Gestão

Contra a corrente

25 de Janeiro de 2014

O cenário econômico brasileiro não está mais eufórico como nos últimos anos. Se em 2010 o PIB do Brasil cresceu 7,5% e no ano seguinte, 2,7%, em 2012 a história foi outra. Apostava-se em um crescimento de 3,5%, mas o PIB progrediu apenas 0,9%. No mesmo período, os EUA cresceram 2,2% e o Japão, 2%. Somam-se a esse indicador a inflação, que não conseguiu ser contida pelo governo, e o baixo índice de produtividade nacional.

Na conjuntura apresentada, parece ser improvável uma política salarial com índices reajustados acima da inflação, certo? Não é bem esse o resultado constatado no Guia Salarial Brasil 2013 elaborado pela Hays em parceria do Instituto Insper. Entre outras contradições, o estudo mostra que, remando contra os indicadores, os salários em alguns segmentos no Brasil mantiveram tendência de alta do ano passado. Em alguns casos, com níveis bem acima da inflação. O mesmo ocorreu com o pacote de benefícios dos executivos. “Em dado momento, essa conta não vai fechar”, afirmou Letícia Costa, diretora de pós-graduação do Insper, durante lançamento do guia. Para ela, estamos trabalhando no limite de nossas estruturas; caso os índices econômicos brasileiros não sejam ascendentes, não haverá mais espaço para esse crescimento salarial.

Mas o que leva as empresas a investir mais em profissionais mesmo com uma entrega aquém do esperado? A falta de profissionais qualificados é a resposta na ponta da língua da maioria dos entrevistados pela pesquisa (56,3%). O protecionismo ao mercado de trabalho nacional é outra barreira enfrentada nessa batalha. O tema não foi base de estudo na pesquisa, contudo, o diretor-geral da Hays para a Europa e América Latina, Mark Bowden, aponta a questão como um dos entraves. “O Brasil não forma o número suficiente de engenheiros para atuar no país, mas também não reconhece o diploma dos engenheiros portugueses”, diz. 

Ambiente econômico 
Apesar de tudo, o clima positivista ainda é a tônica do mundo corporativo brasileiro. É provável, como apontado pela pesquisa direcionada aos setores, que o crescimento do número de startups no Brasil e os investimentos do governo nas obras do PAC e da Copa do Mundo de 2014 estejam mantendo acesa a fagulha do otimismo nas empresas. A grande maioria das corporações (83,6%) considera muito boa ou adequada a conjuntura econômica brasileira. Mas o impacto da crise global já se faz sentir de forma mais aguda: se, na pesquisa de 2012, apenas 19% declaravam falta de confiança na economia, em 2013 os céticos já somam 33%. Isso não impede que os planos sejam de crescimento: 60,6% da amostra consultada considera elevar o número de colaboradores. O foco permanece nos cargos técnicos e de média gerência, alvo de 68,5% dos entrevistados.

A mesma sensibilidade com as tendências econômicas também foi percebida entre os profissionais entrevistados. Se, em 2012, apenas 12% declaravam falta de confiança na economia, este ano o percentual é de 28,8%. Houve queda também no percentual de entrevistados que vislumbram boas oportunidades no mercado: de 56,4%, em 2012, para 43,9%. Apesar disso, a possibilidade de mudar de emprego permanece no radar de 76,7% dos entrevistados. E não é por acaso: 76,6% dos candidatos declararam ter conquistado melhora em seu pacote salarial com a última mudança, um percentual bastante alinhado aos 80,1% da pesquisa de 2012 e significativamente acima dos 61,1% do levantamento de 2011.

Pacote de benefícios
Não foi só o contracheque que ficou mais gordo, o pacote de benefícios também foi incrementado. O seguro-saúde, por exemplo, é concedido por 90,4% dos entrevistados. Seguro de vida, por 86,9%. Seguro odontológico, por 79,8%. A previdência privada já é uma realidade para mais da metade da amostra: 52,5%. Itens essenciais para a conectividade já estão se tornando uma commodity: é o caso do telefone celular (74,6%) e do notebook (70,1%). Até mesmo estacionamento (64,3%) e carro (46,54%) começam a se tornar populares. 

Como bem citou Letícia Costa, do Insper, não existe mais lealdade no mundo corporativo. “Os profissionais de hoje em dia não são como os de gerações anteriores que passavam a vida inteira trabalhando em uma mesma companhia.” De olho nessa tendência, as empresas oferecem um leque de benefícios para atrair e reter talentos. Reside aí outra contradição revelada no estudo. Das corporações que participaram do levantamento, 94,5% consideram os benefícios não financeiros uma ferramenta importante para garantir os melhores em suas bases. Em contraste, apenas 2,35% trocariam de emprego por conta de um pacote de benefícios turbinado. Os pontos que são analisados pelos profissionais em caso de troca de companhia são: perspectivas de desenvolvimento pessoal e profissional (37,57%), remuneração (19,01%) e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal (13,46%). 

O estudo revela que mais do que uma simples recompensa econômica, os profissionais querem ser valorizados pelo que fazem e vislumbram conciliar o amor pelo trabalho e pela família. Mas as empresas ainda não estão devidamente atentas a essa inclinação. A maioria (68,1%) dos candidatos não identifica suporte da empresa nesse sentido.

Modelos alternativos de trabalho
Uma resposta positiva para atender a essas necessidades é o chamado flextime, horas de trabalho flexíveis. Para 70,9% dos entrevistados essa política é a que melhor descreve o suporte da empresa entre o equilíbrio vida pessoal e trabalho. Quando a empresa oferece essa alternativa, 76% dos respondentes declararam fazer uso dela. Contudo, o número de empresas que oferecem o flextime ainda é reduzido: 37,1%. O trabalho a distância, outra modalidade que também agrega esses dois polos, é realidade em apenas 22,9% das companhias analisadas.

É claro que todas essas nuances apresentadas sofrem variações dependendo do segmento de atuação. Por exemplo, no quesito aumento do contracheque acima da inflação, há uma diferença abissal entre o setor de petróleo e gás e a área bancária. No primeiro caso, a escassez de profissionais e o boom do segmento elevaram os salários na média em 27,6%. Já para os bancários, 2012 não deixou saudades. Como a maioria dos proventos dessa classe é variável, a baixa rentabilidade econômica teve um peso significativo nos salários. Essas e outras particularidades são reveladas a seguir, com um breve resumo do Guia Salarial 2013 da Hays.

 

Compartilhe nas redes sociais!

Enviar por e-mail