A nova cara do ensino

Vinícius Cherobino
18 de julho de 2011

Empréstimos imobiliários de alto risco, ativos podres, incapacidade de pagar as dívidas assumidas. Esses foram apenas alguns dos ingredientes da crise financeira de 2008 que começou nos EUA e consumiu o mundo inteiro, em especial os países europeus. Mas, enquanto os números pareciam positivos, quase ninguém questionou esse modelo. A irresponsabilidade dos bancos e de Wall Street tinha em sua base a postura dos profissionais que trabalhavam nessas instituições. Tão preocupados com o lucro, eles fizeram de tudo para ganhar dinheiro e engordar seus bônus anuais. Agora, dois anos depois do estopim da crise, o mercado passa por um processo de reavaliação da formação dos profissionais. Isso porque, nos EUA, as principais universidades de negócios foram colocadas no banco dos reús durante as piores fases de turbulências financeiras, responsabilizadas por “criar” tais profissionais que buscaram resultados financeiros custasse o que custasse. Diante desse debate, Harvard, considerada uma das melhores escolas de negócios do mundo, anunciou no início deste ano que incluiria em seus MBAs cursos sobre ética e trabalho em equipe. A universidade deve manter seu método de estudo de caso, mas o objetivo é atrelá-lo a trabalhos em grupo fora da universidade que abranjam mais do que o fim único do resultado financeiro satisfatório.

A decisão, apenas uma entre as várias tentativas de evitar outra crise dessa magnitude, se deve à cultura de negócios anglo-saxã, como afirma VanDyck Silveira, CEO do Grupo Ibmec. Para ele, o modelo educacional é típico da economia norte-americana. Ao olhar o capitalismo europeu e asiático, o que se encontra é algo bem diferente. “No capitalismo anglo-saxão, a glória individual e a responsabilidade individual são aumentadas em excesso. O sujeito é remunerado em função da produtividade”, diz. Ele ressalta, porém, que se esse conceito for utilizado com equilíbrio pode ser saudável, mas, de uma forma geral, o que ocorre é a criação de um ambiente de ambição sem limites.

Dentro desse contexto, o diretor acadêmico da Fundação Instituto de Administração (FIA), Maurício Jucá, ressalta que a busca do executivo naquele país, está em gerar ganhos ao acionista para garantir um bônus no final do ano. Esse conceito de remuneração, acrescenta, já está sendo questionado há algum tempo. Vale lembrar que tal cultura não surgiu do nada; está relacionada com o modelo da bolsa de valores – que exige das empresas com capital aberto a superação contínua dos resultados anteriores trimestre após trimestre.

Competências não técnicas
O sistema de avaliação das escolas americanas deixa claro como esse conceito é disseminado, já que valoriza excessivamente o trabalho individual e premia a competição. Por outro lado, o modelo brasileiro, segundo Jucá, sempre teve um comportamento diferente. “A nossa personalidade é muito mais para a atuação em equipe, evitando um pouco essa competição exagerada. Estamos valorizando os trabalhos em grupo há muito mais tempo do que as escolas de negócios americanas”, diz o diretor acadêmico da FIA. O vice-presidente de desenvolvimento humano da Anima Educação e diretor de educação da ABRH Nacional, Luiz Edmundo Prestes Rosa, acredita que uma atuação profissional além dos resultados já é uma realidade para os alunos nas principais escolas de negócios brasileiras e da Europa, embora os cursos daqui tenham a tendência de seguir o modelo norte-americano no que se refere ao conteúdo.

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O diretor da FIA tem a mesma opinião e diz que as melhores escolas brasileiras já têm uma abordagem que inclui a teoria dos stakeholders (que busca negociar além do benefício restrito aos acionistas, executivos e dono da empresa para focar a sociedade em geral). “É um olhar para outros grupos de interesses, que inclui o papel da empresa na sociedade, por exemplo. O resultado financeiro  é fundamental, mas não o único. Deve-se pensar no pagamento dos impostos, na criação de valor para o cliente e no impacto da empresa na sociedade”, diz Jucá.

As mudanças que devem ser implementadas na escola de Harvard e que já vêm sendo adotadas em instituições da Europa e do Brasil devem trazer consigo o que os especialistas em educação e negócios chamam de soft skills, que são basicamente as competências não técnicas do profissional, mas que são indispensáveis para uma liderança competente. O diretor de pós-graduação da ESPM-SP, Licinio Motta, explica que há uma tendência cada vez mais clara entre as escolas de negócios de discutirem essa questão, o que inclui, de forma positiva, a valorização da ética, da gestão de pessoas e da inovação. Segundo o diretor acadêmico do Instituto de Desenvolvimento Educacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carlos Osmar Bertero, a partir de 1960, os cursos de administração queriam ensinar os estudantes a serem analistas exatos, com ênfase em finanças e matemática, por exemplo. “Mas o que falta nos administradores são as soft skills, ou seja, saber liderar, se comunicar com diversos grupos, estimular as pessoas, ser ético.”

Ensino no Brasil
A preocupação com o assunto fez com que, em 2004, um grupo de representantes de doze importantes escolas de negócios do Brasil fundassem a Associação Nacional de MBA (Anamba). Maurício Jucá, da FIA, explica que a associação criou um padrão de credenciamento de cursos de pós-graduação em MBA que inclui ao menos 75% da carga horária preenchida com disciplinas como ética, sustentabilidade, finanças, operações, recursos humanos, comportamento organizacional e teoria da decisão. Para ele, essa é uma clara demonstração de como os aspectos mais humanos já preocupam as instituições por aqui e já começam a ser inseridos no programa educacional das escolas.

Porém, Bertero, da FGV, acredita que ainda há muito a fazer nesse aspecto e que as mudanças tendem a ser lentas. Ele prevê que a inovação nas escolas de administração deva vir pouco a pouco, à medida que as instituições de ensino se dêem conta de que precisam estar em um constante processo de adaptação às mudanças ocorridas na sociedade. Na visão do diretor, ainda é preciso eliminar a compartimentalização do ensino. “Os cursos de administração são compartimentalizados em gestão de pessoas, finanças, vendas, operações, estratégias, etc. Ou seja, não há muita relação entre os cursos. Por outro lado, na vida real, todos os problemas de uma empresa surgem simultaneamente”, diz. Além disso, ele crê que seja preciso aproximar o ensino teórico da prática e trazer a realidade dos negócios e da liderança para mais perto dos alunos.

Mas, segundo ele, hoje os MBAs brasileiros têm em sua forma diferenças bastante grandes dos que são dados ao redor do mundo. Nos EUA, por exemplo, os cursos são em tempo integral e, quase sempre, os alunos moram na universidade, e dedicam todo o tempo aos estudos. No Brasil, o aluno concilia os estudos com uma carga horária de trabalho semanal. Nesse aspecto, os cursos naquele país são, para Bertero, mais restritos e especializados, enquanto os cursos por aqui são, de certa forma, mais massificados.  “Estamos tentando desenvolver programas para um público mais restrito com nível maior de inovação e com maior ênfase em soft skills, responsabilidade social e ética”, completa. Para ele, o que impede, hoje, algumas escolas de deixarem o curso mais completo é que, pela legislação brasileira, o MBA tem de ter 360 horas e um trabalho de conclusão de curso ao final e, por isso, não há como atingir um nível supremo de qualidade com essa quantidade restrita de horas.

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Mudança de grade
Dentro desse contexto, algumas escolas tentam mesclar a grade curricular e inovar. Licínio, da ESPM-SP, conta que a escola tem uma constante preocupação em incluir inovações nos cursos de MBA e que isso vem sendo feito, pouco a pouco. “Pretendemos cada vez mais abordar a ética e outros assuntos como esses, capacitando professores para discutir isso em sala de aula”, diz. Ele conta que há uma academia de treinamento para professores em que esse assunto é tratado e no qual o conceito de gestão de pessoas também deve ser ampliado. A expectativa é que, ao discutir esses assuntos com os professores, eles possam disseminar essa cultura.

No Ibmec não há uma disciplina específica de sustentabilidade e ética, segundo Silveira. “Você precisa ensinar isso destilado em todas as disciplinas. A ética tem de estar dentro de finanças, de marketing, de economia”, diz. Ele acredita que as principais escolas de negócios do Brasil já têm profissionais que levam o conceito da ética para dentro da sala de aula e disseminam a ideia da liderança responsável. A FIA, segundo Jucá, já tem se preocupado com essas questões há algum tempo e oferece disciplinas de ética e sustentabilidade, por exemplo, desde 2004.

Para Edmundo Rosa, da Anima Educação, as escolas de negócios do Brasil já começam a dar sinais de mudanças, mas ainda é preciso novos passos para fazer da educação um fator que pode realmente ter força para modificar o ambiente de negócios. “Todos os currículos da nossa formação executiva têm de responder às mudanças pelas quais passa a sociedade. Isso significa ampliar a consciência para questões relevantes como sustentabilidade, diversidades e direitos humanos”, diz.  Ele lembra, por exemplo, dos 10 princípios do Pacto Global da ONU que são parte do dia a dia de de poucas empresas no Brasil. De acordo com ele, esses pontos deveriam estar sendo passados adiante no próprio ambiente educacional. Está claro que os futuros profissionais precisam, desde a sua pós-graduação, de debates em sala de aula e de situações práticas sobre questões éticas e sustentabilidade. Mesmo assim, a característica cíclica da economia garante que picos e vales vão continuar acontecendo. O que se pode buscar com esse novo modelo de educação, no entanto, é que a próxima crise financeira não seja tão agressiva como a de 2008.

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