Corte os gastos certos

Gumae Carvalho*
7 de Janeiro de 2010

Concordo que, em certo sentido, a necessidade é a mãe da invenção. Em alguns casos, a ausência de recursos é o item que faltava para uma sinapse bem-feita, daquelas que nos ajudam a buscar uma saída para um problema. Muitas vezes, o resultado dessa boa comunicação do neurônio A com o B é uma boa observação – e uso – das (poucas) ferramentas disponíveis aliada a uma enorme força de vontade. Mas é preciso ter cuidado com essa onda do “fazer mais com menos”, “da redução de custos”, “dos investimentos escassos, porém cirúrgicos”.

Numa conversa com um amigo, cuja empresa estipulou uma redução drástica de gastos, percebemos que o mercado não quer mais super-homens; quer alguém como Jesus, que, segundo os apóstolos, alimentou uma multidão com apenas cinco pães e dois peixes; ou alguém como MacGyver que, com um pedaço de papel e um fio de cabelo, criaria uma nova espécie de e-book, sabe lá Deus como (mas convenhamos: em matéria de criatividade, o pessoal que conseguiu criar um produto a partir das piores hipotecas, nos EUA, dá  um banho no personagem principal da série Profissão perigo, não?).

Creio que há de chegar o dia em que nenhuma empresa no mundo terá de sacar um só centavo para ter lucro. Basta continuar com essas reduções de custos e, pior, de investimentos. Essa pressão pode até trazer algum resultado por algum tempo, mas, se persistir, muitos talentos passarão a inventar e-books com apenas uma folha de papel e um fio de cabelo…

O que muitos líderes precisam é olhar para dentro, e não me refiro a identificar valores. Façamos um teste: respire fundo e feche os olhos; sinta o sangue percorrer seu corpo; agora, imagine esse precioso líquido cheio de glicose. Não se preocupe com diabetes… Respire fundo mais uma vez. Se você chegou até aqui, de olhos fechados e lendo o texto, parabéns: é o MacGyver que qualquer empresa quer… Concentre-se novamente: feche os olhos… Imagine quanta energia cada célula sua gasta para gerar mais energia. Pensou?

Para “pegar” a glicose, cada célula “investe” dois ATPs, uma moeda energética (cientificamente trata-se de adenosina trifosfato, composto cuja energia potencial pode ser facilmente mobilizada pela célula, sendo a mais importante fonte de energia diretamente utilizável). Nessa primeira etapa da chamada respiração celular, são geradas quatro ATPs. Fazendo as contas (ROI), conclui-se que, nessa fase inicial, gastam-se dois ATPs para ter dois de lucro.

Tente, agora, mandar uma circular para o corpo, pedindo que cada célula gaste apenas meio ATP, mas com meta de seis nesse processo. O que acontece? Só para ter outra ideia: mesmo com duas ATPs, mas com o corpo sob um grande esforço físico, a célula, com pouco oxigênio, produz energia. E também ácido lático, que dá a cãibra.

Ok! Sei que temos de dar o suor do rosto (o mesmo que cola a camisa da empresa em nosso corpo), que é preciso rever os gastos invisíveis, mas sei também que, se não houver uma compensação, cada célula de trabalho degringola. E, sem essa energia, quem morre é a empresa.

*Gumae Carvalho é editor da revista Melhor Gestão de Pessoas

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