De bem com a vida. Também no trabalho

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    Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, em 2001, um dos líderes da criação do índice de Felicidade Interna Bruta, uma maneira de medir o crescimento econômico dos países, considerando a felicidade e qualidade de vida da população. É alternativa às medições do Produto Interno Bruto (PIB)

    Na segunda quinzena de agosto, o bureau de crédito Serasa Experian prevê a divulgação de um indicador inédito no mercado de trabalho brasileiro. A empresa tornará público o primeiro índice de felicidade de seus profissionais. A ação pioneira no ambiente corporativo do país é ousada por pretender mensurar um conceito tão subjetivo como a felicidade.

    “É um índice inédito em termos de mercados. É uma ferramenta abusada”, reconhece o diretor de desenvolvimento humano da empresa, Milton Luís Pereira. E por que um grupo que atua, prioritariamente, com informação sobre crédito estaria preocupado em formular estatísticas sobre felicidade? “A ação é parte de nossa gestão humanista. Não ficamos apenas focados nos processos tradicionais de RH”, alega. “As pessoas não são números. Elas sentem. Têm seus problemas motivacionais. Têm afetividade. Profissionais felizes trazem mais e melhores resultados”, conta.

    O índice será gerado por meio de pesquisas bimestrais com os 2,6 mil colaboradores da companhia no Brasil. Será aplicado um questionário, anônimo, no qual quem responder dará notas de 1 a 10 para três perguntas: “Você é feliz na empresa?”, “Você é feliz na sua área?” e “Você é feliz com seu líder imediato?”. Haverá, também, um campo para comentários.

    Com os resultados em mãos, começará a segunda fase do trabalho: entender e solucionar as características de infelicidade dos profissionais. “É preciso reconhecer que há pessoas infelizes na empresa”, admite Pereira. “O índice nos dará a possibilidade de construir planos de ação para eliminar essa infelicidade.” Por esses planos, o executivo entende o oferecimento de coaching, palestras, aprimoramento da liderança, entre outros. “Por vezes, as pessoas estão desajustadas em suas funções. Não têm prazer no que fazem”, observa Pereira. Ele lembra a importância de se evitar o que chama de “Síndrome da Carolina”, da música de Chico Buarque, que diz: “(…) o tempo passou na janela e só Carolina não viu (…).” “Tem gente que deixa o tempo passar e não se atualiza. Não podemos ter medo de ser felizes. Então, quero saber, aqui e agora, como as pessoas estão.”

    A reflexão sobre a felicidade tornou-se vital para os ambientes corporativos, como atestam pesquisadores acadêmicos (ver mais em Estudos pelo mundo na pág. 116. “Particularmente quando estamos numa economia em que as relações do trabalho são cada vez mais precárias”, pontua Gazi Islam, professor de comportamento organizacional
    do Insper, Instituto de Ensino e Pesquisa, antigo Ibemec São Paulo.

    Além da condição monetária
    Norte-americano de nascimento, Islam está no Brasil há quatro anos. Nesse tempo, foi coautor da pesquisa Objective and subjective indicators of happiness: The mediating role of social classes, trabalho financiado pelo Banco Mundial e instituído para medir o índice de felicidade em três cidades: Bogotá (Colômbia), Belo Horizonte (Brasil) e Toronto (Canadá). O levantamento contemplou aspectos objetivos, como o consumo, nas classes sociais; além de questões relacionadas à subjetividade, como a pessoa se sente inserida na sociedade. Foram analisadas 576 pessoas na capital mineira. “Em termos comparativos, Belo Horizonte era menos feliz do que Bogotá e Toronto. Esse resultado surpreendeu, quando se leva em consideração o estereótipo feliz do brasileiro”, afirma o pesquisador.

    As conclusões indicam, para Islam, que ser feliz não é meramente uma condição monetária. “Se dinheiro fosse o fator preponderante, a lógica seria obter resultados similares entre Bogotá e Belo Horizonte. O que não aconteceu. A capital colombiana teve índices mais próximos da cidade canadense.” Para ele, parte do problema é a questão cultural do entendimento da felicidade, diferente em cada país. “Ser feliz é quase um julgamento moral sobre as pessoas”, observa o professor do Insper.

    A interpretação sobre o tema ganha contornos mais complexos quando o conceito de felicidade é confundido com o estado emocional de alegria momentânea, em detrimento da condição perene de realização. “Nas análises sobre esse tópico, é importante ficar claro o conceito usado de felicidade”, diz Islam. Especificamente no que tange às relações organizacionais, gerenciar as questões de bem-estar no trabalho é fundamental para manter o comprometimento dos trabalhadores no ambiente profissional e, por consequência, aumentar o grau de felicidade. “É uma questão motivacional importante para o cenário econômico”, diz Islam.

    “É uma ferramenta abusada”, diz Milton Luís Pereira, da Serasa Experian, sobre o índice de felicidade adotado

    Criador do Programa de Desenvolvimento de Competências na Gestão Emocional de Pessoas, o economista com carreira profissional no desenvolvimento organizacional Amadeu Bernardo, presidente do Instituto CKK, destaca os relacionamentos e a motivação como base para o aperfeiçoamento dos indivíduos no trabalho. “As pessoas estão sempre em pedaços. Chegam ao trabalho com preocupações particulares e, ao retornarem para casa, levam problemas do escritório”, atesta. “Daí, energias negativas tomam conta do ambiente.”

    Na visão dele, não há crescimento pessoal numa situação na qual o sentimento está energeticamente negativo. “Por outro lado, quando as pessoas estão bem, qualquer desafio é bom. Inexiste o abatimento”, garante.

    Para Bernardo, o culto ao pensamento negativo disseminado na cultura mundial, “principalmente na latina”, é um obstáculo a ser superado. “Está na hora de fazer uma grande mudança no mundo”, afirma. E ele destaca a função dos gestores nesse caminho nas empresas. “Se houver gestores preparados para o movimento de pensamento positivo, a empresa inteira se modifica. É uma questão de física quântica.” Bernardo não tem dúvidas sobre a possibilidade de criação de ambientes favoráveis ao desenvolvimento da felicidade nas corporações.

    Poder da amizade
    Essa consciência da busca por um mundo melhor pode ser exemplificada com a ação da Icatu Seguros, que inseriu em seu negócio o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), uma maneira de medir o crescimento econômico dos países, considerando a felicidade e a qualidade de vida da população. Liderado pelo prêmio Nobel de Economia em 2001, Joseph Stiglitz, o índice foi criado como alternativa às medições do Produto Interno Bruto (PIB).

    “Acreditamos que a felicidade é algo planejado. Advém de uma atitude”, enfatiza Humberto Sardenberg de Freitas, gerente de marketing da Icatu Seguros. A decisão de aplicar a FIB na empresa ocorreu em 2007, após uma análise de marketing da marca. “Queríamos compreender melhor como nossos clientes se relacionavam conosco, e como nossos funcionários viam a empresa”, lembra. A conclusão foi a de que era preciso criar “elos emocionais” mais fortes. “Éramos apenas reconhecidos pela nossa excelência do trabalho oferecido. Percebemos a necessidade de aprofundar esta compreensão”, conta Freitas.

    Alta satisfação
    A empresa, atualmente, comemora a introdução dos conceitos da FIB. “Chegamos a 70% de satisfação entre os funcionários e atraímos mais clientes pela identificação com nossos valores empresariais”, comemora o executivo. A Icatu acredita que as pessoas devem perseguir a sua realização a longo prazo. O importante para alcançar tal objetivo é ir além dos números e incorporar ao cotidiano um conjunto de medidas práticas para resultar numa vida mais equilibrada, pautada pela ética, consciência ambiental, e, consequentemente, mais feliz.

    Como principal ferramenta de difusão dessa filosofia de ver a vida, a empresa desenvolveu um site em que expõe seu trabalho nessa área, fornece literatura específica ao assunto e disponibiliza testes para orientar os interessados em adotar práticas de busca da felicidade. Nem as crianças ficaram de fora da iniciativa. Para elas, foram criados jogos educativos a fim de estimular o pensamento voltado ao futuro. “Pequenas mudanças na vida das pessoas podem levar à felicidade. Para ser feliz no futuro é preciso agir no agora”, ressalta Freitas.

    Outra variação de análise na abordagem sobre o tema pode ser identificada no livro de Tom Rath, coordenador de pesquisa do Instituto Gallup Organization. O poder da amizade, publicado no Brasil pela Sextante. Ao entrevistar aproximadamente 9 milhões de pessoas em 114 países, Rath concluiu que quem tem um grande amigo no trabalho é sete vezes mais produtivo, criativo e engajado em suas funções na empresa em relação ao funcionário isolado do convívio com os colegas. Os que conseguem estabelecer relações fraternais com pelo menos outras três pessoas são 88% mais felizes em sua vida como um todo.

    Estudos pelo mundo

    A felicidade cresce como tema de pesquisa entre acadêmicos.
    Nos EUA, foi criado a Positive Psychology – estudo da positividade humana

    A questão da felicidade atrai consistentemente pesquisadores ao redor do mundo. Nos EUA e Inglaterra, há diversos núcleos de estudos que tentam entender o tema e como criar conceitos e métodos para mensurar seus resultados de forma objetiva.

    Um exemplo da procura acadêmica por esse entendimento foi a publicação, em 2009, no International Journal of Management Reviews, da British Academy of Management, de um paper sobre o assunto. Cyntia D. Fisher, sua autora, revisou o material conhecido sobre a definição desse tópico, bem como as causas e consequências da felicidade no trabalho. Em síntese, o documento tentou responder a três perguntas: “Como a felicidade vem sendo definida e mensurada?”, “O que antecede a felicidade?” e “Quais consequências a felicidade gera?”Entre outros pontos, ela destacou que a felicidade no trabalho é um conceito mais amplo do que a satisfação no ambiente profissional. Para ela, em todos os níveis de análise, houve evidências de que a felicidade tem consequências importantes para indivíduos e organizações – e que não é possível subestimar sua importância. A força do estudo sobre felicidade fez com que surgisse na psicologia o que está sendo caracterizado como Positive Psychology (Psicologia Positiva, em tradução livre), um estudo focado nas emoções humanas positivas. Um de seus idealizadores, o diretor do Centro de Positive Psychology da Universidade da Pensilvânia (EUA), Martin Seligman, comprovou que a aplicação das técnicas da Positive Psychology combateu a depressão e fez as pessoas se sentirem mais engajadas com a vida, mais confidentes e com mais sonhos ousados, independentemente das situações nas quais estivessem envolvidas.

    É possível encontrar vasto material, em inglês, sobre a importância da felicidade, pessoal e nas corporações. Um de fácil acesso e compreensão foi produzido pela rede inglesa de comunicação BBC. Em uma série intitulada Happiness Formula, a rede traz reportagens sobre o tema. O material pode ser acessado pelo link:
    http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/happiness_formula/default.stm

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