Carreira e Educação

Ambiente colaborativo

Ana Beatriz Chacur
13 de julho de 2012
Adriano Vizoni
Fabíola, da Ambev: em uma empresa global, temos a oportunidade de aprender com colegas do mundo todo

Como reunir, em um mesmo ambiente, pessoas que jamais se encontrariam pessoalmente, por questões de distância ou simplesmente de atividades e agendas incompatíveis, e fazer com que compartilhem conhecimento e aprendam juntas? Esse tem sido o desafio de diversas empresas, em uma época em que a informação e o conhecimento consolidam-se como os principais fatores de diferenciação para a competitividade organizacional. A solução encontrada por grandes companhias são as comunidades de prática, ou CoP, espaços reais ou virtuais para os funcionários compartilharem suas melhores práticas e experiências. O objetivo desses “ambientes” e projetos é aproximar cada vez mais empresas e colaboradores e, com isso, fazer com que os profissionais aprendam uns com os outros.

Os encontros podem ser regulares ou não, em locais fixos com agendamento prévio ou sem, e em ambientes reais ou virtuais – ou seja, o uso é livre e variado. Algumas empresas, além de oferecerem um espaço para saber o que pensam seus funcionários, também já trabalham com programas de premiação e reconhecimento pelas sugestões dadas por eles. A Ambev é uma das companhias que acreditam que boas ideias, quando aplicadas ao negócio, merecem ser divulgadas e multiplicadas. Por isso, em 2005, implantou o Programa de Melhores Práticas Global, pelo qual abre espaço para que os colaboradores apresentem iniciativas que combinem inovação e resultado em diversas áreas de atuação. Aberto para todas as unidades e áreas da companhia, o programa é dividido em seis categorias: comercial (marketing e vendas); financeiro; gente & gestão; industrial; logística; CSC (Centros de Serviços Compartilhados); e Mundo Melhor. O intuito da iniciativa é reconhecer funcionários ou equipes cujas ações em suas áreas resultaram no aperfeiçoamento das práticas da companhia. “Temos a vantagem de ser uma empresa global e, por isso, ganhamos a oportunidade de aprender com nossos colegas do mundo todo. Assim como nós levamos as nossas melhores práticas para as outras operações da companhia, também acabamos por replicar aqui no Brasil o que deu certo lá fora”, destaca Fabíola Higashi Overrath, gerente de gente & gestão da Ambev.

Usinas de ideias 
A mecânica é simples. Em cada área da Ambev, são selecionadas três sugestões, que serão apresentadas pelos autores para 300 líderes da empresa, em evento que promove a troca de experiências e premia as melhores soluções. Em 2011, foram 95 inscrições no programa no Brasil. Uma das soluções que nasceu em nosso país foi premiada na categoria Mundo Melhor, que considerou projetos de todas as operações da AB Inbev, no mundo todo. Trata-se do  Movimento CYAN*, criado em 2010, que consiste em iniciativas para mobilizar e conscientizar a sociedade sobre o uso racional da água.

Empresas como a Odebrecht e a Braskem também são grandes usinas de ideias. Por meio do Prêmio Destaque, a Odebrecht reconhece e divulga as opiniões mais interessantes, desde 1992 – a partir de 2007, a iniciativa se estendeu também à Braskem. “É um reconhecimento das iniciativas inovadoras”, define Marcos Paulo Sabia, responsável por pessoas e organizações na Odebrecht. Hoje, o projeto está presente em 14 países onde a companhia atua e, a cada ano, faz surgir novos diferenciais competitivos, muitas vezes por meio de soluções nascidas nos canteiros de obra e nas unidades industriais. O prêmio é, sobretudo, um instrumento de capacitação e de transferência de conhecimento, como salienta Olindina Dominguez, responsável pelo núcleo de Conhecimento e Informação para Desenvolvimento de Negócios (Ciaden) da Construtora Norberto Odebrecht (CNO). Segundo a executiva, o julgamento dos trabalhos é rigoroso e passa por, no mínimo, cinco jurados, incluindo representantes da sociedade civil para os trabalhos das categorias Saúde, Segurança no Trabalho e Meio Ambiente (SSMA) e Responsabilidade Social. 

O Prêmio Destaque tem uma importância especial no Programa de Gestão de Conhecimento, na engenharia e construção da Odebrecht. “Como a organização é descentralizada, e cada canteiro está voltado para seu próprio negócio e resultado, não havia antes uma forma de estruturar e disseminar o conhecimento existente na empresa”, explica Olindina. Em resumo, o prêmio proporciona o compartilhamento das melhores práticas na busca da excelência organizacional.

Tendência mundial
Ferramentas e redes sociais como o Facebook (que já conta com mais de 800 milhões de usuários), nas quais os usuários podem gerar, compartilhar e comentar os mais variados assuntos, não deixam dúvidas de que a colaboração é uma tendência mundial nos dias de hoje. Por isso, independentemente de qual seja o meio ou o formato utilizado, grande parte das empresas possui atualmente algum projeto que pode ser considerado uma comunidade de prática, apostando em soluções efetivas e inovadoras, com o uso combinado de tecnologias, informação e comunicação. Há quem desenvolva sua própria plataforma ou, ainda, busque um fornecedor especializado para atender suas demandas. Há cinco anos, a Affero, especializada em educação corporativa, percebeu que o aprendizado informal vinha ganhando cada vez mais espaço e entendeu que essa era uma tendência natural. Por essa razão, investiu no desenvolvimento de uma ferramenta própria, batizada de YouKnow. “O objetivo era levar o aprendizado informal para os ambientes de aprendizado tradicionais, por meio de uma plataforma de gestão de comunidades e redes sociais, promovendo a troca de informações de maneira colaborativa nas organizações”, explica Francisco Ferreira, diretor de tecnologia da informação da Affero.

Por meio dessa ferramenta, os colaboradores compartilham e comentam conteúdos e práticas relacionados à educação, as suas funções e à empresa em si, incluindo artigos, vídeos e, até mesmo, cursos on-line. “Além disso, o uso da ferramenta permite uma redução de custos com treinamentos de grande porte”, ressalta. Na aplicação do YouKnow, o RH tem papel fundamental no engajamento dos profissionais às comunidades de práticas, estimulando os colaboradores a participar e colaborar com conteúdos relevantes para toda a empresa. “Mas é importante ressaltar que qualquer usuário pode compartilhar, comentar, avaliar e recomendar itens de conteúdos de forma descentralizada.  Ou seja, o papel do RH está mais relacionado à moderação e energização da comunidade”, enfatiza Ferreira.


Destino para o conhecimento
Outras companhias têm muito a ensinar quando o assunto é estimular os profissionais a compartilharem conhecimento. Confira alguns exemplos

Há anos, a Siemens reconhece que o conhecimento é uma das suas maiores riquezas, por isso está sempre em busca de novidades e preocupada em ouvir seus funcionários. E mais, verbaliza enfaticamente o empenho na sua gestão e mobilização. “Nossos colaboradores são a chave do nosso sucesso. Eles trabalham em conjunto, como uma rede global de conhecimento e aprendizado.

Nossa cultura é definida pela diversidade, pelo diálogo aberto e respeito mútuo, bem como por objetivos claros e liderança eficaz”, é o que dizem os princípios da empresa. Com gerenciamento feito pelo RH, ela implantou o Sharenet, uma ferramenta mundial bem completa para comunidades de prática e compartilhamento de conhecimento. O sistema utiliza tecnologias de colaboração síncronas (chats de bate-papo) e assíncronas (notícias, biblioteca, fóruns de discussão, além da gestão de documentos, pedidos urgentes e troca de material – hardware, software e componentes).


Criar junto
Poucas organizações já aderiram à chamada cocriação

E por falar em compartilhar ideias… As empresas no Brasil cada vez mais se dão conta da importância da inovação para serem mais competitivas, mas ainda não aderiram fortemente a uma das principais ferramentas nesse sentido, a cocriação, que consiste em desenvolver produtos e serviços ou ainda modificar processos de gestão a partir da colaboração de funcionários, clientes e fornecedores. Estudo feito pela Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham) com 105 executivos aponta que nas companhias somente 35% já empregam essa estratégia:

A explicação para essa baixa disseminação está na dificuldade de se estabelecer um processo interno que favoreça a cocriação (47%) e em barreiras culturais em relação à inovação (41%).

Mas as empresas têm planos de mudar essa realidade. A grande maioria dos consultados (76%) verifica em suas organizações interesse em implantar processos de cocriação. Isso por se darem conta dos benefícios que a estratégia pode trazer. São listados como principais vantagens do método: engajamento e fidelização de funcionários, clientes e fornecedores (66%); aperfeiçoamento e qualificação da gestão e das equipes (46%); maior credibilidade no mercado (39%); e aumento da lucratividade (35%).

Na sondagem da Amcham, os executivos indicaram ainda que, em sua avaliação, quem mais tem a contribuir para os processos de cocriação são os clientes (71%), seguidos por funcionários (59%) e depois fornecedores (35%).


Banco da água
No primeiro ano, o Movimento CYAN contou com importantes ações, tais como a adoção da Bacia do Corumbá-Paranoá (em Brasília) para o desenvolvimento de estudos sobre o melhor aproveitamento da água, em parceira com a WWF, além de análises em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP) para calcular a pegada hidrológica, ou seja, o consumo de água em toda a cadeia produtiva da Ambev. Em todas essas ações, a Ambev procurou alertar a sociedade quanto à importância do consumo consciente da água. Mas, em 2011, os objetivos foram além. Foi criado o Banco CYAN, uma parceria inédita com concessionárias de água do país. 

Por meio do banco, as pessoas têm acesso à média de consumo de água de seu imóvel e, à medida que elas diminuem (ou até mesmo mantêm) os gastos, ganham pontos que podem ser utilizados como desconto em sites de compras na internet ou na assinatura de revistas. O Banco CYAN foi lançado no Dia Mundial da Água, em março do ano passado, e, desde então, os correntistas já economizaram mais de 80 milhões de litros de água. Isso daria para abastecer uma pessoa por mais de 182 anos.

 

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