Gestão

Conhecimento livre

Camila Mendonça
27 de novembro de 2013

Disponibilizar cursos on-line para qualquer um acessar de qualquer lugar. Em se tratando de internet, a iniciativa não tem grandes novidades, mas se os cursos forem de graduação e pós-graduação de professores renomados do Massachusetts Institute of Technology (MIT), um dos institutos de tecnologia mais conceituados do mundo, tudo muda de figura. O projeto MIT Open Course Ware começou tímido em 2002, mas foi o precursor de um movimento que caminha agora no Brasil, o dos Massive Open On-line Courses (Moocs) – cursos abertos, de instituições renomadas, oferecidos a todos por meio de videoaulas.

Os cursos de conhecimento livre oferecem conteúdo de primeira linha e democratizam o conhecimento que até agora estava entre as quatro paredes de instituições como o próprio MIT, Harvard, Stanford e outras universidades célebres – esse é o principal diferencial dos Moocs frente aos tradicionais EAD (ensino a distância). E é esse fator que tem chamado a atenção de executivos em busca de conhecimento específico e de qualidade.

O analista de sistemas Márcio Fernandes Cruz aproveitou a oferta e decidiu fazer quatro cursos de Harvard e do MIT. “Fiz para agregar conhecimento e utilizar parte desse conteúdo no meu trabalho. Sinto como se eu estivesse lá”, conta. Os cursos tinham de 20 a 30 aulas, com duração de 50 minutos cada uma. Até hoje, o analista reserva cerca de uma hora por dia para se atualizar por meio dos Moocs. “A partir do momento em que existem vídeos, com cursos inteiros de uma faculdade renomada, você consegue ter um diferencial. Pretendo continuar nesse ritmo”, afirma.

Essa busca por novas ideias tem feito o movimento ganhar musculatura. Oferecidos por sites internacionais, como o Coursera, e limitados a quem tem fluência em inglês, os cursos de conhecimento livre agora têm versões em português, por meio do Veduca, uma das primeiras plataformas a selecionar, organizar e traduzir o conteúdo. Criado pelo engenheiro aeronáutico Carlos Souza, o Veduca foi lançado em março de 2012. Ao todo, a plataforma disponibiliza 5,4 mil videoaulas, de 16 instituições e de 21 campos de conhecimento. “O público é formado por profissionais que querem se especializar. Os executivos encaram como se fosse uma extensão”, explica Souza. “As empresas buscam profissionais multidisciplinares, e se atualizar os ajuda a ter um melhor desempenho”, explica.

Levantamento feito pelo próprio Veduca, com mais de mil pessoas que utilizaram a plataforma, corrobora a avaliação de Souza. A possibilidade de ter uma promoção no trabalho e conseguir um novo emprego são os segundo e terceiro motivos apresentados, atrás apenas da satisfação pessoal. “Após a revolução digital, cada vez mais vemos que esses recursos se tornam importantes. Em vez de justificar que não tem tempo, o profissional utiliza esses recursos para buscar novos conteúdos e informação e passa a ser visto com outros olhos pela empresa”, avalia o consultor organizacional e especialista no desenvolvimento das competências de liderança Eduardo Shinyashiki. O especialista explica que enviar profissionais aos EUA, por exemplo, para realizar cursos requer tempo, recurso escasso entre executivos.

Para ele, diante de uma realidade cada vez mais conectada, as empresas tendem a validar cursos como os Moocs nos currículos. Segundo Thiago Medeiros, gerente do Manpower Specialist de São Paulo, unidade de negócio do grupo voltada para o recrutamento e seleção de alta e média gerência, já existem casos de executivos que mencionam esse tipo de curso no currículo, embora as áreas de RH ainda não encarem o tópico como diferencial. “A chancela de uma grande universidade gera curiosidade, mas é apenas um atrativo que não implica definição”. O motivo da desconfiança é o mesmo que ainda impera em relação a alguns cursos de EAD: a efetividade do modelo, que pode reduzir a participação do aluno e a geração de debates e trocas de experiência – fatores que, segundo especialistas, são essenciais para a carreira. “No fim das contas, esses cursos são produtos a que todos têm acesso e, por isso, não são diferenciais. Não se tem muita certeza de como esse curso foi trabalhado pelo profissional. Além disso, o contato com o professor e a troca na sala de aula têm peso”, explica Caio Infante, diretor-geral da Trabalhando.com.

Algumas universidades emitem certificados para os Moocs que disponibilizam e esse fator aumenta as chances de o curso fazer diferença para o RH, acredita Souza, do Veduca. A partir do segundo semestre deste ano, a plataforma conseguirá emitir o certificado dos cursos que disponibiliza. “Isso cria valor para o currículo e diferenciará um candidato do outro. O mercado já está reagindo a isso e as empresas que aceitarem essa realidade rapidamente conseguirão os melhores profissionais.”

Para um salto na carreira
Acessar a internet, selecionar um curso e reservar tempo para fazê-lo são tarefas cada vez mais valorizadas nas companhias, afirma Peter Noronha, responsável pelo escritório do Espírito Santo da Asap, consultoria de recrutamento e seleção de executivos. “De fato, as empresas valorizam os profissionais proativos, que conseguem manter o padrão e estar atentos às tendências”, afirma. Para a advogada Marilene de Mello, os cursos que acompanhou no Veduca fizeram a diferença. Há seis meses, Marilene é responsável pela implantação da área de controller da empresa onde trabalha há quatro anos e diz que os cursos ajudaram a ter essa oportunidade. “Temos uma área de desenvolvimento e mesmo os cursos que não têm certificado são levados em consideração. Contou pontos no meu currículo e me ajudou nessa ascensão.” Para a profissional, o conteúdo do curso em si não foi o diferencial, mas a iniciativa de fazê-lo e os impactos no trabalho. “Comecei a fazer por motivos pessoais, mas teve um reflexo na minha vida profissional, porque passei a usar mais a lógica e a empresa viu a mudança na minha postura”, avalia.

“A realização desses cursos traz embutidas algumas competências que se traduzem em pontos positivos para o profissional. Se ele está agregando nos resultados, claro que será bem visto”, afirma Noronha. Apesar disso, o especialista ressalta que cursos on-line por si só, ainda que de instituições de ponta, não são suficientes para a ascensão profissional. “O crescimento de carreira tem outras aspectos, como comportamentos e competências. Não adianta fazer um curso de Harvard e não aplicá-lo no trabalho”, diz.

Utilizar a ferramenta para atender a uma demanda específica também ajuda no marketing pessoal, segundo Shinyashiki. “Insira a referência sobre o assunto ou nova ideia que ajudou em determinado projeto”, recomenda. Executivos em cargos de liderança podem sugerir os cursos para os subordinados de acordo com o perfil de cada um. Dessa forma, ele gera curiosidade dos funcionários e chama a atenção da chefia. Para fazer a diferença no trabalho e aproveitar bem os cursos de conhecimento livre, eles devem ser escolhidos a dedo. “O executivo tem de focar. O curso precisa convergir para a área de atuação dele”, afirma Infante, do Trabalhando.com. A aderência ao cargo e à formação do executivo também devem ser levadas em conta. “São três pontos: o curso precisa ter relação com a formação, com a meta do profissional e com o negócio da empresa”, afirma.


Uma opção à pós-graduação tradicional?
O crescimento dos cursos abertos tem gerado um debate sobre até que ponto eles podem ou não substituir cursos de extensão e pós-graduação tradicionais. Para Marcelo Saraceni, presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pós-Graduação (Abipg), esse comparativo não existe. “Os Moocs são produtos complementares e não substitutos”, afirma. Saraceni considera que o conteúdo disponibilizado pelas universidades na rede tem qualidade para atender a demandas específicas, mas não o suficiente para ser validado como uma extensão.

“O aluno não participa e não existe uma adequação do conteúdo dentro de um plano didático”, considera. O acesso às melhores práticas internacionais e a possibilidade de ter aulas de professores das mais renomadas instituições do mundo devem ser aproveitados, na avaliação de Saraceni, mas esse conteúdo teria uma efetividade maior dentro de uma base pedagógica estruturada, tal como os cursos tradicionais de pós-graduação. Daí a dificuldade dos RHs de validarem os Moocs como conteúdo que faz a diferença no currículo. “É difícil mensurar esses conhecimentos. Os cursos tradicionais são os que pesam, por essa capacidade de organizar e mensurar o conhecimento”, afirma.


Aproveite os Moocs para o dia a dia

1) Pergunte
Para aproveitar a oferta de cursos pergunte-se: “Para onde está indo minha carreira?”, “Para onde quero ir?”, “O que falta para eu chegar até lá?”. As questões ajudam no conhecimento necessário para alcançar os objetivos profissionais.

2) Análise
O conhecimento disseminado por profissionais e teóricos renomados pode ajudar em demandas específicas e a solucionar problemas imediatos. Verifique o projeto e que tipo de informação ajudaria você a avançar.

3) Foque
Ao escolher um Mooc tendo em vista o desenvolvimento de longo prazo, priorize os cursos que tenham aderência a sua formação, sua área de atuação e também à natureza do negócio da empresa onde trabalha.

4) Confira
Se a ideia é que o curso faça diferença no currículo, opte por aqueles que tenham chancela de universidades que são referência em sua área de atuação e que, se possível, concedam o certificado.

5) Desdobre
Aproveite o conteúdo livre para fazer algo que de fato lhe dê ideias novas e faça você se aprofundar no tema depois. Lembre-se, a ideia é não parar com o tempo do curso. Pesquise o assunto depois, desdobre
e se especialize no tema.


Moocs X EADs: qual a diferença?
O Massive Open Online Course (Mooc) é um movimento que parte do pressuposto de que a informação deve estar disponível na internet para ser acessada por qualquer pessoa. A ideia é criar uma rede de colaboração, que conecta pessoas que tenham o interesse pelo mesmo assunto. Plataformas de Mooc não representam uma única instituição e oferecem cursos grátis, na maioria dos casos, e que podem ou não conceder certificado.

O que vale é disseminar o conhecimento. Em uma mesma plataforma, é possível encontrar e fazer diversos cursos, de várias universidades diferentes. Já os cursos de EAD (ensino a distância) são cursos tradicionais, mas acessados via internet e veiculados necessariamente à plataforma de uma instituição específica. O aluno passa por provas e testes como em um curso tradicional e, ao final, recebe um certificado. O intuito do EAD é ser uma opção ao curso tradicional e há um esforço do mercado de fazer com que o conteúdo dos cursos presenciais seja o mesmo do oferecido via internet.

 

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