Gestão

Contrate velhinhos<br />

Eduardo Cupaiolo*
22 de Março de 2010

Mais uma vez, minha amiga Ana Rita estava diante de um impasse. Antes mesmo que abrisse o problema, arrisquei a solução, sem antes delinear o que achava óbvio: mercado aquecido, dificuldade de contratar. Ana Rita e eu somos velhos amigos. Ela é VP de RH em uma grande empresa. Temos uma tradição: quando precisa de um conselho me convida para almoçar. Entre a sobremesa e o café me conta seu problema e sugiro a melhor solução.
Como em outras ocasiões, dei mais uma vez um conselho bem pouco ortodoxo. Depois de contratar preguiçosos (que fizeram mais com menos), incompetentes (que demonstraram saber principalmente o que precisavam saber) e amadores (apaixonados pelo que faziam), chegara a hora de contratar
uns velhinhos.

O mercado simplesmente não se preparou para o caso de tudo dar certo. Tanto tempo falando do país do futuro e, para surpresa de muitos, o futuro chegou. Os mais antenados até já discutiam o tema. Se o país crescesse só um pouquinho mais começaria a faltar de tudo: tijolo e cimento; mestres de obras e pedreiros; fios e canos; e energia, água e gás para passar por eles. E gente – preparada, apta profissional e emocionalmente. Não braços e pernas, mas cabeças. Gente com experiência, discernimento e sabedoria. E, se leva muito tempo para construir uma hidrelétrica, leva muito mais para construir competência. Portanto já passamos da hora de entender que o desafio não será mais quantos mais contratar, mas quais contratar. Não de quantos mais precisaremos para tocar o negócio, mas quais dentre os quantos, verdadeiramente, serão capazes de fazê-lo. A resposta é simples: esses quais estão por aí, Ph.Ds. –  de “por hora disponíveis”. Mandados para casa vestirem seus pijamas, cuidarem dos seus netos – como, se mal tiveram filhos? Fazerem bicos. Abrirem seus negócios. Darem aulas. Virarem consultores. Enfim, se virarem. Pois suas carreiras mesmo terminaram.

A razão sem razão é que ficarão velhos. Velhinhos. Como o cinquentão Roger Agnelli, presidente da Vale. Como Albert Sabin, quando descobria a vacina contra pólio. Como Lincoln, quando era eleito o 16o presidente dos EUA. Velhinhos, mas bem velhinhos e sem nenhuma capacidade produtiva depois dos 70 como Abílio Diniz. Dos 80 como Pablo Picasso e Madre Tereza. Ou dos 90 como Peter Drucker quando, perto dos 100, escreveu mais um de seus livros. Velhinhos e tecnologicamente defasados. Eu e todos da minha geração, como Michael Dell, Jeff Bezos, Steve Jobs e Bill Gates. 

Sim, sei que competência não vem automaticamente com a idade. Mas sem ela também não vem. Competência é como a sabedoria: necessita de tempo. Tempo para ter experiências e o discernimento para aprender com elas. Quer gente motivada pelo que faz não por quanto ganha? Quer talento de quem nem um pouco lento está? Quer economizar em recrutamento, seleção, treinamento e retenção? Enfim, quer competência prêt-à-porter? Bem, neste caso, repito o que sugeri para Ana Rita: contrate velhinhos!

*Eduardo Cupaiolo é diretor da PeopleSide & The Coaching Office

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