Como o líder atua em campo

por Gumae Carvalho
17 de junho de 2011

Havia no ar, ainda, um pouco daquilo que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-latas em um texto na revista Manchete Esportiva, em 31 de maio de 1958 (posteriormente republicado no livro À sombra das chuteiras imortais – crônicas de futebol , que teve organização de Ruy Castro para a Companhia das Letras). Afinal, a lembrança amarga da derrota para os uruguaios, oito anos antes, na decisão da Copa do Mundo, em pleno Maracanã, ainda estava na garganta de cerca de 60 milhões de brasileiros, tapando o grito de “campeão”.

Talvez, naquele 29 de junho de 1958, a história finalmente mudasse na decisão do campeonato mundial de futebol no qual a nossa seleção, com o uniforme azul, enfrentava os donos da casa, a Suécia, que jogava com a camisa amarela. Sinal de má sorte? Seja como for, logo no início do jogo os suecos abrem o placar e jogam um balde de água fria nas esperanças brazucas. Diante do inesperado, o meia Didi vai até o fundo das redes do goleiro Gilmar, calmamente pega a bola e dirige-se para o centro do campo.

Ao longo dos 27 passos que durou o percurso, procurou manter a equipe em sintonia com seu estado de espírito. Alguns jogadores, como Zagalo, pediam pressa e estavam afoitos em recomeçar logo a partida para tentar sair do prejuízo. Mas o Mr. Football, como Didi foi chamado pela imprensa da época, pedia calma. Como lembrou mais tarde, em uma entrevista: “Eu vi aquilo e corri para pegar a bola. O Botafogo havia metido 4×1 ou 4×2, três ou quatro meses antes, na Suécia. Eu queria usar aqueles segundos para lembrar a Garrincha, Nilton Santos, Zagalo, que todos se lembrassem que já havíamos passado por aqueles gringos”.

A estratégia teve resultado
Pouco tempo depois, o Brasil empatava a partida, um jogo memorável que terminou com um placar de 5 a 2 para a equipe de Didi, Pelé & Cia – aplaudida por todos que estavam no estádio. A final marcava o primeiro título brasileiro, o fim do complexo de vira-latas, o início do reinado de Pelé e a consagração, como o melhor jogador da Copa, de Waldir Pereira, o Didi.

Para o consultor, autor de best- sellers como Você é o líder da sua vida? e Você é do tamanho dos seus sonhos , e presidente da Empreenda, César Souza, então com apenas seis anos de idade, o jogo marcava o exemplo de um verdadeiro líder, como destacara sua mãe, enquanto a família ouvia atentamente o jogo pelo rádio. “As empresas precisam de mais Didis”, comentou o consultor em sua palestra Liderança inspiradora para superar metas e desafios , durante o 14º Congresso Nordestino sobre Gestão de Pessoas (CONORH), realizado nos dias 26 e 27 de maio, em Natal (RN).

Souza ressaltou que o jogador não entrou na questão técnica, mas soube trabalhar bem a questão da autoconfiança, da autoestima, do senso do dever, do propósito de todos estarem ali, naquele gramado, em busca de um resultado, de um sonho. Ele soube tirar o melhor de cada um. “E mostrou que líder não é um cargo, pois ele nem era o capitão da seleção”, diz o consultor. Didi, de uma certa forma, ao caminhar, levantou uma bandeira, criou um desafio – e esse também é um papel do líder, como frisou o consultor ao lembrar da época em que trabalhava na Odebrecht e teve de cuidar da entrada da construtora no mercado norte-americano, em meados dos anos 90. “Era uma meta audaciosa ter de chegar aos 2 bilhões de dólares de faturamento até o ano 2000. Mas conseguimos bater nesse patamar dois anos antes desse prazo”, conta.

E como isso foi possível? Por meio da inspiração e mobilização que todo líder deve fazer. “É preciso mobilizar as pessoas com valores, como a Luiza Trajano inspira seus vendedores em sua rede de lojas e pelo exemplo, como Didi fez na Copa de 58”, diz, acrescentando que, no famoso triple bottom line, além dos aspectos econômico-financeiros, ambientais e sociais, deve incluir mais um fator importante para o crescimento sustentável de uma empresa: bons líderes e gestores em todos os níveis da organização. Didi é um bom exemplo disso e nos ajuda, hoje, a mostrar quais mitos acerca da liderança temos de derrubar, conforme explica César Souza. “Um deles é o de que líderes formam seguidores. Líder competente é aquele que possui muita gente ao seu redor e não atrás de si”, completa.

Sem manual
O número de pessoas ao redor de Luiza Helena, presidente da rede Magazine Luiza, cresceu mais com a aquisição, em meados do ano passado, das Lojas Maia, rede de varejo, na época com 150 lojas em nove estados no Nordeste, com sede na Paraíba. Foi o primeiro passo da empresa paulista naquela região. Luiza destacou, em sua palestra (O perfil das empresas e do profissional na economia contemporânea) os bons resultados da rede, que vem crescendo à taxa de 28%, em média, ao ano até 2010. Isso em outros termos, significa um salto de uma meta de cerca de 120 milhões de reais, em meados da década de 1990, para aproximadamente 5 bilhões de reais ano passado. Sem poder citar números recentes, ou até mesmo expectativas em função da abertura de capital da companhia, a empresária adiantou, ao menos, o tema do seminário em que o valor da próxima meta será anunciado: Valorização – o jeito Luiza de ser.

Mas, se uma loja não vai bem, qual seria a razão? Para ela, a resposta é simples: porque o líder não vai bem. “É ele quem tira o melhor das pessoas. Ele deve trabalhar com o que as pessoas têm de bom. Ele dá o melhor de si, dá o exemplo, sabe pedir desculpas, adora trabalhar em equipe. Sabe julgar. E como faz isso (julgar)? Perguntando para várias pessoas a opinião de cada uma”, conta. De acordo com a empresária, o que diferencia uma empresa num mercado tão competitivo é a qualidade do atendimento e a capacidade de inovação. O resto é commodity.

“E esses dois fatores só podem ser bem realizados por meio das pessoas. Fechamento de caixa dá para ter um procedimento padrão, mas o atendimento numa loja, por exemplo, não é assim tão fácil. Não dá para criar um manual com regras para isso. O mesmo cliente pode aparecer na loja em dias diferentes com necessidades e reações distintas”, conta. Por essa razão, ela conta que a rede contrata pessoas que gostam de gente e que acham que servir aos outros é algo nobre.

O que derrubar
Confira os cinco mitos da liderança, segundo César Souza
1 Liderança é um cargo e são poucos no topo
2 Liderança é carisma
3 O líder nasce pronto
4 O líder tem perfil ou estilo ideal
5 Ele forma seguidores

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