As ideias e a prática

Paulo Jebaili
11 de Janeiro de 2011

Empresas conduzidas por líderes criativos têm um índice maior de inovação, engajamento de funcionários, mudança e renovação. Essa é uma crença de Linda Naiman, especialista em criatividade e inovação e fundadora da consultoria Creativity at Work, em Vancouver, no Canadá.  Linda também é reconhecida pelo método de aprendizado baseado em artes, assunto tratado no livro Orchestrating collaboration at work using music, improvisation, storytelling, and other arts to improve teamwork [algo como Orquestrando a colaboração no trabalho usando música, improvisação, storytelling e outras artes para melhorar o trabalho em equipe ], escrito em 2003, em parceria com Arthur B. VanGundy (ex-membro da consultoria, morto em 2009).  Em entrevista por e-mail a MELHOR, a consultora dá uma série de dicas sobre como estimular em termos práticos a criatividade na organização.  

MELHOR Quais as principais características de uma pessoa criativa?
Linda Naiman Criatividade exige imaginação e capacidade de traduzir novas ideias em realidade. Desse modo, é preciso também ter habilidades em lógica e planejamento. As pessoas criativas são capazes de gerar novas ideias; desafiar pressuposições e não encarar o status quo como a única coisa que está valendo. Elas assumem riscos, exploram ideias, mantêm alternativas abertas; estabelecem conexões entre elementos disparatados e enxergam novas relações entre pessoas, lugares e coisas. São capazes de refletir criticamente sobre ideias, ações e resultados; e de considerar possibilidades.

 Pesquisas de diversos lugares do mundo apontam que as pessoas se consideram criativas, mas não utilizam esse potencial no trabalho. Por outro lado, as empresas precisam de gente criativa para se diferenciar da concorrência. Qual a razão desse descompasso?
Esse descompasso ocorre quando as organizações são refratárias a arriscar algo novo, quando evitam o caos e as incertezas, e quando as práticas de gestão sufocam a criatividade, porque não se encaixam em seu modo imperativo de controlar e preservar o status quo. Os matadores da criatividade incluem o micromanaging, instilando um clima de medo e de incerteza e ignorando as ideias criativas dos funcionários.

Como o aprendizado baseado em artes funciona? A senhora poderia nos dar um exemplo prático desse método e de seus resultados?
Eu uso arte como instrumento para teambuilding, treinamento em comunicação, desenvolvimento de lideranças, resolução de problemas e processos de inovação. E também utilizo a arte como um catalisador para diálogos estratégicos, e como um recurso para trazer à tona símbolos e metáforas de uma organização por meio de formas estéticas do saber. Tenho usado as artes – especificamente o pensamento visual e storytelling em planejamento estratégico. O vice-presidente de marketing de uma empresa de transportes internacional me apresentou o seguinte desafio: “Nós queremos assegurar que todos saibam onde a empresa está, que dificuldades enfrenta e qual o nosso plano para o futuro. Precisamos da participação de nossos funcionários, e eles precisam entender por que fazem parte do plano. Precisamos identificar os fatores-chave de sucesso para eles. Nós nos vemos como uma empresa que aproveita as oportunidades com apetite para o risco e para a inovação. Como podemos convencer cada um aqui disso?” Nós concebemos encontros de planejamento estratégico para assegurar o engajamento dos funcionários na cocriação do rumo futuro da empresa. Formamos pequenos grupos de diálogos e de storytelling e convidamos as pessoas para pintarem suas ideias. Usamos as imagens como catalisadores de questionamentos mais profundos, a fim de trazer as ideias para um foco mais definido e traçar uma estratégia.

E o que isso gerou?
Um dos resultados desse encontro foi um mural, que incorporava as imagens produzidas pelo grupo. Isso se transformou num mapa visual para a futura direção da empresa, o qual atendeu dois propósitos. As pessoas podiam literalmente ver o futuro, e isso elevou o moral entre os funcionários porque eles participaram de forma colaborativa. Também tivemos a promessa do presidente de implementar de imediato algumas daquelas ideias. A arte nos ensina a ver. Imagens comunicam de modo muito mais poderoso do que palavras e têm a sua própria linguagem. Elas são inerentemente ricas em metáforas e simbolismos. A informação visual nos ajuda a ver padrões, fazer conexões, pensar metaforicamente, decifrar complexidades, perceber cenários e criar visões compartilhadas entre pessoas diferentes em departamentos diferentes.

A criatividade parece ser um bom antídoto para períodos econômicos complicados. Mas, justamente nesses momentos, as empresas e as pessoas temem correr riscos e passam a operar numa espécie de “modo de segurança”. Como mudar esse padrão?
Coloque o foco de sua criatividade em descobrir maneiras de aumentar o valor para o cliente. Descubra o que eles valorizam e o que desejam – amanhã, não ontem. Interaja e seja coinovador com o cliente em novos modos, usando canais diferentes, como a mídia social, por exemplo. Faça o mesmo com os funcionários. Pergunte à sua equipe: “Como poderemos reinventar as relações com os clientes? Como podemos engajá-los de novas maneiras para aumentar a lealdade para gerar novas demandas e fontes de receita?” O mundo de TI nos condicionou a operar no modo beta, então quando um novo software é apresentado raramente ele está perfeito, e os clientes não se importam, até porque existe um processo de feedback e melhorias. Podemos experimentar novos serviços, processos ou produtos desse jeito. Deixe o usuário final saber que se trata de um protótipo em beta. (Claro que se segurança for o principal ponto em questão, a inovação tem de ser perfeita.)

#Q#

As pessoas, às vezes, apresentam ideias que não são aplicáveis no dia a dia. O que os líderes devem fazer para recusar a ideia sem desmotivar a pessoa?
Se a ideia não é aplicável no momento, os gestores e as equipes podem procurar o que há de bom nela e como ela pode ser melhorada. Para manter as pessoas motivadas é preciso seguir algumas orientações.  Os gestores precisam aprender a gerenciar criatividade. Ajude os funcionários a evitar decepções e perda de tempo pedindo a eles que alinhem a criatividade com os objetivos estratégicos da companhia, e estabeleça critérios para desenvolver e avaliar ideias:
Como essa ideia beneficia (escrever o ponto)?
Como essa ideia melhora (escrever o ponto)?
Como essa ideia contribui para a lucratividade?
Como essa ideia  nos ajudará a economizar?
O quanto essa ideia é aplicável em termos de recursos disponíveis (tempo, dinheiro, mercado etc.)?

Toró de cérebros
O que é preciso para que o brainstorming gere os resultados esperados
Juntar um grupo de pessoas para sugerirem, sem qualquer tipo de amarra, ideias para uma determinada finalidade. O objetivo é provocar uma enxurrada de ideias que posteriormente serão analisadas, selecionadas ou recusadas, elaboradas e ventualmente implementadas. Resumidamente, esse é o espírito do brainstorming (termo equivalente a tempestade cerebral), recurso usado inicialmente por publicitários que foi se espalhando por outras atividades que também demandavam criatividade. Mas, como todo método, não é sinônimo de panaceia. Em seu blog Creativity at Work, Linda Naiman analisa as razões pelas quais a “tempestade” pode apenas fazer água.

Ela enumera oito razões para que o processo não funcione. O primeiro motivo vem por meio de uma citação do especialista em brainstorming Arthur Van Gundy, que diz: “Se as mesmas pessoas trabalham com os mesmos problemas todos os dias, se encontram e discutem esses problemas usando a mesma linguagem e os mesmos procedimentos, o resultado será sempre previsível. A mesmice semeia mais mesmice. Ver o mundo com os olhares velhos apenas ajuda a produzir velhas ideias”. A consultora expõe, ainda, mais sete razões:

1 – Falta de preparação. Você não pode convocar uma reunião e pedir um brainstorming às pessoas sem qualquer tipo de preparação.
2 – Falta de foco. Fazer algo com um tópico fracamente definido.
3 – Julgar cada ideia assim que ela é exposta.
4 – Deixar que poucos participantes dominem a discussão.
5 – Falta de estrutura. Criatividade sem estrutura produz uma bagunça sem forma.
6 – Medo de estar errado ou de bancar o bobo.
7 – Ficar malfeito por conta de facilitadores inábeis.

 

Decisões acertadas
Escolher as pessoas certas para os lugares certos é um bom começo para criar um ambiente favorável para que a criatividade aflore

Para criar uma cultura que favoreça a criatividade e a inovação, Linda Naiman aconselha os gestores a terem uma orientação e clareza de propósito focados em valores que respeitem os seus clientes e o equilíbrio entre qualidade de vida e trabalho. Em outras palavras, que não causem danos apenas para fazer lucros. Há várias maneiras de fazer isso:

  • Comunique claramente a visão e missão da sua organização e as maneiras específicas como seus funcionários podem contribuir. Pouquíssimas companhias fazem isso bem e estudos mostram que a maioria dos funcionários não sabe o que fazer para apoiar os objetivos e estratégias da organização. Você deve ser capaz de expressar o seu propósito em uma frase fácil de ser lembrada. Por exemplo: “A missão do Google é organizar a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil”.
  • Alinhe a criatividade com os seus objetivos estratégicos.
  • Conecte cada projeto com o quadro maior dos objetivos da empresa e estabeleça uma missão clara para cada equipe ou grupo.
  • Crie significado e valor para a organização e para os clientes. É hora de ser colaborativo e co-criativo com as pessoas brilhantes que você contrata. Já se foi o tempo em que o gestor era o sabe-tudo.
  • Inclua os membros da equipe no processo, ao definir e estabelecer o propósito dos projetos.
  • Escreva um relatório com o propósito de cada projeto e com a colaboração de seus funcionários. Defina regras de engajamento, metas, expectativas do que deve ser entregue e de como as decisões serão tomadas.
    Quando os funcionários participam das decisões que os afetam, eles ficam mais engajados no trabalho que executam.
  • Contrate as pessoas certas e desenvolva talentos. É crucial ter na equipe as pessoas certas, capazes de agregar seu brilho ao projeto. Dê oportunidades aos seus talentos de aprender e crescer, especialmente em áreas como criatividade, pensamento crítico, tecnologia e inovação.
    Relacionamentos saudáveis estão no cerne da criatividade e da colaboração. Agradecer as pessoas, envolvê-las nas conversas importantes e ter capacidade de resolver conflitos são ingredientes essenciais para a colaboração.
  • Descubra maneiras para que as pessoas da equipe se conheçam não apenas como profissionais, mas também como seres humanos, para construir confiança e propiciar ocasiões para interações sociais informais.
  • Crie uma atmosfera de segurança, confiança e respeito. Estimule perspectivas múltiplas e pontos de vista diversos. Questione pressupostos. Mantenha os integrantes da equipe energizados ao estimular debates construtivos sobre questões fundamentais;
  • Disponibilize infraestrutura e recursos que permitam aprendizado, comunicação e colaboração.
    Encare os problemas que prejudiquem criatividade, colaboração e produtividade.
    Ofereça boa liderança. Alimente o brilhantismo das pessoas e faça tudo o que puder para remover os obstáculos para a alta performance.
  • Evite ser muito autocrático e dê tempo para que a equipe possa participar das suas decisões. A sua tarefa não é ter todas as respostas, mas aprender a fazer as perguntas certas. Oriente sobre o que precisa ser feito e deixe que a equipe descubra como fazer. Forneça recursos e estímulos que os ajudem a ser eficazes e produtivos.
  • Dê crédito quando necessário e reconheça a performance da equipe e também a dos indivíduos.
  • Capture as melhores práticas e aprenda com os erros. Publique em sua intranet ou wiki para disponibilizar a todos o acesso ao que você sabe. Não são muitas as organizações que reservam um tempo para reflexão. Colocar o foco em aprender com as falhas, mais do que puni-las, o ajudará a ser mais eficaz na inovação.
    “Essas práticas o ajudarão a ser mais criativo e inovador; seus funcionários ficarão mais engajados e apaixonados pelo trabalho; e você aumentará o seu valor para seus clientes”, diz Linda.

 

 

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