Agenda verde

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Repensar a forma de fazer negócios, de produzir, de vender, de consumir. Esse desafio bate à porta não apenas de empresas interessadas ou premidas para reinventar a gestão, está diante de todo ser humano que habita este planeta – e que está interessado em deixar alguma coisa boa para as gerações futuras.

Assim, ter em mente o desenvolvimento sustentável na reformulação de qualquer estratégia empresarial é algo imprescindível. Deixar de lado o tripé da sustentabilidade – os aspectos ambientais, sociais e econômicos – é como dar um tiro no pé. Pensando nisso, muitas empresas adotaram como meta cumprir alguns dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), lançados pela Organização das Nações Unidas (ONU) no início dos anos 2000 para minimizar alguns dos graves problemas que afetavam (e afetam) toda a humanidade. Um deles, por exemplo, é a desigualdade social.

No início de julho deste ano, altos funcionários da ONU reforçaram que a comunidade internacional deve combater as desigualdades sociais e econômicas entre as regiões e dentro dos países. Trata-se, segundo esses interlocutores, do caminho fundamental para alcançar a sustentabilidade e evitar crises. “Se as desigualdades continuam aumentando, o desenvolvimento pode não ser sustentável”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em debate temático da Assembleia Geral da entidade. “As sociedades onde a esperança e as oportunidades são escassas estão vulneráveis a revoltas e conflitos”, completou. “A desigualdade pode gerar crime, doença, degradação ambiental e prejudicar o crescimento econômico.”

Colocar o ser humano na gestão passa por essa preocupação. Alinhar os interesses organizacionais com os pessoais deve ir muito além do que vem sendo propagado como algo desejável numa empresa para atrair e reter talentos e gerar comprometimento. Está na hora de olhar para fora da caixa, e da organização, e ampliar o alinhamento: alinhar os diversos interesses dos diversos atores sociais, econômicos e políticos.Essa foi uma das tônicas da conversa que tive com Thomas Stelzer, em junho, durante sua visita ao país nas comemorações do Dia Internacional do Meio Ambiente. Então secretário-geral adjunto da ONU, Stelzer não dava sinais de cansaço, apesar de uma agenda puxada no calor da região amazônica, e em português demonstrou sua preocupação com os mais jovens: uma geração que não terá a segurança de viver melhor do que seus pais.

Atualmente embaixador da Áustria em Portugal, Stelzer continua assistindo e apoiando o secretário-geral Ban Ki-moon e cuidando de questões ligadas à ONU. É como se um vírus o tivesse acometido, capaz de produzir uma inquietação constante sobre os rumos que estamos criando. Um vírus que deveria estar presente em muitas empresas, diga-se. A seguir, confira alguns momentos da conversa:

Como nossos pais?
Mundialmente, nossa geração já está consumindo os recursos das gerações futuras. Por isso, a juventude de hoje é a que entrará na história como a que não terá a segurança de viver melhor do que a dos pais. Antes, toda geração podia assumir que viveria melhor que os pais. Esta não, porque nós já consumimos seus recursos. Isso não é nada sustentável. Desenvolvimento sustentável significa viver bem e também deixar recursos para as futuras gerações.

Alinhar interesses
No que se refere a uma consciência maior por parte das empresas em relação ao desenvolvimento sustentável, creio já existir um melhor entendimento quanto a isso. No entanto, é preciso lembrar que as empresas têm seus interesses, como qualquer outro ator social. Os interesses delas se alinham com os dos acionistas. Aliás, os governos têm os seus interesses, que devem se pautar pelo interesse comum, na criação de uma estrutura social saudável, por exemplo. A questão fundamental é como alinhar todos esses diversos. A ONU tem esse papel em âmbito global. Os empresários têm de satisfazer os acionistas, mas o governo tem poder sobre os bens comuns para a população. Então, tem de haver moderação do poder público. 

Desigualdade
O mundo hoje é 60% mais rico do que há 15 anos, mas a distância entre ricos e pobres é maior. O Brasil, nesse período, conseguiu estreitar isso, mas ainda há muito o que fazer. Se poucos comem muito, muitos comem pouco. Vale lembrar que o desenvolvimento sustentável tem três pilares: o econômico, o ambiental e o social. Nesse aspecto, essa distância interfere. E nesse aspecto encontramos outros pontos, como a oportunidade de emprego, saúde e aposentadoria também.

Transformar a economia
Todos os atores econômicos têm de gerar riqueza para ajudar a economia a crescer. O problema é que a população mundial aumenta em 1 bilhão de pessoas a cada 10, 12 anos. Isso significa que temos um grande número de pessoas entrando no mercado de trabalho todos os anos. Estima-se que é necessário criar cerca de 70 milhões de empregos só para manter o atual equilíbrio que encontramos hoje. Temos de ajudar a crescer a economia, mas como fazer isso sem afetar a vida das gerações futuras? E ainda vale lembrar que nosso sistema de produção despeja aproximadamente 30 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera a cada ano, que resultam no aquecimento global. Como mudar isso? Teremos cerca de 9 bilhões de habitantes no planeta em 2050. Sabemos que temos recursos suficientes para alimentar todas essas pessoas hoje, mas como distribuir os recursos naturais de uma maneira que beneficie esse pessoal? Um passo importante é transformar a economia. Hoje, ela está baseada em energia fóssil. Isso é crítico. Já possuímos tecnologia para substituí-la por energia limpa, sustentável (eólica e solar, por exemplo), mas ainda existem interesses diversos ou diferentes em relação a isso. Como superar esses obstáculos? Precisamos de governos e leis, de empresas e pessoas que entendam a necessidade de cuidar do futuro, que estejam comprometidos com o desenvolvimento sustentável. 

Green jobs
Os green jobs serão uma consequência desse processo. Não transformamos a economia para criar esses empregos. Não é só substituir uma energia antiga para isso. Temos uma capacidade enorme de aumentar a eficiência energética com outras ações. Por exemplo: o Empire State Building, quatro anos atrás, mudou todas as suas 6,7 mil janelas. As novas permitem a entrada da luz, mas barram parcialmente a de calor. Com isso, ganhou-se uma eficiência energética de 40% e o retorno desse investimento foi em um espaço de tempo menor do que quatro anos. Não podemos simplesmente dizer às empresas o que elas têm de fazer, temos de criar oportunidades de negócios. E a energia limpa vai gerar um retorno adequado. Hoje, cerca de 2 bilhões de pessoas, no mundo, não têm acesso à eletricidade. Em algumas cidades, quando o sol se põe, a vida parece acabar. Temos de reverter esse quadro até 2030, segundo o documento Energia Sustentável para Todos. Outra meta é melhorar a eficiência energética em 50%. É algo possível. Nos EUA, essa eficiência aumentou em 60% nos últimos 20 anos. Lá, agora, é preciso 60% menos de energia para produzir um dólar de PIB.

Se pensarmos nesse desenvolvimento de uma maneira linear, a economia americana, em 2050, deverá ter crescido 150% e será totalmente independente do óleo, carvão, e a dependência do gás terá diminuído um terço. Agora vamos pensar: nos EUA existe algo em torno de 120 bilhões de prédios. Para fazer com que sejam mais eficientes energeticamente falando, serão criados muitos green jobs. Se levarmos essa ideia para todo o mundo, teremos empregos verdes para muitas gerações.

 

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Gumae Carvalho é editor de MELHOR – Gestão de Pessoas, revista oficial da ABRH. Antes, também trabalhou nas revistas Educação e Ensino Superior. Foi professor na Faculdade Cásper Líbero (onde se formou em 1993), assessor de imprensa, consultor editorial e um dos criadores do fanzine (e depois revista) Panacea.
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