A sala de aula evaporou

    O que uma empresa de móveis de luxo e uma operadora de telefonia celular da Turquia têm em comum? Ambas, a Hermann Miller e a Turkcell, respectivamente, adotam um novo conceito em seus programas de educação corporativa. Trata-se do mobile learning (ML), um dos principais temas abordados na edição deste ano da conferência da ASTD – que, aliás, teve a delegação brasileira como a terceira em número de participantes.

    As novas tecnologias da informação e comunicação fazem parte da vida de todos nós. Estamos cada vez mais conectados (ou melhor, multiconectados). E por que não poderia acontecer o mesmo com o nosso processo de aprendizado? O mobile learning é uma tendência que veio para ficar, possibilitando o ensino e a aprendizagem por meio da distribuição de “pílulas de conhecimento”, por exemplo, ou com soluções de suporte ao desempenho, quando temos literalmente nas mãos o acesso a conteúdos didáticos e educacionais nos momentos em que mais precisamos. Mas, o que quer dizer mobile learning? Trata-se, por exemplo, de “entregar” a informação adequada para a pessoa certa na hora certa. Trata-se, também, de adaptar o conhecimento e a forma de aprender a cada mídia e ao estilo de cada público-alvo. Mas é uma tendência muito mais forte do que apenas esses exemplos.

    Se você tem alguma dúvida sobre essa tendência, experimente pensar na população mundial, que hoje gira em torno de 7 bilhões de pessoas. Em seguida, pense que, nessa população, existem, hoje, cerca de 5 bilhões de usuários de equipamentos móveis de telecomunicação. Imagine o potencial dessa mídia. Você conhece alguma sala de aula desse tamanho? Observamos um crescimento acelerado na adoção dessa nova abordagem pelas organizações que possuem grandes contingentes de trabalhadores a serem capacitados. A Vivo, por exemplo, utiliza essa metodologia para, rapidamente, disseminar informações entre sua força de vendas, enquanto empresas como o Itaú a utilizam como um mecanismo para reforçar conteúdos trabalhados em outras frentes.

    Algumas instituições educacionais já disponibilizam seus conteúdos em tablets para públicos tão diferentes quanto executivos que participam de seus programas de desenvolvimento e graduandos, respectivamente. Os potenciais oferecidos por essa nova abordagem são imensos e estamos bem longe de explorá-los em sua totalidade, apesar dos excelentes resultados já alcançados. Após participarmos da ASTD 2011, na qual foram apresentados os resultados da pesquisa Mobile learning: o aprendizado na palma de sua mão, no entanto, algumas perguntas ficaram evidentes: como ficam as demais mídias – ou alternativas metodológicas – utilizadas tradicionalmente na educação corporativa? Será que o mobile learning irá ocupar o lugar já conquistado pelo e-learning? 

    #Q#

    A pesquisa apresentada sugere que as alternativas e-learning e ML são complementares. Essa é uma abordagem na qual acreditamos e defendemos, uma vez que as soluções transmídias têm demonstrado um retorno cada vez maior frente às alternativas tradicionais de ensino. E não somos os únicos. Tim Flood, consultor em tecnologia da Universidade de Stanford, Mike Sharples, da Universidade de Birmingham, Rebeca Clark, Judy Brown e Dotie Brienza são alguns dos autores mais respeitados nessa área e que referendam essas tendências.

    Quais seriam, então, as características do mobile learning e do e-learning como já conhecemos? No quadro Internet móvel versus internet tradicional, retirado da pesquisa da ASTD 2011, estão algumas informações que podem ajudar no entendimento das características de ambas as alternativas. Porém, apesar de tudo que dissemos até aqui, é importante lembrar que apenas 15% das organizações americanas utilizam mobile learning, ainda segundo a pesquisa da ASTD. No quadro Aprendizado móvel hoje e no futuro há um conjunto de dados que mostram os diferentes estágios de adoção da tendência para utilização do mobile learning:

    Mobile learning e sala de aula
    Ao mesmo tempo que observamos um crescimento acelerado da adoção do mobile learning como alternativa frente a outras abordagens de ensino-aprendizagem, não entendemos as abordagens como mutuamente exclusivas. Casos de organizações que tiraram proveito dessa metodologia mostram isso claramente. A abordagem blended, que conjuga diferentes metodologias e mídias, firma-se como a maior tendência. No atual contexto, os programas presenciais estão sob fogo cerrado. Sua duração é cada vez menor, os superiores dos participantes não os liberam para os programas, os custos de deslocamento são altos etc.

    Cada vez mais vemos a sala de aula como um local para a “operacionalização” de um conhecimento ou de uma informação já obtidos de forma não presencial. Nessa situação, obtemos a potencialização da sinergia no processo de educação corporativa. Estamos falando da sincronização entre os conhecimentos, habilidades e atitudes. Surge, daí, uma segunda questão: quais são os dispositivos que permitem o desenvolvimento de uma experiência de mobile learning mais adequada? Uma das primeiras análises deve ser a identificação do dispositivo mais prevalente. No contexto americano, por exemplo, 85% das organizações disponibilizam celulares para seus colaboradores. Enquanto isso, apenas 30% disponibilizam tablets.

    #Q#

    Quando fazemos uma comparação entre celulares, tablets e laptops, a diferença que pesa a favor do primeiro grupo é o mix de mobilidade, portabilidade e diversidade de opções propiciado por esses aparelhos. Do mais simples SMS, passando por soluções educacionais que conjugam vídeos, conteúdos interativos e sistemas de suporte on-line, o avanço dos aparelhos celulares nos últimos anos permitiu a construção de soluções educacionais contextuais e com uma experiência rica e agradável. Ao contrário de “adaptar” um conteúdo desenvolvido para o ambiente web para as pequenas telas dos celulares, os projetistas começam a criar uma abordagem própria, que combina as necessidades do público-alvo às funcionalidades oferecidas pela tecnologia. Georreferência, conectividade, tecnologia push e a possibilidade de processamento de informações visuais (com as quase onipresentes câmeras) são algumas das alternativas que já fazem a cabeça desses projetistas.

    Barreiras pela frente
    Há obstáculos, porém, a serem considerados. O uso adequado da banda, em evolução constante, a falta de controle sobre os aparelhos que serão usados pelos participantes e sua adequação aos padrões de mercado, a segurança da informação e dúvidas a respeito de como a legislação trabalhista encara o ensino “pervasivo”, que pode atingir o participante em qualquer hora e lugar, são algumas das barreiras a serem enfrentadas. Tony Bingham, presidente da ASTD e especialista no assunto, apresenta alguns questionamentos que toda organização interessada em implementar ações de mobile learning deve fazer para o melhor proveito da metodologia:

    > Essa junção de mídia e tecnologia fará diferença para o contexto educacional do público-alvo?
    > Qual a plataforma mais adequada para a solução que você busca?
    > Como vai ocorrer o engajamento do participante no processo de ensino-aprendizagem?
    > Como vai ocorrer o compartilhamento e colaboração entre os participantes? Eles serão receptores de conteúdo ou terão algum tipo de interação entre si?
    > O contexto organizacional favorece essa alternativa?
    > Como vai ocorrer a mensuração dos resultados?
    > O que você e sua organização podem fazer para que essa seja uma experiência interessante, divertida, diferente e sedutora?
    > Qual a área com mais possibilidade de sucesso para começarmos?

    Resumindo os cuidados de natureza estratégica a serem considerados, Mohamed Ally, professor na Universidade Athabasca, Canadá, e autor do livro Mobile learning: transforming delivery of education and training (ou Transformando a entrega da educação e do treinamento), observa que qualquer esforço para definir um modelo de mobile learning deve considerar:

    > O participante;
    > O dispositivo;
    > A dimensão social.

    Segundo o professor, quando não conseguirmos encontrar a convergência entre as três dimensões, a probabilidade de termos sucesso em nossa solução educacional cai. Isso significa que devemos buscar respostas a outras perguntas como:

    > Quais as plataformas e dispositivos com os quais os participantes interagem?
    > Esses dispositivos oferecem as características físicas, técnicas e funcionais que precisamos para nossa solução?
    > Como o participante interage com seu dispositivo?
    > Que papel esse dispositivo representa em sua vida pessoal e profissional?
    > Qual o estilo de aprendizado do público-alvo, ou que estilos de aprendizado devem ser considerados para esse público?

    #Q#

    Trabalhando há muitos anos na área da educação corporativa, já vimos excelentes ideias e alternativas não vingarem em função de pequenos e repetidos erros em seus processos de concepção, venda, implantação e avaliação. Caso as organizações não atentem para algumas reflexões, podemos ver mais essa abordagem indo por água abaixo, apesar da grande quantidade de casos de sucesso que encontramos em empresas de diferentes portes e setores, no Brasil e no exterior. A seguir, alguns exemplos:

    > A utilização de mobile learning não deve ser encarada apenas como uma mudança. É preciso mostrar e entender com clareza como essa abordagem traz elementos novos para nossas soluções educacionais, propiciando mais efetividade em custos e aprimorando resultados (da reação ao impacto).
    > O mobile learning não deve ser encarado como uma moda, mas como uma tendência.
    > O público-alvo deve ter familiaridade com seus dispositivos, bem como ter, com eles, uma relação integrada.
    > Não podemos repetir velhas fórmulas em uma nova plataforma. O grande objetivo deve ser explorar adequadamente suas potencialidades na solução educacional, e não encontrar aplicações na solução educacional para as potencialidades do dispositivo.
    > O desenvolvimento da solução deve priorizar as pessoas, seus estilos de aprendizagem e seus objetivos – as pessoas continuarão aprendendo aquilo que é relevante para elas, independentemente de isso ser entregue na sala de aula, na web ou no dispositivo móvel.
    > Públicos diferentes demandam soluções diferentes, por conta de sua geração, área de atuação, origem e forma de se relacionar com os dispositivos.
    > O aprendizado acontece cada vez mais social e colaborativamente e isso vale ainda com mais força para os dispositivos móveis, dada sua capacidade de prover soluções de conectividade e colaboração.
    > O dispositivo móvel permite mais um degrau no conceito de personalização em massa, permitindo à educação corporativa buscar o conceito de massa crítica.

    Nossa análise do cenário mostra um mercado crescente, com diversas potencialidades a serem aproveitadas pelas organizações. A coexistência entre ensino presencial e e-learning também precisou de um período de teste nas empresas até que ficasse claro que não bastava replicar modelos tradicionais em uma nova mídia. O mesmo pode ser observado para o mobile learning, em que não adianta reduzir as ações de e-learning para uma tela menor. Devemos explorar aquilo que só os dispositivos móveis nos oferecem hoje de forma integrada ao processo educacional, para, enfim, termos a sala de aula ao alcance das mãos. Para terminar, a pergunta que não quer calar: será que essa tendência só vale para a geração Y? Radicalismos à parte, outras gerações poderão ter um pouco mais de dificuldade na convivência
    com essas novidades, mas qual geração não quer aprender mais rápido, no momento que achar mais adequado, no local em que desejar?

    *Daniel Abadi Orlean é diretor executivo da Affero e **L.A. Costacurta Junqueira é CEO do Instituto MVC.

     

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