Gestão

Cifras ou formação de talentos?

Da Redação
5 de setembro de 2014
Pesquisa Talento / Crédito: Getty Images
Crédito: Getty Images

Muitos CEOs de grandes companhias confirmam que as pessoas são o principal ativo de uma empresa. Certa vez, o então presidente do grupo siderúrgico Gerdau, Jorge Gerdau, disse: “pessoas são a parte mais importante do negócio. Os ativos físicos, se a gente perde, a gente reconstrói. Mas com pessoas, não é assim”. Apesar de compartilharmos nesta publicação exemplos como esse, em geral, a prática parece ainda estar descolada do discurso, ou não conseguiu atingir todos os níveis de liderança das empresas. É o que revela pesquisa recente da Affero Lab Desafios do RH: uma perspectiva de negócios.

O estudo conduzido com mais de 600 profissionais brasileiros — a maioria com cargos de liderança (veja mais no quadro Formadores de opinião) — mostra como o RH é percebido no contexto organizacional, por seus próprios profissionais e pelas demais áreas nas organizações, além de comparar a percepção desses profissionais quanto à importância das iniciativas de educação continuada. Segundo o levantamento, para o RH a gestão de talentos (25,9%) é o principal desafio das companhias nos próximos anos. Preocupação esta que não é dividida com todas as equipes. As demais áreas consideram mais críticos para a organização fatores que impactam diretamente os resultados de negócio, como o lucro (29,3%) e o crescimento (28,1%), seguido da inovação (27,3%) e da redução de custos (21,3%). A gestão de talentos aparece só na quinta colocação entre as preocupações dos demais gestores da empresa (19,7%).

Mas isso não quer necessariamente dizer que as agendas de RH e das demais equipes não estão sintonizadas. Um exemplo: todos estão preocupados com a redução de custos: RH (22,5%) e demais profissionais (21,3%).

Talentos
Embora os três principais desafios específicos da área de Recursos Humanos sejam os mesmos tanto para o RH como para as outras áreas, o grau de importância dado a cada um pelos dois grupos difere. Reter colaboradores de talento e desenvolver pessoas são percebidos como desafios maiores pelas demais áreas (42,2% e 41,6%, respectivamente) do que pelo próprio RH (39,7% e 35,8%, respectivamente).

Estabelecer uma política de meritocracia e conduzir a transformação da cultura da empresa também são destaques na atuação do RH na sua autovisão (16,6% e 35,2%, respectivamente) e no olhar dos demais colegas (17% e 24,1%, respectivamente).

Já o assunto desenvolver a liderança, um tema latente nas rodas de RH, dispara entre os profissionais de RH (53,4%) em relação aos das outras áreas (26,6%). Pelo visto, ainda que a liderança seja uma questão vital para a performance do negócio, gestores das outras áreas da organização não consideram o desenvolvimento de líderes como um desafio tão relevante.

#Q#

FORMADORES DE OPINIÃO
A pesquisa foi aplicada em uma base composta de profissionais atuantes em grandes empresas dos diversos setores da indústria, ocupando posições de decisão, que vão desde coordenadores e executivos da média e alta liderança até CEOs — 7,4% CEO/presidentes, 23,9% VP/diretores, 33,3% gerentes, 18,3% coordenadores/supervisores, 10% analistas e 7,1% outros. Com base nas respostas, foi feita uma análise comparativa com a intenção de entender o que pensam os profissionais de Recursos Humanos e as demais áreas da organização, atendidas nas demandas de pessoas pelo RH.

RH estratégico
Os dados demonstram como as áreas de negócios ainda não reconhecem o RH com um papel estratégico atuante. Apenas 29,7% dos profissionais das outras áreas têm a percepção de que o RH esteja envolvido nas decisões estratégicas. Curioso observar que a percepção do RH quanto à sua própria participação nas decisões estratégicas é muito superior (60,6%). Embora possa haver um alto grau de envolvimento do RH em decisões corporativas, o reconhecimento por parte dos líderes ainda se apresenta como um desafio a ser vencido.

Talvez esse dado seja importante para entender a distinta percepção do RH e das demais áreas no que deve ser priorizado nos treinamentos corporativos. Embora “gestão de pessoas” seja apontada como prioridade de T&D tanto para os profissionais de outras áreas (36,8%) quanto para o RH (42,0%), sua relevância é mais significativa para o RH. Por exemplo, como prioridade de T&D, “pipeline de liderança”, é apontado com uma diferença marcante de 12,9 pontos percentuais entre o RH (20,8%) e as outras áreas (7,9%), demonstrando que há uma preocupação maior desse grupo com o desenvolvimento de futuros líderes.

E o fato de “foco no cliente” não ser uma prioridade muito relevante para os profissionais de RH é algo que chama a atenção. Por outro lado, outras áreas parecem dar foco aos treinamentos que miram os resultados (30,0%), os clientes (23,5%) e as equipes de alta performance (22,4%), confirmando a atenção dos demais profissionais em maximizar os resultados do negócio.

Importância do T&D
Os treinamentos desfocados com as necessidades de cada área geraram de maneira geral uma percepção negativa da importância da área de T&D. Assim, 73,0% dos profissionais de RH afirmam que T&D é algo muito importante para a organização contra apenas 56,1% de outras áreas.

Algo preocupante, pois as intervenções de aprendizagem, responsáveis pela construção de competências e transmissão de novos conhecimentos, são essenciais para melhorar o desempenho, acionar a inovação e melhorar resultados financeiros. De um lado, líderes precisam se conscientizar disso; de outro, profissionais do RH têm de buscar formas de demonstrar a relevância estratégica da aprendizagem e como ela afeta o sistema de negócios.

O que tira o sono do CEO
Diferentes foram as percepções dos dois grupos estudados ao longo da pesquisa, mas tanto os RHs como o resto da organização sabem muito bem o que tira o sono dos CEOs das empresas. Todos concordam que os fatores que mais preocupam os líderes mor são os custos (34,9% RH e 25,8% outras áreas) e o crescimento da organização (17,3% RH e 22,9% outras áreas).

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Curiosamente, apesar de toda discussão em torno da escassez de profissionais capacitados para enfrentar os desafios atuais no cenário de negócios, a questão “talentos” aparece em penúltimo lugar como fator de maior preocupação para o CEO na visão dos dois grupos analisados. A percepção é de que as pressões ainda recaem mais sobre gastos e sobre a manutenção do lucro.

Em outras palavras, poucos ainda são os comandantes de empresas que olham mais para as pessoas do que para os números. Mas, por outro lado, o RH precisa também ficar atento às cifras. Há ainda um amplo caminho a ser percorrido pelo RH e demais áreas para mostrar que as cifras são coletadas a partir do trabalho de pessoas qualificadas em sintonia com a cultura da empresa.

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