Gestão

Chamem as musas

Gabriel Perissé
14 de Março de 2012

Existem empresas bacanas e existem aquelas companhias mais toscas. Sei que se trata de uma distinção muito radical e, portanto, questionável. Devemos levar em conta as nuances que pode haver numa comparação desse tipo. Na verdade, existem situações toscas em empresas bacanas e coisas bacanas em empresas toscas. Mas é com intenção didática que proponho a dicotomia. Nas empresas toscas ainda encontramos lideranças autoritárias, falta de companheirismo, visão de mundo estreita, mentalidade que reduz as pessoas a objetos, engrenagens, números e códigos. Já as empresas bacanas são lugares inspiradores. Numa empresa bacana, você trabalha mais e melhor porque você quer e não porque alguém vive cobrando e dando broncas em nome dos resultados. Bacana é aquela empresa em que o espírito de solidariedade é maior do que nossa tendência natural ao egoísmo. Toda empresa bacana supera os famosos “problemas de comunicação” com um ambiente em que a linguagem é clara e as palavras fazem sentido.

Se você trabalha numa empresa bacana, você sabe que, por tabela, também sua imagem como trabalhador, como profissional, é bacana aos olhos da sociedade e do mercado. Então, a pergunta natural é: como podemos fazer com que uma empresa tosca se torne uma empresa bacana? Ou ainda: como podemos fazer com que uma empresa bacana se torne mais bacana do que já é? Uma resposta a esse chamado é: vamos convocar as musas!

O retorno das musas
As musas transformam o nosso local de trabalho num espaço mais humano, mais harmônico, mais estimulante, mais dinâmico e, por conseguinte, mais produtivo. As nove filhas que Zeus gerou com uma de suas esposas, Mnemósina (a deusa da Memória), são entidades que nos ajudam a lembrar o essencial da vida. Elas nos inspiram a ser pessoas mais sensíveis e eficazes, mais atentas e persuasivas. As musas melhoram o ambiente em que trabalhamos. Elas nos ensinam a ser pessoas melhores e profissionais mais engajados, maduros e criativos. Tradicionalmente, estas são as nove musas:

> Érato, que nos ensina a trabalhar de modo apaixonado.
> Euterpe, que nos ensina a ouvir a melodia do cotidiano.
> Terpsícore, que nos ensina a dançar conforme a música.
> Melpômene, que nos ensina a encarar as dificuldades da vida.
> Polímnia, que nos ensina a falar (e ouvir) melhor.
> Talia, que nos ensina a ter senso de humor.
> Calíope, que nos ensina a contar novas histórias.
> Clio, que nos ensina a conhecer o passado.
> Urânia, que nos ensina a planejar o futuro.

As musas são professoras eficazes. Vale a pena estudar o perfil de cada uma delas. No contexto da vida corporativa, elas nos concedem o idealismo necessário para que, em meio à “correria”, saibamos para onde vamos. Ou correremos o risco de cair no cinismo pragmático de só fazer o que nos mandam… e olhe lá! Das nove musas, Calíope ocupa lugar especial. Seu nome significa “a que tem uma bela voz”. Calíope comandava as outras oito musas. Desempenhava, portanto, um papel de liderança. O que nos faz pensar como deve ser a voz do(a) líder: firme, otimista, motivadora, capaz de nos abrir horizontes.

Contudo, não basta ter voz boa, agradável, bem colocada, e usá-la para dizer coisas interessantes, cativando e incentivando os outros. Devemos aprender com a musa Polímnia a dialogar. Ela é chamada a “rica em palavras”. Esta musa permite diálogos inteligentes e construtivos. Que devem ser bem-humorados. E aqui entra em cena uma terceira musa, Talia, cuja personalidade está relacionada às noções de juventude, graça e alegria. Mas a vida não é feita só de flores e belas palavras! Muito menos no mundo do trabalho, em especial na hora em que explodem crises e surgem tensões no dia a dia empresarial. Daí a importância de Melpômene, a musa das tragédias. Ela nos ensina que é necessário encarar os dragões, os monstros, as bruxas, as armadilhas, as tentações e desafios que estão no caminho de todos os heróis. Esta é a musa da desilusão. Musa necessária para que transformemos nossas ilusões em ações, nossa ingenuidade em criatividade.

Musas fora do museu
A palavra “museu” significava, na antiguidade grega, o “Templo das Musas”. Algumas pessoas associam o museu com o “antigo” e o “superado”. Por isso, temos de chamar as musas para fora do museu. Que elas venham nos ensinar a viver e trabalhar de modo apaixonado. Esse é o papel, sobretudo, da musa Érato, cujo nome está em evidente conexão com o grego éros (“amor”, “paixão”, “desejo ardente”). Resgatar o amor ao trabalho é uma das tarefas mais difíceis. Não basta a necessidade da sobrevivência. Não é humano trabalhar apenas em nome do sucesso profissional. O amor ao trabalho tem um nome bem específico no mundo grego – filoponia. O amor ao trabalho não tem muito a ver com “o que se gosta de fazer”. Todo trabalho tem sua dimensão árdua. O trabalho é cansativo. A paixão nos faz lutar apesar do cansaço. Um apaixonado luta para conquistar aquilo que deseja com ardor. Essa luta, porém, não precisa se fazer em ambientes deprimentes. A música e a dança não podem faltar na vida profissional. As musas Euterpe e Terpsícore nos dão leveza e ritmo no trabalho. Outra dupla de musas nos acompanha no cotidiano do trabalho: Clio e Urânia, com ensinamentos complementares. Clio nos ensina a olhar para trás, a saber o que aconteceu no passado, e Urânia nos diz que é preciso olhar para a frente e para o alto. Cientes da história de uma empresa, de um produto, de um serviço, é possível desenhar e abrir os caminhos do futuro.

A décima musa
Mas ainda existe uma outra musa além das nove. O escritor espanhol Enrique Jardiel Poncela falava que “a casualidade é a décima musa”. O imprevisível está sempre à nossa espreita. Neste momento, precisamos da inspiração da musa inusitada. Ela não está ao lado das outras. Vive longe dos nossos olhos. Mas quando somos surpreendidos por um novo desafio, quando sopra o vendaval das mudanças inesperadas, quando os nossos planos se reduzem a pó… a décima musa sopra em nossos ouvidos uma ideia inovadora. Ela tem o dom do insight. A décima musa, de repente, assume a liderança. E Calíope, sem hesitação, lhe dá uma oportunidade!


Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade

 

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