Gestão

A ópera e a gestão

Eugenio Mussak
7 de outubro de 2014
Eugenio Mussak / Crédito: Divulgação
Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor / Crédito: Divulgação

Na década de 1920, Viena, a cidade que revelou Mozart, Liszt e Strauss, conservava – e ainda conserva – a tradição dos recitais, concertos e óperas, que encantam os turistas e que são frequentadas pelos moradores locais. Entre estes, um jovem vienense de 18 anos uma vez por semana aguardava na soleira do teatro até que, minutos antes do início da sessão, os assentos não vendidos fossem liberados, de graça, para os estudantes. Seu nome era Peter, da família Drucker.

Entre tantas, uma ópera em particular marcou o jovem para sempre, e influenciou não só sua vida como sua obra: Falstaff, de Giuseppe Verdi, cujo personagem central é retirado de uma peça de Shakespeare. E os motivos foram dois: o perfeccionismo artístico da obra e o fato de esta ter sido a última opera de Verdi, e ele tê-la composto quando estava já com 80 anos de idade.

Ao pesquisar sobre a obra e seu autor, o jovem acabou descobrindo que, enquanto estava escrevendo Falstaff, Verdi foi questionado por que ele, que já era considerado o maior compositor de óperas do século 19, em vez de descansar e cuidar da saúde, tinha se proposto a uma empreitada tão árdua. Sua resposta: “Durante toda minha vida como músico lutei para atingir a perfeição e ela sempre me escapou. Certamente eu tinha a obrigação de tentar mais uma vez”.

O que marcou para sempre Peter Drucker, que viria a ser o Verdi da administração, foi esse compromisso com o fazer bem feito e evoluir permanentemente. Reconhecido no mundo todo como a mente que organizou, revolucionou e disseminou a ideia da gestão como ciência, foi na arte que Peter Drucker encontrou sua inspiração maior. Assim como o compositor italiano, ele também foi longevo, faleceu em sua casa em Claremont, na Califórnia, perto de completar 96 anos, com a mente lúcida, e, provavelmente, também achando que tinha perseguido a perfeição por toda a vida, e que esta teimava em lhe escapar.

O guru maior da administração contava essa história para seus alunos, e chegou a colocá-la em um de seus livros, como instrumento para estimular os jovens administradores a assumirem, em suas carreiras, o compromisso de aprender sempre, questionar constantemente seus procedimentos, e buscar o aprimoramento de maneira obsessiva. Esta, sem dúvida, foi uma de suas maiores contribuições ao pensamento humano, além de demonstrar a conexão que existe entre as várias áreas do conhecimento. Ele, que buscava se aprofundar em uma área diferente do conhecimento a cada cinco anos, a ponto de quase se tornar um especialista (a última foi arte oriental), explicava os temas de gestão usando os ensinamentos da filosofia, da mitologia, da biologia e de tantas outras disciplinas, e dizia que tudo está conectado a tudo. Não há bons pensadores de administração. Há bons pensadores. Foi o que vimos no último CONARH, para ficar em um bom exemplo.

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