Especial Dia das Mães

Assumindo o comando na história

17 de março de 2011

ESPECIAL MULHER | Entrevista com Eni de Mesquita Samara | Edição 280

Documentos revelam que as mulheres já vêm se destacando (e muito) no mercado de trabalho

Eni, do Cedhal: a maioria não quer cuidar da casa e dos filhos sozinhas como antes

De acordo com os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), em 2009, no Brasil havia cerca de 35% de famílias chefiadas por mulheres – em 2001, o número era aproximadamente 27%. E por mais que há quem diga que a mulher nunca esteve tão participativa no mercado de trabalho, há documentos que apontam que no passado, mais especificamente no início do século 19, esse número era maior, chegando a 45% – mais precisamente em Vila Rica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Quem nos conta é Eni de Mesquita Samara, diretora do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina (Cedhal). Fascinada pela história das mulheres e por sua relação com a família e a sociedade no passado, a professora foi buscar, sobretudo nos séculos 18 e 19, material para seus diversos livros sobre o gênero feminino. “Há histórias incríveis, é outro mundo”, diz. Em entrevista à MELHOR , Eni mostra que, diferentemente do que a maioria pensa, nem todas as mulheres da história foram injustiçadas pelo marido. Há quem tenha feito o contrário.  

MELHOR  É possível traçar um paralelo entre os números do período colonial e os atuais com relação à evolução da mulher na sociedade?
Eni Samara – O que realmente me surpreendeu todas as vezes que estudei o assunto é que, muitas vezes, os dados atuais são até menores que os dados do passado. Tenho poucos dados do final do século 19, e pode ser que os números sejam maiores que os que encontrei, mas continuo afirmando que não é tão recente o fato de mulheres chefiarem domicílios no Brasil.

Com relação a trabalho, a posição alcançada pelas mulheres no mercado é maior ultimamente, ou houve outros períodos de alta? A evolução é constante, principalmente depois de alguns episódios como o aumento da população estrangeira no Brasil, sobretudo de mulheres. É quando começa realmente o crescimento do mercado de trabalho para o sexo feminino, no início do século 20. Ao longo do tempo, mais mulheres estão no mercado de trabalho, fazendo cada vez mais coisas: estão nas universidades, nos cargos públicos, agora temos uma presidente mulher…  Não sei como será no futuro, mas a tendência é que as mulheres aumentem significativamente sua presença no mercado e nos cargos de chefia. E é isso o que mais me preocupa.

E por qual razão?
Se compararmos o número de mulheres com cargos de chefia no Brasil, é possível notar que elas ainda não conseguem, em número, estar à frente dos homens, inclusive com relação aos salários, que ainda são diferentes de acordo com o gênero, mesmo em cargos equivalentes. Mas acredito que a tendência é de que isso vá mudando e a gente consiga ter mais mulheres no mercado de trabalho, com salário semelhante aos dos homens.

Traçando uma espécie de linha do tempo, quais períodos foram decisivos na história da mulher no mercado de trabalho?
Certamente o final do século 19 e começo do 20, com o início da industrialização, foi um momento decisivo na história das mulheres. Porque muitas delas, assim como os homens, também vão trabalhar nas fábricas e, a partir daí, passam a alcançar posições importantes na família e na sociedade. É um momento bastante representativo do ponto de vista da história das mulheres.

E elas deixavam de trabalhar mais por questões familiares ou o mercado era mais fechado mesmo?
O mercado era mais fechado para as mulheres, elas tinham menos oportunidades do que os homens, isso era um fator decisivo. Mas há também uma questão cultural, de educação. Em geral, elas ficavam em casa porque foram criadas para isso, para cuidar dos filhos. Hoje, a educação que as mulheres recebem é diferente, mais voltada para o mercado de trabalho do que para dentro de casa.

Qual a influência dessa abertura do mercado de trabalho para as mulheres na história das famílias no Brasil?
O modelo familiar muda bastante. As jovens de hoje que se formaram na universidade ou, mesmo que não estejam formadas, mas que estão trabalhando, estão cada vez mais fora das casas. De modo geral, as mulheres sempre trabalhavam dentro de casa; mesmo quando tinham alguma outra atividade, como têxtil por exemplo, essa atividade era feita em seus domicílios. Hoje, a busca é por trabalho fora de casa, por remuneração adequada. Aí, aparece um problema que é ter alguém para cuidar dos seus filhos, ou a divisão dos encargos com os homens, negociações importantes para os casais. Surgem questões como: trabalhar fora, mas continuar fazendo o trabalho de casa? Ou trabalhar fora e dividir as tarefas? Isso ainda é recente, e é preciso repensar. As jovens não querem de maneira alguma deixar de trabalhar para cuidar da casa, a maioria não quer cuidar da casa e dos filhos sozinhas como antes; querem dividir com os homens.

Nesse ponto, surge também a responsabilidade das empresas e do governo com relação aos direitos da mulher no mercado de trabalho.
Sim! Há ações como o aumento do tempo da licença maternidade, que é importantíssimo, inclusive para os homens. Além disso, se a mulher vai trabalhar fora de casa, ela precisa ter um lugar adequado para deixar seus filhos. Existem mulheres que não têm com quem deixá-los e acabam deixando-os sozinhos em casa, com a porta trancada – a criança corre o risco de sofrer acidentes domésticos. Há uma falta muito grande de creches nas empresas; isso precisa ser repensado. É algo que deveria ter bastante investimento, tanto creches nas empresas, quanto fora delas, nas cidades todas. Precisamos criar uma estrutura mais adequada para esse novo perfil de mulheres, que se casaram e precisam que alguém cuide dos filhos, pois em geral elas querem ser mães, mas não querem deixar de trabalhar.

Podemos considerar que, atualmente, homens e mulheres já competem em igualdade no mercado de trabalho?
Se olharmos as mulheres em cargos de chefia, ainda são menos que homens e, inclusive, ainda possuem salários menores. Ou seja, ela entra no mercado de trabalho, chega a cargos de chefia, mas ainda não tem as mesmas condições, recebe menos que um homem receberia na mesma posição. Isso precisa ser corrigido. Oferecem salários mais baixos para a mulher e ela aceita, um homem, na maioria das vezes, não aceitaria. Sendo assim, acho difícil falar que já competem em igualdade, acredito que ainda não. Quando olho, por exemplo, a Dilma, que é uma das poucas mulheres no meio de tantos homens – quando vemos na TV as cenas do Congresso, em Brasília, dá para contar nos dedos quantas mulheres há lá. Acho que ainda há muito que fazer, muito espaço a ser conquistado, ainda é desigual. Estimo que só atingiremos o equilíbrio e consolidação do papel da mulher na sociedade em cerca de 50 anos. Mas já temos uma mulher presidente, isso tende a ajudar as outras mulheres do país.

E por falar em nossa presidenta, o que a eleição dela deve mudar no pensamento e na vida dos brasileiros com relação à visão sobre a mulher?
Se olharmos os cargos de confiança e ministérios do governo da Dilma, podemos verificar que ainda são poucas mulheres (nove, de um total de 37 ministérios). Ou seja, os homens ainda dominam o mercado de trabalho e, principalmente, os cargos públicos e importantes.
Eu penso que, com o tempo, isso vai ter de mudar.

Quais mulheres a senhora destacaria como mais interessantes na história do Brasil?
Os primeiros relatos de mulheres que se destacaram em processos de decisão são anteriores aos séculos 18 e 19, como, por exemplo, Chica da Silva (1732-1796), escrava alforriada que atingiu posição de destaque na sociedade, ou Bartira (1493 – 1580), índia, ainda anterior à Chica da Silva, também conhecida como Isabel Dias, que se casou com o português João Ramalho. No século 17 também há mulheres que se destacavam por acompanhar os maridos em viagens de trabalho ao interior, quando a maioria ficava em casa. Há relatos de mulheres que eram encontradas no meio do mato, vivendo sozinhas; é um período bem diferente do que vemos em tempos mais próximos, e também muito difícil de conseguir informações. Nos séculos 18 e 19, a documentação já é muito rica, há recenseamento de população, o que facilita muito a busca por informações. Ainda assim é bem trabalhoso ler documentos antigos, manuscritos degradados; são anos de trabalho. Atualmente, estou estudando a história de Gertrudes Galvão de Oliveira Lacerda, uma mulher incrível que se casa em 1820 e seis anos depois fica viúva de um marido riquíssimo. Então, ela assume a gestão dos negócios do marido, tornando-se riquíssima também e figura importante na sociedade paulista.

Mulheres trabalhadoras no Brasil*
  • O Recenseamento da População do Império no Brazil, de 1872, indicava que na província de São Paulo as mulheres trabalhadoras se dividiam nas seguintes funções: 43,30% na lavoura; 33,23% nos serviços domésticos; e 10,9% na costura. Mas, nessa época, começam a surgir variações: 5,54% eram criadoras e jornaleiras; 3,57% operárias em tecidos; e 0,26% comerciantes. Os dados eram semelhantes em São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Bahia.
  • No século XIX, dados de censos mostram que cerca de 30 a 40% das mulheres assumiam o papel de provedoras do sustento de suas famílias. Em Vila Rica (MG), em 1804, cerca de 45% das mulheres chefiavam famílias. Em São Paulo (SP), de acordo com o censo de 1836, o número era um pouco menor, 35,8% de domicílios chefiados por mulheres. Em Fortaleza (CE), em 1887, as chefes de domicílios representavam cerca de 29,8%.
  • A maioria das mulheres chefes de domicílios vinham de camadas mais pobres da população. Na Bahia, do total de mulheres chefes de domicílios, 66,5% eram de classes baixas e desempenhavam funções de operárias, artesãs e pescadoras; 1,9% encaixavam-se em setores médios, e eram profissionais liberais e comerciantes; e somente 1,3% faziam parte da elite.
Na América Latina
  • O Censo de 1811 na Cidade do México mostra que 54% do total de mulheres trabalhadoras eram empregadas domésticas (cozinheiras e lavadeiras), 20% estavam nas indústrias alimentícias e o restante se dividia entre ofícios como venda ambulante, parteiras, ajudantes de ateliês de costura etc. Ao longo do século XIX, houve poucas mudanças nesse cenário.
  • Na Argentina, estudos realizados entre 1850 e 1880 apontam que o serviço doméstico e confecção predominam, representando as atividades de mais de 80% das mulheres, tanto na cidade como no campo. Esse número vai reduzindo ao longo de 3 décadas: entre 1855 e 1887, na cidade, passou de 54% a 39%; e, entre 1869 e 1881, no campo, de 40% a 27%.

* Dados extraídos do artigo Mão-de-obra feminina, oportunidades e mercado de trabalho, no Brasil do século XIX , parte do livro As ideias e os números do gênero , organizado por Eni de Mesquita Samara, Editora Hucitec Cedhal/FFLCH-USP, 1997.

 

Riqueza e poder no século XVII*
Brigas familiares por ocasião de partilhas de herança são bastante comuns no século XVII, assim como nos períodos subsequentes. Segundo Eni Samara, o Inventário de Maria da Anunciação é especialmente rico no que diz respeito ao tema. Esposa do Capitão Antonio Francisco Baruel e membro de uma das mais importantes famílias da região de Mogi das Cruzes, ela faleceu em 1795. De família que acumulou grande riqueza através de alianças e casamentos, Maria da Anunciação, pelo que aponta o inventário, era uma mulher muito rica. Tinha escravos, inúmeras jóias e também sabia assinar (o que não era tão comum para a época). Parte das jóias e inúmeros outros bens como terras, casas, objetos, escravos e roupas foram, no entanto, levados a leilão para pagamento de suas dívidas. Embora não haja registros que expliquem se o casamento foi regido por algum contrato, o inventário contém inúmeras queixas sobre a partilha que, ao que tudo indica, privilegiava o irmão e testamenteiro da falecida, o alferes Pinto Xavier de Toledo. O marido qualifica inclusive a atitude da falecida de escandalosa e maldosa, isso porque a esposa deixou para ele apenas trastes de couro, roupas e os piores escravos (doentes, cegos e sifílicos). Ao que tudo indica, Maria da Anunciação desafiava, ainda que na morte, o poder do marido que era legítimo pela lei da época.

A historiografia recente é rica em exemplos de situações em que a submissão feminina é mais um mito do que realidade. Para as historiadoras dedicadas ao estudo da condição feminina no passado, essa questão aparece logo de início como um desafio, ou mesmo um desejo de recuperar as mulheres na sua identidade social e de mostrar a sua presença no processo de tomada de decisões.

*Texto extraído do livro Família, mulheres e povoamento – São Paulo, século XVII , de Eni de Mesquita Samara, Edusc, 2003.

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