Benefícios

A produtividade é bela

Felipe Falleti
14 de outubro de 2009
Cuidar da beleza ajuda, mas só se a empresa não maquiar as políticas de RH

Nos últimos meses, a relações públicas da clínica cirúrgica Forma Humana, Juliana Casellatto, tem procurado o RH de médias e grandes empresas para fazer uma proposta insólita: um plano de benefícios que inclua cirurgia plástica. A ideia aparentemente controversa, no entanto, é fundamentada no pensamento de que profissionais mais bonitos e de bem com sua aparência são mais produtivos. “Ao observar as fichas dos pacientes que nos procuraram ao longo dos últimos anos, notamos que nos questionários pré-cirurgia o item ´ter uma melhor imagem no trabalho´ aparece de forma muito recorrente. Fizemos, então, uma pesquisa mais aprofundada que nos revelou uma relação muito forte entre ter uma boa imagem pessoal e melhora na produtividade dentro da empresa”, conta Juliana.

De posse desses dados, ela já conseguiu convencer uma dezena de RHs a fechar parceria com a clínica. “No início, a reação desses executivos é de estranhamento. Para alguns gestores, a plástica ainda é vista como item superficial e fora do núcleo de benefícios mais importantes. Aos poucos, no entanto, conseguimos demonstrar que, ao oferecer uma opção de cirurgia, a empresa pode tornar seu plano diferenciado e obter ganhos na confiança, imagem e autoestima de seus colaboradores”, conta Juliana, que diz ter melhor receptividade de RHs conduzidos por mulheres que por homens.

A parceria proposta não onera os custos das empresas, mas permite que a clínica tenha acesso a seus funcionários e ofereça planos de descontos para cirurgias estéticas. “O interesse dos colaboradores é muito grande. Ainda há muita gente que vê a plástica como algo para artistas e milionários e, ao saber que isso está ao seu alcance, logo quer tirar informações”, diz Juliana.

Consultórios lotados
Os cuidados com a beleza como um possível item de sucesso profissional têm levado milhares de trabalhadores a consultórios de saúde procurando orientação para ter uma pele mais bonita, dentes alinhados, cabelos com brilho e silhueta longilínea. A dermatologista Ellen Cato, da clínica paulista Alergoclínica, conta que recebe dezenas de pacientes que buscam tratamentos para a pele e cabelos com a intenção de sentir-se melhor no ambiente de trabalho.

“Imagine uma pessoa que trabalha com vendas ou relações com parceiros, precisa cumprimentar terceiros o tempo todo e sofre de dermatite [inflamação na pele] nas mãos. Isso pode causar constrangimentos e, naturalmente, leva os profissionais a buscar ajuda médica. Também recebo pedidos de tratamento para dermatite seborreica [caspa], acne e manchas no rosto. Todas essas características, se não forem bem cuidadas, podem dar a impressão de desleixo e influenciar na percepção que as pessoas têm desse profissional”, conta a médica. Ellen explica que, com exceção dos tratamentos de saúde, todos os outros procedimentos de caráter estético, como um peeling para acne ou aplicações de botox para atenuar rugas e marcas de expressão, não têm cobertura dos planos de saúde tradicionais.

Para tentar atender às necessidades estéticas de seus colaboradores – que não são cobertas pelos planos de saúde – diversas empresas têm procurado parcerias com clínicas de beleza, spas e centros médicos de olho numa melhor imagem e produtividade para seus funcionários. Grandes corporações como Google e IBM, por exemplo, já aderiram a visitas de manicures, maquiladores e cabeleireiros às suas instalações. O cuidado é visto como uma forma de melhorar a imagem e a satisfação pessoal dos funcionários.

A empresária Cássia Salles Lopes, sócia da clínica estética Aloha, conta que criou produtos específicos para o mercado corporativo justamente para atender a essa demanda que, segundo a esteticista, cresce exponencialmente.  “A Aloha surgiu como uma clínica voltada para o público geral mas, aos poucos, descobrimos que há um nicho de mercado muito forte no segmento corporativo. A partir dessa conclusão, criamos alguns produtos especialmente voltados para empresas, o que se revelou uma ótima ideia.”

Cássia especializou-se em levar seus cuidados estéticos como depilação, corte de unhas, massagem e até serviços odontológicos para dentro das companhias. “Montamos uma sala de atendimento dentro das empresas e fornecemos todos nossos serviços lá. Em alguns casos, a organização paga tudo para o funcionário; em outros, oferece apenas um desconto. Em qualquer cenário, o retorno para o empresário é muito positivo em termos de ganho de produtividade e satisfação com a companhia”, diz Cássia.

Outra empresa a adaptar-se ao mundo corporativo foi o Olímpia Spa, rede com sede em São Paulo que explora serviços estéticos e de relaxamento. Segundo o sócio do spa, Rui Miadaira, a busca por esses serviços por empresas vem crescendo em ritmo acelerado nos últimos anos, o que impulsionou a criação de produtos específicos para atender pessoas jurídicas – em vez de apenas consumidores individuais. “Hoje, temos clientes empresariais que nos procuram para atuar num evento, numa festa ou simplesmente para atender alguns trabalhadores que ganham um produto chamado ´dia no spa´ como prêmio por bom desempenho”, diz Miadaira.

Para a psicoterapeuta Andrea Bastos, pesquisadora de saúde no trabalho pela PUC-SP, os cuidados estéticos ganharam espaço no mundo corporativo impulsionados pela ideia de que os colaboradores devem refletir a imagem da companhia. “As empresas não podem contratar profissionais apenas por sua beleza, pois precisam de competências técnicas e talentos específicos. No entanto, há uma tendência dessas mesmas empresas a valorizar a imagem pessoal de seus trabalhadores”, conta Andrea. A pesquisadora admite que mudanças estéticas podem tornar os profissionais mais produtivos, mas alerta que tais benefícios só fazem sentido num ambiente de cuidado integral com o trabalhador.

“Podemos perceber que uma pessoa que emagrece ou retira alguma cicatriz incômoda pode se tornar menos tímida e mais confiante. A questão central é que as empresas não podem privilegiar esse cuidado e falhar com outros, como por exemplo submeter seu colaborador a condições de trabalho humilhantes ou experiências em que ele se sinta desvalorizado. No dia a dia corporativo, essas situações tensas são muito comuns e minam a confiança do trabalhador de forma muito mais poderosa do que uma correção estética pode compensar”, conta a psicóloga.

Na avaliação de Andrea, os cuidados com acne, cabelos, peso e alinhamento dos dentes vêm se tornando uma regra não escrita dentro das empresas e uma ferramenta para melhorar as relações comerciais das companhias. “Em determinados segmentos corporativos, para você ser reconhecido como um profissional de sucesso precisa também adequar-se a determinados padrões estéticos. Nesse sentido, muitas empresas se movem para oferecer ferramentas para seus colaboradores se adequarem a esses padrões”, analisa Andrea.

Maquiagem ilegal

Planos de saúde fazem blitz contra troca de procedimentos

Um dos segredos dos planos de saúde que se mantêm no mercado por anos a fio é o controle rigoroso de custos e uma obsessão pelo combate a fraudes e abusos. A crescente demanda por cuidados estéticos acendeu uma luz amarela dentro das seguradoras e operadoras que buscam identificar de todas as formas o recurso a exames e consultas médicas cujos objetivos finais sejam realizar tratamentos estéticos nos pacientes. Um dos métodos usados é checar se não há troca de procedimentos nos consultórios e clínicas. A prática é recorrente em algumas unidades de saúde que, para atender o paciente que não pode (ou não deseja) arcar com o custo do tratamento estético, faz um acordo assinando guias de exames e consultas que gerem remuneração à clínica. Na prática, troca-se um procedimento sem cobertura (estético) por outro (de saúde) coberto pelo plano. A troca de procedimentos gera custos excessivos para o plano de saúde e, quase sempre, também para o RH que contratou a seguradora, já que a maioria dos contratos prevê reajustes e compensações em função do maior ou menor uso que seus funcionários fazem do serviço. Uma das recomendações das seguradoras é que as companhias alertem seus colaboradores para a importância de usar o plano dentro das regras estabelecidas e sobre os riscos que associados, clínicas e profissionais de saúde estão expostos ao se envolver em fraudes. Esses casos podem terminar em processos na Justiça, com multa e indenizações incidindo sobre os autores da troca de procedimentos.

Um item especialmente controverso é o de ganho de peso por parte de trabalhadores já obesos para que eles se qualifiquem para a cirurgia de redução de estômago, já que esse procedimento pode ser coberto pelo plano de saúde caso o paciente cumpra determinados requisitos, como estar com IMC (Índice de Massa Corpórea ou relação entre peso e altura) entre 35 e 40 (as regras variam de plano para plano e em função de o paciente ter ou não doenças associadas à obesidade). Em tese, é possível engordar um pouco mais com acompanhamento médico para atingir o peso mínimo exigido para a cirurgia bariátrica (redução de estômago). A prática, no entanto, não é recomendável sem antes o paciente tentar métodos tradicionais de emagrecimento, como dieta alimentar e exercícios regulares. Além disso, a cirurgia oferece diversos riscos ao paciente, entre eles o de voltar a engordar depois até sofrer infecções e complicações médicas no curso da operação e no pós-operatório.

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