Gestão

Além do ganho financeiro

Adriana Martinez*
12 de agosto de 2010

Qual o papel da empresa hoje em dia? Não é apenas alcançar lucros, mas também ser responsável por promover e elevar o padrão de vida e cuidar do meio ambiente. Essa consideração leva a uma nova concepção de empresa, que vai além da abordagem neoclássica, que atesta que seu objetivo único é obter ganhos econômicos. A RSC poderia contribuir com alguns elementos importantes para a construção de uma concepção mais abrangente de empresa. Não obstante, isso nos remete a três questões: por que as organizações querem se comportar de maneira socialmente responsável? Que fatores promovem ou inibem esse comportamento? Sob que condições as organizações agem assim? Esses questionamentos nos levam a estabelecer a importância de estudar as condições econômicas e institucionais que promovem ou restringem o comportamento socialmente responsável e também as questões sociais, culturais e históricas (cultura organizacional, visão, valores etc.). Desse modo, a RSC é específica e depende de condições de tempo e espaço. Por exemplo, quando uma multinacional é submetida a leis e regulamentações dos países em que atua: condições do mercado de trabalho (salários, jornada de trabalho, incentivos, benefícios etc.). Isso nos leva à seguinte questão: uma empresa pode ter diferentes graus de RSC? É ético que o comportamento de uma companhia varie de acordo com as condições locais? Ou seja, temos empresas que em alguns países cuidam do meio ambiente e em outros são poluidoras.
Qual o papel desempenhado pelos fatores institucionais no desenho de estratégias de RSC e no grau em que uma empresa escolhe aplicá-los? Existem níveis ou gradações de RSC?

Assim, a RSC pode ter diferentes significados em diferentes lugares para diferentes pessoas e momentos. Trata-se de um conceito emergente, sobre o qual não há uma definição universal. Existem várias abordagens, mas uma companhia que age de modo socialmente responsável é a que propicia aos funcionários uma remuneração decente e compatível com o custo de vida local, que não agride o meio ambiente e tampouco coloca em risco a saúde da comunidade. Isso significa que ela precisa atender às necessidades de seus stakeholders de modo eficaz. Nesse comportamento, confiança, comprometimento e coerência são elementos muito importantes. E a conjunção de todos esses aspectos pode promover a criação de uma vantagem competitiva sustentável.

Se uma empresa decide ter ou não um comportamento socialmente responsável, isso não depende apenas de suas decisões internas, o ambiente institucional exerce um papel crítico em sua estratégia. Então, é muito importante analisar os fatores econômicos e institucionais que promovem ou inibem esse comportamento nas companhia. É muito importante, também, resgatar o papel desempenhado pelas empresas atualmente. Se aceitamos a ideia geral de que o objetivo único de uma organização é maximizar os ganhos, então deveríamos reconhecer que ela fará qualquer coisa para obtê-los. E, dessa forma, pode operar de modo socialmente irresponsável – prejudicar o meio ambiente, oferecer condições de trabalho abaixo do mínimo para seus empregados, por exemplo.

Mas o que acontece no longo prazo? Essa posição é baseada em uma vantagem competitiva sustentável? Existe uma evidência empírica que mostra que as empresas com comportamento socialmente responsável são lucrativas e competitivas. Acreditamos que a razão disso é sua capacidade de construir uma forte cultura organizacional baseada em valores, confiança e compromisso. Questões subjetivas. A coerência entre discurso e prática é também importante. Funcionários que percebem isso como um valor da empresa podem desenvolver lealdade e, provavelmente, ser mais produtivos.

*Adriana Martinez é doutora em estudos sociais pela Universidad Autónoma Metropolitana Unidad Iztapalapa e coordenadora de estudos e políticas de ciência e tecnologia do Conselho de Ciência e Tecnologia do Estado de Guanajuato, do México

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