempo. Por consequência, o ser humano tem adoecido mais fácil e rapidamente. As organizações estão repletas de gente com doenças da mente.
Se algo pode ser feito, a palavra-chave é disciplina pessoal. Ter autodisciplina é o ponto de partida. Cada um precisa estar atento ao que lhe “surrupia” esse precioso recurso. Torna-se mandatório ter foco no que se faz, um planejamento pessoal mínimo, fechar ciclos, prioridade de agenda, delegar e confiar mais no outro, fazer leitura seletiva, selecionar bem os e-mails a responder, dosar a intenção de querer fazer tudo, participar de tudo, dar atenção a tudo. O homem de hoje e do futuro deve também rever a mania de perfeição porque esta será, doravante, um caminho certo para a loucura. Dizer “não” passa a ser imprescindível e ele precisa aprender a não mais se alistar em todas as guerras. Sendo a atenção a moeda do século, deve saber valorizá-la para viver uma vida mais rica.


Cícero Domingos Penha* é vice-presidente de Talentos Humanos do Grupo Algar

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