Afinados com o mercado

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Chegar a um determinado lugar em um determinado horário, sentar em uma sala de aula, em frente a uma lousa e escutar por horas a fio o monólogo de um professor e, por vezes, participar de algumas discussões e rodas de conversas sobre problemas clássicos enfrentados por empresas. Esse modelo de educação aplicado em universidades, em especial em educação corporativa, já está ultrapassado. Reina agora o protagonismo dos alunos e o foco é, cada vez mais, a experiência, com resolução de problemas reais, em empresas reais. É nesse curso que seguem as principais escolas voltadas para a formação de executivos e líderes. E, para 2014, a tendência é investir cada vez mais na prática.

José Mauro Gonzales, da BSP
Gonzales, da BSP: maior aproximação entre empresas e escolas

“Tivemos duas tendências na educação executiva em 2013: uma de cursos mais generalistas, procurando suprir uma necessidade ampla dos profissionais de se desenvolverem em competências de administração e outra de cursos mais pontuais, voltados para necessidades específicas”, avalia José Mauro Gonzalez, diretor de programas corporativos e internacionais da Business School São Paulo (BSP). O foco nas necessidades e problemas correntes do mercado é uma das grandes mudanças dos cursos de educação corporativa dos últimos anos, antes mais caracterizados como abrangentes e informativos. “Essa tendência deverá fomentar novas formas de parceria e novos métodos de ensino e aprendizagem. Cada vez mais as empresas vão querer se aproximar das instituições de ensino, e vice-versa, e a sala de aula será apenas uma das opções”, acrescenta Gonzalez.

Com base nisso, os cursos regulares têm sido atualizados com frequência, para debater os grandes temas que preocupam empresas e executivos, ao passo que crescem a demanda e a oferta por cursos corporativos customizados. “As mudanças sempre ocorrem, seja por conta de novas discussões, de novas tecnologias ou de novas demandas”, afirma Stavros Xanthopoylos, vice-diretor do Instituto de Desenvolvimento Educacional da FGV. “Para 2014, todos esses fatores estarão presentes, e os cursos existentes oferecerão maior flexibilidade ao aluno que precisa se atualizar, mas que dispõe de pouco tempo ou que precisa viajar com frequência”, afirma.

A flexibilidade continua sendo uma das apostas das instituições. Cobranças cada vez maiores no mundo corporativo e um mercado cada vez mais globalizado exigem maiores esforços por parte dos executivos – seja para estarem conectados 24 horas por dia, seja para atenderem clientes de diversos mercados. A falta de tempo tem incentivado as escolas a oferecerem uma grade mais maleável e sempre com a ajuda da internet. “Vamos trabalhar mais o modelo blended. Os cursos de pós-graduação estão ficando cada vez mais multiplataformas, o que significa dizer que mesmo os presenciais utilizarão tecnologias a distância”, afirma Xanthopoylos. Segundo ele, a FGV disponibilizará ferramenta de ensino-aprendizagem mais complexo, que reforçará experiências dentro e fora da sala de aula, a fim de facilitar a vida do aluno.

#L# A Trevisan Escola de Negócios também trabalha com foco na flexibilidade. Para 2014, a escola lançará cursos de atualização profissional 100% on-line. “Dessa forma, será possível atender à demanda de alunos que estão espalhados por todo o país e que tenham dificuldades de deslocamento até uma de nossas unidades”, afirma Adriana Arroio, gestora de educação executiva da Trevisan. Tendo em vista a agenda cada vez mais apertada dos executivos, cresce também a oferta de cursos de curta duração. “Estamos desenvolvendo, cada vez mais, cursos de curta duração para atender os clientes que precisam se atualizar mais, mas que não dispõem de um período maior para ficar na sala de aula”, diz Adriana.

Na BSP, haverá maior oferta de cursos de “média duração”, voltados para o aprimoramento de habilidades de liderança e de gestão empresarial de modo intensivo. Na FGV, a novidade nesse sentido é o curso a distância de curta duração na área de direito, em inglês – outro sinal da internacionalização do mercado. “É para atender a um crescente público internacional que procura nossos programas”, diz Xanthopoylos.

Experiência internacional

Adriana Arroio, da Trevisan
Adriana, da Trvisan cursos de curta duração

É por conta da crescente internacionalização do mercado que as instituições de ensino têm investido em parcerias que garantem a troca de experiências aos alunos em instituições de outros países. Não é de hoje que os cursos de educação corporativa, principalmente aqueles focados em desenvolvimento de líderes, fazem intercâmbio. “Para 2014, pretendemos relançar o módulo internacional com o Disney Institute, repetindo o modelo que fizemos no ano passado”, afirma.

Renata Nogueira, coordenadora geral de educação executiva do Ibmec. Em 2012, o Instituto levou alunos da pós-graduação para uma semana de palestras, workshops e experiências práticas com base no tema criatividade e inovação em Orlando (EUA). O programa internacional foi desenvolvido pelo Ibmec em parceria com o International Entrepreneurship Center (IEC) e Disney Institute, cujos programas já receberam 1 milhão de alunos de mais de 35 países e 40 empresas.

Segundo Gonzalez, da BSP, a tendência de reforçar os programas internacionais vem da maior preocupação das empresas e executivos por temas como internacionalização. “Esses interesses vão certamente se refletir na educação executiva deste ano”, avalia. E é por isso que a instituição também colocou a experiência internacional na pauta, afirma Gonzalez. “A instituição está avaliando a oferta de novos módulos internacionais. A intenção é oferecer cada vez mais a ‘experiência internacional’ aos executivos”, diz. Programas internacionais não são novidades na BSP, que já fez parceria com universidades como a de Catalunha, em Barcelona, em 2012, e Harvard, em Boston, em 2013. Para o início de 2014, há módulos internacionais para os alunos da pós na conceituada Iede Business School, no Chile.

“Devemos lançar cursos com parceiros internacionais destinados a alta gerência e direção”, adianta Xanthopoylos, da FGV. A instituição também é uma das que têm dado cada vez mais atenção ao fortalecimento de módulos internacionais. “Já somos parceiros de instituições nos EUA, Europa e China, e vamos ampliar esse leque para dar aos nossos alunos ainda mais possibilidades de terem uma formação executiva de caráter global. Isso vai marcar nossa atuação nos próximos anos”, afirma o executivo.

A mais recente parceria da Fundação Dom Cabral, uma das principais escolas de formação executiva do país, é com a escola de negócios da Universidade de Cambridge, nos EUA, com intuito de oferecer aos alunos e
ex-alunos do programa de especialização em gestão a possibilidade de ampliar a capacitação em temas como inovação e empreendedorismo. O programa foi desenhado especialmente para executivos brasileiros, com metodologia que inclui visitas, atividades interativas, contatos com empreendedores, grupos de trabalho e experimentação e o módulo está previsto para acontecer em setembro de 2014. A instituição tem na lista de parcerias instituições como Esade Business School, na Espanha, Indian School of Business, na Índia, Insead, na França, e Kellogg School of Management, nos EUA.
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Temas para 2014

Xanthopoylos, da FGV
Xanthopoylos, da FGV: debater os grandes temas

Se o modelo e a estrutura dos cursos estão em frequente mudança, o mesmo ocorre com os temas tratados em sala de aula. “Uma instituição de educação executiva precisa estar sempre em compasso com as mudanças econômicas e sociais pelas quais passa o país, pois essas mudanças impactam diretamente as tendências do mercado e, por consequência, o comportamento de empresas e profissionais”, afirma Xanthopoylos. Segundo ele, o tema liderança voltou a fazer parte das discussões entre executivos. “As empresas têm tido uma necessidade premente de formar líderes num cenário mais pluralista, num ambiente multicultural, diverso, com necessidades de competências e habilidades focadas em gerir conflitos, equipes e sua própria forma de atuação em tempos curtos para responder às demandas e garantir a competitividade do negócio e a saúde motivacional da equipe”, avalia. “Em muitos casos, profissionais de perfil mais técnico assumem funções gerenciais sem ainda terem desenvolvido as competências necessárias para isso”, assinala .

Outros temas cada vez mais abordados nos cursos da FGV são projetos e infraestrutura –
áreas que têm demandado profissionais qualificados nos últimos anos. “Estamos vivendo um momento de grandes investimentos em obras e projetos de maior complexidade, e isso se reflete na sala de aula, e também na procura por cursos. Essas tendências também são perceptíveis nos cursos abertos. As áreas de gestão empresarial e projetos se mantêm em alta”, avalia. A Trevisan Escola de Negócios se mobiliza em torno do tema “grandes projetos” em 2014, principalmente por conta dos eventos esportivos que acontecerão em 2014 e 2016 no Brasil. “Os cursos para a indústria do esporte estão com a procura em destaque devido ao aumento da profissionalização do setor e dos grandes eventos”, afirma Adriana Arroio, gestora de educação executiva da Trevisan. “Certamente, o tema que será mais executado será o esportivo, pois é um mercado que precisa e exige cada vez mais profissionais qualificados, tendo em vista que se trata de uma das indústrias que mais crescem no mundo”, completa.

Renata Nogueira, do Ibmec
Renata, do Ibmec: olho na internacionalização 

As necessidades das empresas e do mercado, segundo Gonzalez, da BSP, fazem com que a escola concentre mais esforços em pesquisa e estudo de temas como internacionalização de empresas e gestão da sustentabilidade. Desde 2010, a escola é signatária do Principles for Responsible Management Education (PRME), uma iniciativa apoiada pela ONU com o objetivo de promover a responsabilidade corporativa e a sustentabilidade na educação de negócios. Outra parceria no sentido de ampliar o foco em pesquisa e sustentabilidade foi feita com a Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), com o objetivo de fomentar pesquisas sobre como a sustentabilidade impacta a qualidade da gestão de uma empresa. “Essas parcerias fomentarão uma maior inserção do tema em nossos cursos”, avalia Gonzalez.

Empreendedorismo e inovação, temas constantemente abordados em 2013, não devem deixar as mesas de debates tão cedo e são as apostas do Ibmec, segundo Renata Nogueira, coordenadora geral de educação executiva da instituição. “Empreendedorismo é um dos temas em que vamos investir, não só pelo investimento pessoal em algum negócio, mas pela inovação, criatividade e pelo ‘fazer a diferença’ mesmo em uma empresa já estabelecida”, afirma. Liderança e gestão de pessoas, novamente, também entram na lista do Ibmec. “Estamos abordando o tema ‘grandes eventos’ que pode ser tratado tanto pelo viés de projetos, quanto de gestão de negócios e de comunicação estratégica e, por que não, de finanças também”, avalia.

Mais mulheres em cursos de formação executiva
O perfil dos alunos das escolas de negócios está se tornando eclético e uma das principais mudanças, que deve gerar alterações nas grades dos cursos, é a presença maior de mulheres e jovens nas salas de aula. “De maneira geral, nossas turmas de educação executiva apresentam um perfil cada vez mais diversificado – participação maior das mulheres e, com relação à idade e experiência, notamos a presença de profissionais dos mais novos aos mais experientes”, resume José Mauro Gonzalez, diretor de programas corporativos e internacionais da BSP.
A presença mais marcante das mulheres também é visível no Ibmec, afirma Renata Nogueira, coordenadora geral de educação executiva da instituição. “Existem mais mulheres na área de finanças e estamos recebendo também alunos mais novos e bem preparados, que além de boa formação, ocupam cargos relevantes em suas empresas.” A instituição possui 18 cursos de educação executiva, que receberam em 2013 mais de 3 mil alunos. Para 2014, são esperados mais 2,3 mil novas matrículas.

Na Trevisan Escola de Negócios, a idade dos alunos de educação executiva varia de 24 a 45 anos, que possuem cargos de assistentes da gerência, segundo Adriana Arroio, gestora de educação executiva da escola. Em 2013, foram realizados 33 cursos abertos e cinco seminários. Ao todo, foram 450 alunos na unidade de educação executiva e a expectativa para 2014 é que esse número suba para 650. Na FGV, mais de 60% dos alunos de MBA ainda são homens, mas a faixa etária também diminuiu, entre 25 e 40 anos, que ocupam cargos de média e alta gestão. “As mudanças de perfil são gradativas – não são sentidas de forma radical. Uma tendência é a de profissionais mais jovens procurando cursos de educação executiva, pois muitos estão no processo de assumir, ou já assumiram, cargos de gestão, ou se tornaram empreendedores”, afirma Stavros Xanthopoylos, vice-diretor do Instituto de Desenvolvimento Educacional da FGV. A instituição ofereceu em 2013 mais de 110 cursos abertos presenciais e mais de 220 abertos a distância.

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