Bem-estar completo

22 de outubro de 2010

As expectativas econômicas para o país são promissoras. Estima-se um crescimento expressivo do PIB em relação a países considerados “desenvolvidos”. Reforçamos os sinais de uma entrada e saída rápidas da crise. Além disso, sediaremos uma Copa do Mundo de futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos, dois anos depois. O Brasil quer ficar bem na foto. Mas não é apenas a imagem do país que vem ganhando atenção e retoques, digamos assim. Os brasileiros também querem melhorar o nariz, reduzir as medidas, esticar a pele, remoçar. E, mais do que isso, estar bem consigo mesmo. Não por acaso, foram realizadas, somente no ano passado, 645,4 mil cirurgias plásticas no país, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Em outro levantamento, entre setembro de 2007 e agosto de 2008, foram 547 mil procedimentos dessa natureza, enquanto somente em 2008 foram 166.821 cirurgias cardíacas.

No mundo corporativo, os cuidados com a parte estética dos funcionários, aos poucos, vão integrando os pacotes de benefícios, refletindo uma preocupação das empresas em propiciar um bem-estar completo para seus colaboradores. Alexandre Espinosa, líder da área de saúde e benefícios da Mercer, conta que, de fato, não são muitas as companhias que incluem em seus planos a cobertura de procedimentos estéticos – o índice beira os 5%. “As companhias estão mais preocupadas em gerenciar o custo atual com a saúde dos funcionários do que em oferecer diferenciais nessa área. Pode vir a ser uma tendência, mas por enquanto há apenas as empresas que oferecem reembolso a tratamentos estéticos dentro de um valor determinado, que é concedido para o bem-estar do funcionário”, argumenta Espinosa. Nesse caso, o benefício é estendido a todos os níveis hierárquicos. Esse tipo de prática, na visão do especialista, poderia crescer mais, já que se traduz tanto em satisfação quanto em melhoria dos cuidados dos profissionais com a própria saúde – o que resulta em maior produtividade e redução de gastos para a empresa.

Para as empresas que não oferecem esse tipo de benefício, uma preocupação deve rondar o RH – ainda mais em tempos de gestão do custo da saúde dos funcionários. Em alguns casos, determinados procedimentos estéticos, muitos relativos à pele, acabam entrando na conta dos planos de forma fraudulenta. Em outras palavras, faz-se um procedimento não permitido e cobra-se por outro, coberto. Perdem empresas e operadoras num primeiro momento. “Estimativas apontam que as empresas brasileiras perdem cerca de 7% de seu faturamento em fraudes [ em saúde ]”, lembra Herald Landy, diretor da Care Plus, operadora que oferece planos corporativos com cobertura médica e odontológica – incluindo estética. Segundo ele, tanto as companhias que oferecem quanto as que contratam os planos de saúde sabem que esse tipo de acordo entre médico e paciente acontece e que ele envolve, em boa parte dos casos, procedimentos estéticos realizados nos consultórios de dermatologia. Esse seria um risco inerente ao próprio negócio.

Espinosa, da Mercer, reconhece no mercado uma preocupação com o índice de fraudes ligadas a cobertura de procedimentos médicos, principalmente em dermatologia. Ele não percebe, no entanto, uma atitude mais contundente por parte das companhias para acabar com o problema. Mas para os profissionais de RH que desejam tomar medidas para minimizar os prejuízos com coberturas fraudadas, o especialista recomenda que se realize uma auditoria permanente e aleatória. Assim, sabendo que pode cair “na malha fina” da empresa, o profissional pensa duas vezes antes de fazer “o combinado” com o médico. Outra alternativa para fugir das fraudes, é buscar operadoras que ofereçam essa cobertura estética, para incluí-la no pacote de benefícios como item diferencial para maior atração e retenção de talentos. Na Care Plus, por exemplo, há menos de seis meses, foram lançadas as chamadas cláusulas opcionais. “Percebemos que há empresas interessadas em sofisticar um pouco mais os benefícios oferecidos e que os planos tradicionais oferecem coberturas muito parecidas”, conta Landy.

De peeling a drenagem
As cláusulas adicionais abrangem o reembolso de lentes de contato a cirurgias plásticas estéticas em ambiente hospitalar ou hospital/dia por profissionais habilitados junto à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Estão excluídas, porém, eventuais próteses utilizadas. São cobertos diversos tratamentos de dermatologia estética, feitos em clínicas médicas credenciadas, como peeling, carboxiterapia, tratamento de varizes, drenagem linfática e fototerapia, além de cirurgia de acne (incisão e esvaziamento de lesões acneicas, terapia fotodinâmica e microdermoabrasão). Há, também, opcionais complementares para a reprodução assistida: inseminação artificial, indução de ovulação ou fertilização in vitro – incluindo despesas com retirada, armazenamento, manipulação e implante de óvulos, coleta de e manuseio de espermatozoides, exames para avaliação de painel genético de infertilidade e painel de abortos de repetição e consultas dos profissionais envolvidos no tratamento. Landy diz que a Care Plus ainda não possui clientes que contrataram nenhuma dessas cláusulas adicionais, mas considera isso natural, já que é “um produto de alto valor agregado, com maior período de maturação no mercado”.

Estratégia de retenção
O diretor comercial da Omint, Cícero Barreto, concorda que o tempo para o crescimento das vendas desse tipo de produto é maior. A operadora foi uma das primeiras a lançar um produto com cobertura para procedimentos estéticos e se surpreendeu com a demanda por parte do segmento corporativo. “Quando idealizamos o Omint Estilo, imaginamos que a demanda de pessoas físicas seria a maior, mas nos surpreendemos com o volume de adesões por parte de empresas”, relembra Barreto.

O plano cobre todos os procedimentos recomendados e autorizados pela SBCP a serem realizados por médicos e em clínicas da preferência do associado. Também são cobertos procedimentos estéticos em odontologia, como próteses, implantes e clareamento por meio de qualquer técnica. Segundo o executivo da Omint, o perfil dos clientes corporativos da operadora é de companhias de médio e grande porte, que oferecem o benefício para executivos do alto escalão, como estratégia de retenção. Barreto, no entanto, não fala em números. Nem totais, nem de crescimento. Diz apenas que mesmo durante a crise se mantiveram estáveis. “Ainda falta nas empresas a cultura de valorização desse tipo de benefício”, argumenta.

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