Gestão

Colocar na estratégia

12 de dezembro de 2011
Gregor Schuster/Getty Images

Baseada em um modelo de gestão de negócios de longo prazo, que alia aspectos sociais e ambientais, o objetivo principal da sustentabilidade corporativa é agregar valor à organização. Aos poucos, ela vai saindo do papel para se tornar realidade em algumas empresas, mas o movimento no Brasil ainda é tímido. A atuação dos profissionais de recursos humanos nesse contexto é fundamental, mas a conscientização sobre a importância do tema precisa primeiro vir da cúpula – caso contrário, nada feito.

“Poucas são as áreas de RH que revisaram seus ciclos de gestão, ou seja, pelo menos o processo de contratar, desenvolver e reconhecer, para estarem em sintonia com as estratégias de sustentabilidade das empresas”, observa Aerton Paiva, consultor e sócio da Gestão Origami. “A razão objetiva é o fato de que a sustentabilidade chegou, de fato e em profundidade, a poucas empresas no Brasil.”

Retorno financeiro
Por outro lado, as companhias que vêm colocando a sustentabilidade como foco estratégico estão percebendo o seu retorno financeiro. O raciocínio, segundo especialistas, é simples: o investimento acaba revertendo em vantagem competitiva, já que essas ações sociais e ambientais reduzem desperdícios, melhoram o relacionamento com os consumidores, muitas vezes possibilitam a implementação de medidas empresariais inovadoras e, consequentemente, geram lucro para a empresa. É o que explica a professora e pesquisadora na área de responsabilidade social empresarial e sustentabilidade Elizabeth de Melo Rico. “São mecanismos comerciais com objetivos econômicos que não oneram a empresa”, ressalta. “Além disso, a imagem da organização se valoriza, o que aumenta a motivação e a produtividade dos funcionários.”

No Wal-Mart Brasil, que emprega 87 mil profissionais e obteve uma receita de 22,3 bilhões de reais em 2010, o tema não só é parte integrante das diretrizes corporativas, como virou meta: a empresa quer ser líder em sustentabilidade. Para isso, uma das preocupações da companhia é com a Floresta Amazônica. O Wal-Mart é membro do Fórum Amazônia Sustentável, organização criada em 2007, que reúne empresários, governos, sindicatos, ONGs, entre outros representantes, para discutir e propor ações sustentáveis e boas práticas produtivas para a região.

Cadeias produtivas
De acordo com a gerente assistente de treinamentos em sustentabilidade da empresa, Julia Noble, um dos compromissos envolve um pacto empresarial de controle das cadeias produtivas da madeira, da pecuária e da soja. Além disso, a rede varejista foi uma das organizações que se engajaram no abaixo-assinado para o fim do trabalho escravo por intermédio da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição que prevê o confisco de terras onde esse crime é praticado – acionou clientes, fornecedores, funcionários e internautas e conseguiu 60% das assinaturas necessárias. “Cerca de 250 mil foram entregues ao então presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB), que encaminhou a solicitação ao Plenário, que por sua vez aprovou a proposta e promulgou a PEC”, conta Julia.

O Wal-Mart também fez uma parceria com a Coca-Cola para o desenvolvimento do Projeto Estações de Reciclagem, implantado em 246 lojas. “A preocupação é constante. Após realizar estudos a respeito da evolução das emissões de carbono na atmosfera, a rede criou um plano para reduzir o impacto das operações sobre o meio ambiente”, afirma a gerente. “A empresa incorpora o tema sustentabilidade nos encontros com fornecedores e incentiva a adoção de práticas de responsabilidade social empresarial.” Um dos objetivos dessas reuniões é conseguir reduzir em 20% a emissão de gases de efeito estufa nas lojas atuais e diminuir em 30% nas novas lojas. Já em relação ao consumo de água, o plano é promover uma redução de 40%.

Para que todas essas ações tenham sucesso, a empresa realiza aulas presenciais com os diretores regionais e os outros gestores. Depois, o aprendizado é replicado para todos os funcionários por meio de vídeos. “O treinamento Mobiliza Geral, por exemplo, apresenta temas específicos de sustentabilidade e o conteúdo é passado em formato de novela, com duração de 1 hora, seguido por provas e gincanas”, destaca a gerente, acrescentando que os resultados são eficientes a um baixo custo.

A ArcelorMittal, maior grupo siderúrgico do mundo, que emprega cerca de 300 mil pessoas em 61 países, é outro exemplo de empresa que investe em sustentabilidade. Os projetos são realizados por intermédio da Fundação ArcelorMittal que, apesar de contar com apenas 11 funcionários, consegue impactar positivamente diversos grupos sociais. O sucesso da fundação é sustentado em dois princípios: capacitação constante de sua equipe em temas ligados ao terceiro setor e envolvimento do governo e da sociedade nas ações realizadas. “Nenhum programa é produzido isoladamente, pois tem de haver rentabilidade não só para a empresa, mas também para a sociedade”, explica o diretor superintendente da Fundação ArcelorMittal Brasil, Leonardo Glor.

Entre os principais resultados dessa política de sustentabilidade, Glor destaca o Programa Ensino de Qualidade (PEQ), mantido pela Fundação desde 1999 em municípios de Minas Gerais. O PEQ auxilia as secretarias de educação e as escolas públicas a aperfeiçoarem seus processos de gestão escolar e pedagógicos para que o ensino seja mais eficiente e estimulante, melhorando o desempenho dos alunos e diminuindo os índices de evasão e repetência. Desde que foi iniciado até 2010, o programa já beneficiou cerca de 74 mil estudantes e envolveu em torno de 2.900 educadores.

Ação social
Outro projeto relatado com entusiasmo pelo executivo é o Programa de Educação Afetivo-Sexual (PEAS), que tem proporcionado a redução dos índices de gravidez não planejada, de doenças sexualmente transmissíveis, uso de drogas e violência. A iniciativa alcança 78 mil alunos de escolas públicas de cidades de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e São Paulo. Criado em 2000, o PEAS já capacitou mais de 800 educadores, além de milhares de estudantes.

O diretor ressalta que somente na área de cultura a fundação já investiu mais de 10 milhões de reais, como no caso do programa ArcelorMittal Cultura, que  tem como foco ampliar o acesso das comunidades a bens e serviços culturais, além de promover projetos de formação de gestores e artistas. O programa inclui agenda gratuita de oficinas e espetáculos em 28 municípios de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro.

Mais autonomia
Segundo Glos, os profissionais da fundação trabalham com autonomia. “A fundação tem faixa salarial inferior à siderúrgica, porém, diante das demais instituições, a nossa remuneração atinge um índice bem acima da faixa tradicional”, diz. “Valorizamos os funcionários, o ambiente é agradável e cumprir meta por projeto é muito motivador. Nós preservamos a retenção dos talentos que superam os desafios”, completa.

Exemplos de organizações como o Wal-Mart e a ArcelorMittal são inspiradores, mas ainda representam uma minoria no Brasil. Uma pesquisa realizada pelo Ibope este ano, com 400 organizações, concluiu que apenas 48% das empresas nacionais e multinacionais que atuam no país têm políticas de sustentabilidade com metas e ações planejadas. E em mais de 40% das companhias consultadas são as equipes de marketing e comercial que geram as ações relacionadas ao tema, ou seja, indicando que tais atividades estão muito mais ligadas à imagem da empresa ou de seus produtos do que a um comprometimento de longo prazo que envolva todos os seus funcionários.

Para o consultor e sócio da Gestão Origami, se a organização não tiver uma área de sustentabilidade bem estruturada, dificilmente o RH conseguirá influenciar gestores e outros profissionais a promover ações sustentáveis. “A experiência tem mostrado que sustentabilidade só avança quando há uma estratégia que engloba a empresa como um todo. Ações pontuais podem, quando muito, congregar um pequeno conjunto de profissionais simpatizantes ao tema, mas não passará disso, não fará diferença para o negócio e para a sociedade”, avalia Paiva.

 

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