Carreira e Educação

A onda verde

Gumae Carvalho, Karin Hetschko
5 de junho de 2013
Adriano Vizoni
Luiz Edmundo, da GranBio: pessoas atraídas por uma causa

O slogan era categórico: você ainda teria um. E o que prometia ser uma espécie de revolução contra os combustíveis derivados do petróleo, em meados dos anos 1970, acabou se transformando, anos depois, em um verdadeiro mico. Sim, naquela altura, ter um carro a álcool era perder preciosos minutos “esquentando” o motor nas manhãs frias, antes de sair de casa. Isso sem contar as filas nos postos e a falta do produto em função da queda do preço do petróleo e do aumento do preço do açúcar no mercado internacional. E o que era doce acabou-se.

Com o advento de novas tecnologias, foi possível levar para as ruas carros aptos a usar duas ou mais fontes de combustível. Gás, energia elétrica, hidrogênio e o etanol (novo nome do álcool) trouxeram uma alternativa menos poluente à gasolina. E com eles vieram, também, novas oportunidades no mercado de trabalho e uma tendência que deve crescer nos próximos anos: a dos empregos, ou carreiras, verdes. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), os empregos verdes são aqueles que reduzem o impacto ambiental das empresas e setores econômicos, em última análise, para níveis que são sustentáveis. “Imagine uma indústria que pretenda diminuir a emissão de gás carbônico. Ela vai contratar pessoal para isso, para encontrar as melhores soluções. E são essas pessoas um bom exemplo de carreira verde”, explica Luiz Edmundo Rosa, vice-presidente de pessoas e organização da GranBio. E há, ainda, os empregos verdes de empresas que já nasceram verdes. Como é o caso da própria GranBio: uma companhia de biocombustíveis que irá produzir etanol de segunda geração, isto é, a partir da palha e do bagaço da cana que restaram do primeiro processo de produção do combustível.

Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os empregos verdes são empregos dignos. Isso porque além de lidarem com a redução do consumo de energia e de matérias-primas, com a limitação da emissão de gás carbônico, a minimização do desperdício e da poluição e com a proteção dos ecossistemas, essas carreiras também são blindadas com as leis trabalhistas do segmento, com rendimentos justos (trabalham com a ideia de distribuição de renda) e também elevam o poder de decisão do trabalhador.

Explica-se: as mudanças climáticas e o excessivo uso de recursos escassos pedem soluções inovadoras para desenvolver economias mais sustentáveis e verdes. A promoção das carreiras verdes torna-se, então, fulcral para essa questão. Contudo, as organizações acreditam que para promover esse tipo de trabalho são necessárias estratégias inovadoras que só serão atingidas com diálogos entre empregadores e empregados. Nesse ponto, ganha destaque a área de RH. Ela deve liderar propostas que contribuam para trazer um novo olhar para as empresas de forma a fornecer respostas às necessidades de habilidades e competências específicas para os empregos verdes, como afirma Sheila Pimentel, diretora de Organismos Multilaterais da ABRH-Nacional e presidente do Instituto Humanitare, entidade criada para promover as ações e o calendário oficial da ONU e que lidera, de forma inédita no mundo, um programa de transformação de competências e técnicas a serviço de novos modelos de negócios mais sustentáveis e alinhados às carreiras verdes.

Caminho a seguir
No Brasil, o setor sucroalcooleiro, a indústria de defensivos agrícolas, a indústria química e petrolífera, e a de papel e celulose são algumas das áreas que mais demandam profissionais verdes, explica Jeffrey Abrahams, fundador e CEO da Abrahams Executive Search. No entanto, na opinião de Luiz Edmundo, com o passar do tempo, todas as carreiras serão mais verdes. Ou seja, se nos anos 1970 todos iriam ter um carro a álcool, no futuro, todos deverão ter um emprego ligado à sustentabilidade. “Até porque as empresas têm se preocupado mais com o impacto de seus produtos e processos no meio ambiente”, afirma Daniela Ribeiro, gerente sênior da divisão de engenharia, vendas & marketing da Robert Half.

Mas, para que o tom esverdeado atinja todas as pessoas no ambiente corporativo, o mundo precisará passar por um processo de transição. “A maior parte das pessoas que estão alocadas no sistema industrial deste planeta não está trabalhando nesse conceito”, diz. Muito pelo contrário: na opinião do executivo, ainda há muito o que fazer para minimizar o impacto ambiental das emissões de CO2. Além disso, encontrar profissionais alinhados a esse conceito não é algo muito simples. Um motivo é a falta de cursos focados no assunto. Luiz Edmundo conta que, em geral, o tema sustentabilidade é escassamente tratado nas universidades. “O que deveria ser um tema transversal, visto em todas as disciplinas, muitas vezes fica restrito a um módulo”, diz.

Com a missão de fechar o ano com 300 colaboradores (atualmente a GranBio conta com 70), o executivo tem buscado no mercado profissionais com maturidade suficiente e que desejam reciclar suas carreiras. “Tenho observado que ser uma empresa verde é um fator de atração. As pessoas vêm pela causa, pelo fato de contribuir para o planeta. Isso gera um engajamento maior, algo tão necessário nos dias de hoje para qualquer empresa”, conta. Tão necessário quanto construir um mundo melhor. Para Abrahams, esse caminho conta sim com a participação de um profissional verde, mas vai além. “Esse profissional, que fervilha, além de ser guardião da sustentabilidade, deve assegurar as relações humanas dentro das empresas e repassar os bons valores que vêm de berço e da infância, como bons cidadãos. Pode parecer piegas, mas é assim que se constrói uma sociedade sustentável”, finaliza.


Características fundamentais
Habilidades centrais para profissões verdes

> Habilidades estratégicas e de liderança
Permitem aos policy-makers e executivos estabelecerem iniciativas corretas e criarem condições condutoras para a produção mais limpa, transporte mais limpo, etc.

> Habilidades de adaptabilidade e transferência
Permitem que os trabalhadores aprendam e apliquem as novas tecnologias e processos necessários aos seus empregos verdes.

> Conscientização ambiental
Incentivam a vontade de aprender sobre desenvolvimento sustentável
e como praticá-lo.

Fonte: Instituto Humanitare


Razões de mudança
No estudo Trabalhando para um desenvolvimento sustentável – Oportunidades para trabalhos decentes e inclusão social em uma economia verde, produzido pela Organização Internacional do Trabalho para apoiar os trabalhos da conferência Rio + 20, realizada ano passado no Rio de Janeiro, são elencados diversos motivos para migrarmos nossos trabalhos e nossa economia para um modelo mais sustentável. Entre eles estão:

> Pesquisas sugerem que o atual modelo do mercado de trabalho e da economia irá afetar diretamente a produtividade. Se nada for feito para cessar o uso indiscriminado de recursos naturais e desenvolver uma economia sustentável, prevê-se a diminuição da produtividade mundial em 2,4% em 2030 e 7,2% em 2050.

> O atual modelo também é ineficiente em gerar novos e dignos empregos. O modelo falhou nessa missão e criou um sistema instável. Veja a crise do sistema financeiro que gerou altos custos para companhias e trabalhadores assim como gerou o desemprego.

> Caso esse cenário de desperdício e consumo desenfreado perdure, teremos os seguintes resultados: escassez de água, inflação escalonada dos alimentos, do custo com saúde, da energia e demais commodities. O que vai nos conduzir a problemas sociais como pobreza, população desnutrida e péssima distribuição de renda, visto que famílias de baixa renda gastam uma significativa parte da receita em itens como alimentos e energia. Por exemplo: uma pesquisa conduzida pelo Banco Mundial em 2010 revelou que famílias pobres da África gastavam 25% de sua renda no consumo de energia; para as famílias mais abastadas essa relação representava apenas 2% da renda.

> O investimento em produtos e serviços ecológicos e sustentáveis também resultará na criação de empregos diretos e indiretos.  Espera-se o crescimento de 0,5% até 2% do mercado de trabalho mundial (o que representa 60 milhões de novos empregos). Voltando ao estudo
do Banco Mundial, ele também indicou que, se o Brasil mantiver programas que controlam a emissão de  carbono, usar fontes renováveis de energia e parar com o desmatamento, protegendo as florestas, prevê-se um crescimento anual de 1,13% do mercado de trabalho.

> Outro dado importante é o número de empregos gerados com a indústria de recicláveis: 4 milhões de empregos formais e de 15 a 20 milhões de informais.


Cases do bem
Dois exemplos de mudanças na economia em função de condições socioambientais que propiciaram a criação de empregos verdes

Bangladesh e a energia solar

Getty Images
Abastecimento de energia fez com que pequenos negócios emergissem

Aproximadamente metade da população de Bangladesh (85 milhões) não tem acesso à energia. Em 2010, o governo daquele país fez um mapeamento, detalhando a sua intenção de estender a eletricidade para toda a população. A ideia do governo era utilizar ainda mais instalações de sistema solar a essa parcela do povo. Desde 2003, instalações de sistemas solares cresceram rapidamente, alcançando 1,2 milhão de unidades em 2011. A mantenedora do projeto é a fundação GrammenShakti, do Grammer Bank, que subsidia o microcrédito à população de baixa renda da região. A atual meta é alcançar 2 milhões em 2014. O sistema solar oferece uma fonte de luz bem mais potente do que a luz de querosene, usada na maioria das casas de Bangladesh. O resultado positivo da iniciativa foi sentido em diversas frentes. O crescimento do abastecimento de energia fez com que pequenos negócios emergissem e aumentou o número de horas em que os alunos permanecem nas escolas. Por outro lado, a instalação desse tipo de sistema também necessita de pessoas qualificadas para trabalhar com o processo, como técnicos de energia solar e engenheiros, o que gerou muitos empregos na economia de Bangladesh. Recentes estimativas mostram que o setor assegura 60 mil jobs.  A meta da instituição é alcançar o número de 100 mil jobs em 2015.

Índia e o cultivo sustentável de algodão

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Setor emprega 7 milhões de pessoas

O algodão é um item muito importante na economia indiana. O cultivo dessa commodity emprega 7 milhões de pessoas e representa 38% das exportações da Índia. Contudo, o cultivo tradicional utiliza um alto índice de pesticidas, causando um considerável dano ao meio ambiente. Essas e outras situações impulsionaram o setor a investir num cultivo orgânico e sustentável.  Ao comparar os dois métodos, percebem-se ganhos com a segunda opção. Estudo conduzido em 2010 pelo Greenpeace revelou que os fazendeiros que optaram pelo método sustentável obtiveram ganhos superiores (200%) aos daqueles que persistiram no método tradicional. O resultado no mercado de trabalho também é favorável ao método sustentável. Acredita-se que, se houvesse total migração para campos de cultivo orgânico, seriam criados mais de 2 milhões de empregos. 

 

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