Cuidar bem do benefício

Ricardo Humberto
27 de novembro de 2013

Na pesquisa Focus do Banco Central, divulgada em abril, os economistas consultados mantiveram a previsão para a taxa básica de juros (Selic), para o fim de 2013, em 8,50% ao ano. Em um país que assistiu a índices bem mais elevados em períodos anteriores, o atual cenário traz algumas boas e necessárias reflexões – que vão além da possível volta (ou não) do fantasma da inflação (o que tem gerado muita discussão sobre aumentos na taxa de juros). Uma questão envolve o impacto dessa queda nos rendimentos dos fundos de previdência complementar.

Item de muitos pacotes de benefícios oferecidos pelas empresas aos seus colaboradores, esses planos de previdência ganharam no mercado uma grande importância como fator de retenção. Afinal, permitem a um profissional criar um colchão financeiro para curtir a aposentadoria. Mas será que, com a manutenção de uma taxa de juros baixa, esse colchão vai ficar espesso? Ou será que as empresas terão de aumentar sua contribuição nesses planos para não oferecer ao funcionário um colchonete? François Racicot, diretor de consultoria e investimentos da Mercer, conta que existe, sim, um impacto nos rendimentos dos fundos de pensão em função da queda dos juros. Ele conta que os fundos que montaram uma carteira de papéis indexados à inflação, como Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B) ou série C (NTN-C), com cupom [de juros] mais alto (de 6%, 8%, até 10%) e que estão com esses pápeis marcados “na curva”, continuarão a se beneficiar de rendimentos mais elevados (em linha com os cupons dos pápeis) até a data de vencimento deles. “Ou seja, para esses, o impacto será mais no médio a longo prazo”, diz.

Melhor - Gestão de pessoas“No entanto, quem está com os mesmos papéis, porém marcados ´a mercado´, teve um rendimento fantástico nos últimos dois anos em função da queda da taxa de juros”, acrescenta. Mas, por outro lado, como destaca Racicot, terá um retorno muito mais baixo daqui para a frente, em linha com as taxas de mercado (da ordem de 3%, 4% acima da inflação), bem abaixo da meta atuarial (tipicamente entre 5% e 6% acima da inflação). “Além disso, existem os fundos que vinham fazendo uma gestão focada mais no curto prazo com muitos papéis indexados aos Certificados de Depósitos Interbancários (CDI). Esses são os mais impactados pela queda da taxa de juros, pois nem se beneficiaram da queda nos últimos dois anos e as taxas de curto prazo pagam hoje apenas 2% ou 3% acima da inflação”, acrescenta. Ou seja, todos os fundos são afetados, embora o impacto possa demorar mais tempo a ser sentido para alguns e pode ser mais forte para outros.

Embora aumentar a participação das empresas no plano para compensar os rendimentos mais baixos seja uma possibilidade, isso é algo que, na avaliação de Carolina Wanderley, consultora sênior de previdência da Mercer, a maioria das organizações não está necessariamente disposta a fazer. Muito pelo contrário. A razão é simples: no ambiente econômico mais competitivo dos últimos anos, as empresas estão buscando reduzir as suas despesas – ou otimizá-las. “Por outro lado, é preciso atentar para a questão de as empresas reverem a escala de contribuição”, diz Carolina. O objetivo, explica a consultora, é que o custo do plano não mude, mas que a distribuição entre quem ganha mais e quem ganha menos contribuição da empresa varie em função do tempo de serviço. “Isso não está relacionado diretamente à redução da taxa de juros, mas é uma tendência que estamos vendo”, conta. Outra grande questão que volta à tona é o potencial da empresa em contribuir mais caso os resultados financeiros sejam alcançados ou suplantados.

Nesse cenário, tanto Carolina quanto Racicot acreditam que a empresa deve tomar duas atitudes essenciais:

1 Rever sua política de investimentos:
o mercado brasileiro evoluiu bastante nos últimos anos e vários produtos alternativos têm surgido. “Assim, acreditamos que a palavra-chave seja ´diversificação´ dos investimentos para buscar um retorno maior sem aumentar de forma exagerada o risco/volatilidade da carteira”, diz Racicot. Outro caminho que muitas empresas estão seguindo é oferecer opções de investimentos para que os participantes possam escolher o nível de risco/retorno que seja mais adequado ao seu perfil de investidor. “Isso demanda uma necessidade de comunicação e educação financeira/previdenciária muito grande.”

2 Criar programas de comunicação e de educação financeira
com os participantes do plano para que eles entendam esses impactos e a importância de efetuarem uma poupança adicional – seja por meio de contribuições voluntárias no plano da empresa ou via um PGBL/VGBL individual com a instituição financeira da preferência deles. Em outros mercados que possuem planos de previdência complementar similares ao brasileiro como, por exemplo, os EUA, Austrália e Canadá, a população já possui pelo menos dois tipos diferentes de poupança para a aposentadoria. Na Europa, o mercado de previdência complementar não é tão robusto, já que os governos ainda oferecem rendas satisfatórias na previdência social. Entretanto, essa realidade está mudando com a elevação do número de idosos no continente, o que levou países como a França a aumentar o período de contribuição dos trabalhadores, tendo em vista os altos custos das futuras pensões.

Com o amadurecimento desse mercado, pensar em economizar para usufruir na melhor idade é tarefa cada vez mais comum dentre os jovens que entram no mercado de trabalho. Sejam os fundos abertos de prateleira, com o VGBL e o PGBL ou os fundos fechados já são termos conhecidos pelos novos talentos, conforme destaca Renato Terzi, vice-presidente de Vida & Previdência da Sulamérica. “A cada ano, cai a idade inicial da contribuição, e, hoje, muitos profissionais começam a contribuir logo depois que terminam a universidade”, diz. Para essa faixa, o cenário é evidente: não existem mais os juros altos da época dos seus pais que valorizavam os planos; muitas empresas não possuem capital para contribuírem tanto como no passado, e cabe a eles buscar os melhores produtos.

Para a seguradora, o principal argumento utilizado para atrair mais companhias a oferecer a previdência aos seus funcionários é a economia do RH quanto ao turnover, já que o colaborador estará estimulado a permanecer, a fim de fazer sua poupança na empresa. Para ele, o RH mais moderno utiliza a previdência como uma espécie de bônus em vez de um aumento de salário. “O RH adequa o plano conforme o tempo que o colaborador estará na empresa”, explica.

Terzi acrescenta que o mercado de previdência também acompanha as preocupações das empresas, que começam a discutir como capitalizar recursos específicos para custear a saúde de seus colaboradores na aposentadoria. Com um sistema de saúde público pouco eficiente e o aumento da expectativa de vida do brasileiro, já se fala da criação do “VGBL Saúde”. O plano seria uma espécie de poupança para custear a saúde do indivíduo na velhice. O tema ainda está em discussão, mas cabe tanto às empresas quanto a todo o setor de previdência preparar o colaborador para mais uma realidade que se agravará nos próximos anos: o serviço de saúde está se tornando algo caro e ficará ainda mais oneroso com o avançar da idade.

 

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