Crédito a elas

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Adriano Vizoni
Irecê, JSL: “As mulheres têm facilidade de adaptação, até pela sua própria natureza. Quando engravidamos, descobrimos a elasticidade do nosso corpo, que se adapta”

Qualidade de vida, gestão participativa, relações de transparência e clima organizacional positivo são exemplos de temas discutidos com frequência pelo mundo dos negócios, mas essa é uma realidade recente. Foi graças à consolidação da presença feminina no mercado corporativo que questões como essas passaram a ocupar uma posição de destaque nas companhias, ao lado de números e projeções de resultados. “A entrada das mulheres no Brasil ocorreu em um momento em que o país estava em transformação, no período em que as multinacionais começaram a se instalar aqui e também com o processo de urbanização após a década de 1950. O custo de vida aumentou nas cidades e elas foram ingressando nas empresas”, destaca o diretor de educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e consultor de empresas, Luiz Edmundo Rosa. “As mulheres sofreram muito no começo, pois enfrentaram bastante resistência, mas foram movidas pela vontade e pela necessidade. A contribuição delas para o ambiente corporativo é muito importante e pouca gente fala sobre isso. Elas conseguem manter relações mais transparentes e expressar adequadamente seus pensamentos e sentimentos. São pessoas assim que ajudam as empresas a se transformarem”, acrescenta. Outra mudança importante foi o crescimento do papel da mulher no mercado de consumo. “O poder de decisão delas na compra e uso de bens e serviços influenciou o mercado, tornando inquestionável seu papel na sociedade”, avalia a diretora de gestão de pessoas do Magazine Luiza, Telma Rodrigues. “Ao longo dos anos, elas conquistaram seu espaço no mercado e, graças a essa evolução, a sociedade se tornou menos conservadora.”

Fonte de renda
O filósofo e educador Mario Sergio Cortella concorda que a presença feminina trouxe melhorias significativas para o ambiente corporativo e ressalta uma distinção importante. “As mulheres sempre estiveram no mundo do trabalho, que é fonte de vida. O que elas ocuparam ao longo das últimas décadas foi o mundo do emprego, que é fonte de renda. Elas conseguiram não se masculinizar, não tomaram o modelo masculino como exemplo. Enquanto o homem é mais força, por suas características genéticas e sua formação cultural, o sexo feminino é mais energia e mais resistência, e as mulheres levaram isso para as organizações”, diz.

Entre as características femininas que mais contribuem para o ambiente empresarial está a sensibilidade. “Elas trouxeram para seus respectivos ambientes de trabalho um perfil diferenciado, como a maior flexibilidade para aceitar mudanças, o trabalho meticuloso, a capacidade de harmonizar os opostos, a prontidão para fazer reciclagens, treinamentos, enfim, tudo o que é necessário para melhorar o desempenho profissional”, aponta a advogada Ana Basílio, sócia do Basílio Advogados, escritório especializado em direito empresarial, e responsável por liderar uma equipe de 75 profissionais. “Conseguimos transmitir a importante tarefa de mudar de hábitos com a clareza e a delicadeza necessária para despertar o envolvimento de cada indivíduo, tornando o ambiente mais unido.”  A naturalidade em desempenhar diversas atividades ao mesmo tempo é outra contribuição positiva para o dia a dia das empresas, segundo a diretora de RH da Radix, Mônica Paiva. “A habilidade da mulher de ser multitarefa é um grande diferencial para o mundo dos negócios, já que hoje a velocidade é decisiva para o sucesso”, explica.

Onda positiva
A diretora de comunicação do Boticário, Ana Paula Ferrells, concorda. “Acima de tudo, a mulher tem leveza para lidar com a vida e ela leva isso para o ambiente de trabalho, seja na gestão dos negócios, ao assumir a liderança e ficar à frente de projetos estratégicos. A multiplicidade e o jeito dinâmico feminino também conseguem criar uma ´onda positiva´ na organização”, destaca. Essa leveza em saber lidar com ambientes distintos é outra capacidade que elas ensinam a todos no mundo corporativo.  “As mulheres têm facilidade de adaptação, até pela sua própria natureza. Quando engravidamos, descobrimos a elasticidade do nosso corpo, que se adapta”, diz Irecê Andrade, diretora de comunicação da JSL. Ela conta que o maior desafio é as mulheres se descobrirem, se conscientizarem e se aceitarem em cada uma de suas fases.

Sim, as mulheres estão mais acostumadas a desempenhar diversas funções simultaneamente, mas o que os homens estão aprendendo com as suas colegas de trabalho é que essa não é apenas uma habilidade natural “herdada” pelo gênero: a organização é pré-requisito básico para usar com destreza as 24 horas do dia. “A mulher trabalha de uma forma mais organizada e é mais detalhista do que o homem, o que muitas vezes facilita e agiliza os processos”, comenta o gerente comercial da Adina, indústria e importadora de material têxtil, Sacha Dowek. “Mulheres efetivamente são multifuncionais e, aos poucos, estão assumindo uma postura mais competitiva. Por outro lado, os homens estão aprendendo a dar mais valor a um trabalho mais programado e tendem a prestar mais atenção a detalhes que antes passavam despercebidos.”

O relato da CEO da empresa DQS do Brasil, Dezée Mineiro, confirma a percepção de Dowek. “O planejamento é um fator importante. Preocupo-me em fazer uma preparação diária, atualizar meus conhecimentos, planejo o meu dia. Para desempenhar bem a minha função, conheço o meu terreno e não nado contra a correnteza”, ressalta a executiva que há sete anos consecutivos é premiada pela organização como a melhor gestora do grupo. Dezée inclusive consegue encontrar tempo na agenda para se preocupar com a alimentação de sua equipe. “Como já tive casos de funcionários que ficaram doentes por comerem pouco, ou não se alimentarem direito, fico atenta. Às vezes, me aproximo de um deles e pergunto ´você não vai sair da sua mesa para almoçar? Vai pedir comida?´ De vez em quando, almoço com eles no restaurante da empresa só para ver o que eles colocam no prato.”

Reprodução
Telma, do Magazine Luiza: o poder de decisão delas influenciou o mercado

Para proporcionarem um ambiente mais favorável para as mulheres profissionais e ajudá-las a conciliar melhor carreira e vida pessoal, algumas empresas vêm oferecendo programas e benefícios voltados especificamente para o sexo feminino. Esse é o caso do Laboratório Sabin, onde as mulheres são 72% do total de colaboradores. “Por termos um perfil prioritariamente feminino, buscamos um pacote de benefícios que esteja alinhado à expectativa desse grupo. O auxílio-babá, por exemplo, é uma forma de minimizar a preocupação da mãe com o seu bebê, favorecendo a dedicação ao trabalho”, explica a diretora de RH da empresa, Marly Vidal. “No início do ano, o RH também faz aquisição da lista escolar, contribuindo com a gestão financeira e diminuindo tempo gasto com as pesquisas de preços e com as filas para a compra desses produtos, o que reduz as ausências na organização. No processo seletivo já percebemos uma tendência de as mulheres procurarem empresas que mantêm essa política diferenciada.”

O Magazine Luíza é outro exemplo de organização que mantém ações diferenciadas. Além de ter uma mulher à frente da empresa, 53% de seu quadro é ocupado pelo sexo feminino, que também está presente em 30% dos postos de comando da organização. Para atender às especificidades de suas profissionais mulheres, a empresa possui diversos programas, entre eles, o que possibilita a uma mãe, por exemplo, se ausentar do trabalho para ir a uma reunião na escola do filho e depois compensar esse tempo a partir de um banco de horas. “Atualmente, as empresas procuram primeiro equilibrar o quadro de colaboradores do sexo feminino e masculino, depois buscam atender necessidades específicas das mulheres para garantir as mesmas condições de carreira e desenvolvimento”, afirma Telma. No entanto, de acordo com alguns gestores, o comum é as mulheres se adequarem ao mercado corporativo e não o contrário. “Na minha opinião, o que está ocorrendo é o oposto. As mulheres é que se adaptam ao mercado de trabalho e ao ambiente das empresas e, nesse sentido, a flexibilidade feminina é um grande facilitador”, aponta a advogada Ana Basílio. Dowek segue o mesmo raciocínio. “Acredito que as mulheres se adaptaram a um ambiente que antes era majoritariamente masculino. De toda forma, elas trouxeram mais ´bossa´ para as empresas.”

Nem tudo são flores
Cortella enfatiza que o importante é saber aproveitar o ambiente enriquecedor proporcionado pelo convívio entre homens e mulheres. “A diversidade proporcionada pela presença feminina e masculina aumenta o repertório de inteligência das empresas e as organizações devem aprender a usar isso em seu favor”, ensina o filósofo. As típicas características femininas podem tanto ser percebidas como qualidades, como podem ser classificadas de defeitos ou exageros – não existe um consenso nem entre as próprias representantes do gênero. Até que ponto, por exemplo, a sensibilidade da mulher contribui para o mundo corporativo e quando essa característica pode virar um problema? “Antes, se a mulher se emocionasse ao ouvir um funcionário falar algo, isso era sinal de fraqueza. Hoje, é positivo. Nossa presidente da República se emocionou recentemente ao falar de inclusão de pessoas com deficiência”, comenta a consultora Eliane Figueiredo, do Projeto RH. A CEO da DQS, Dezée Mineiro, porém, discorda. “No ambiente profissional, a sensibilidade feminina é, sim, valorizada, mas uma sensibilidade equilibrada. A mulher não pode exagerar. Já presenciei uma executiva chorar no meio de uma reunião, e todos os participantes ficaram muito mal impressionados. Certas coisas a gente simplesmente não faz. Chorar no trabalho não é visto de forma positiva de jeito nenhum”, comenta.

Outra questão que merece uma discussão mais aprofundada diz respeito à postura competitiva que as mulheres vêm assumindo ao longo dos últimos anos. O diretor de operações da consultoria Human Brasil, Fernando Montero da Costa, afirma que essa é uma necessidade. “Enquanto, como regra geral, os homens têm de aprender a melhorar as habilidades de comunicação, a desenvolver uma maior sensibilidade comportamental em relação às pessoas, uma maior polivalência e atenção aos detalhes, as mulheres precisam aprender com os homens a ter um senso maior de ambição e agressividade com relação à projeção de sua carreira profissional, habilidades de atenção concentrada e maior objetividade em relação a aspectos de comunicação”, destaca. Já a diretora de RH da Radix alerta que a mulher precisa conservar as suas próprias características. “Muitas vezes, para crescer na carreira, ela tem assumido um perfil mais competitivo e individualista baseada no paradigma de que isso é valorizado pelas empresas, mas precisamos ter coragem para sermos nós mesmas, utilizando em nosso favor as características femininas, que podem transformar as organizações em excelentes lugares para trabalhar.” 

Se o aumento da competitividade entre as mulheres é visto como positivo para alguns gestores, ele também deve ser encarado pelo próprio sexo feminino como um ponto de atenção, segundo Cortella. “Um dos grandes desafios da mulher é colocar-se no mundo como feminina, sem perder a identidade ou ser invadida pelo masculino. O equilíbrio que a mulher precisa encontrar não é estático ou da balança, é o da bicicleta: se parar, cai”, metaforiza. “Equilibrar-se é ir aos extremos sem se perder neles. Em alguns momentos, a atenção da mulher precisará se voltar mais para a família. Haverá fases em que o trabalho deve ser prioridade. Nem sempre dará para ela dividir as horas do dia igualmente entre empresa, família e filhos.”

 

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