De corpo e alma

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    Teixeira Moreira, da EMI: a área de RH é a melhor luz para iluminar os caminhos não imaginados pelo empreendedor
    Da porta da Escola de Marketing Industrial (EMI), em São Paulo, até a sala em que eu encontraria seu presidente, é possível perceber toda a atenção com os detalhes. Do nome dos visitantes em uma placa na entrada, com as boas-vindas, ao tratamento de quem nos recebe, cada canto e cada ação parecem refletir uma espécie de arte. E não apenas a arte de receber, mas a arte de lidar com pessoas. “A arte é uma das mais incríveis expressões da humanidade. E nenhuma intervenção humana está desprovida dela. Porque ela é uma das formas simbólicas de expressar coisas de que as palavras não dão conta”, diz José Carlos Teixeira Moreira. “Meu pai costumava dizer que três coisas diferenciavam o ser humano, na visão dele: a capacidade de amar; a capacidade de desenvolver tecnologias; e a de fazer tudo isso com arte.”

    É por isso que o filósofo Immanuel Kant, explica o presidente, depois que estudou aquilo que tem valor para o ser humano, que é o certo e o verdadeiro, buscou o belo. “Por essa razão que a estética é prima-irmã da ética. Tudo o que é ético é bonito, tanto é que quando pequenos nossa mãe dizia ´Que coisa feia´ quando fazíamos algo errado. Se você não levar em conta essa tríade, não consegue expressar todo valor no outro daquilo que você está fazendo. A vantagem é que quando a arte está presente em alguma ação, ela predispõe o outro a saber que aquilo vai ser bom”, conta. No entanto, não vemos a arte em muitas empresas. Nelas, o bem-feito nunca foi visto como algo de valor. “Só que o que é caprichado é primo-irmão do valor. Tudo o que você elogia é o bem-feito. E ele é primo-irmão do lucro, e gera uma percepção de respeito e de notoriedade que faz com que o preço de algo assim não seja a primeira coisa a ser vista”, ensina Teixeira Moreira.

    É por essa razão que ele acredita que as empresas deveriam ter uma espécie de departamento de arte, pessoas que cuidariam para que tudo na organização fosse bonito. Ou que fosse feito da melhor forma possível. “Como uma empresa contrata alguém? O que pode ser feito de forma a tornar esse processo mais bonito? Essa é a ideia. E para fazer bonito, as organizações precisam olhar com mais atenção para suas pessoas.” Esses foram alguns dos pontos de nossa conversa. A seguir, veja o que o presidente da EMI tem a nos ensinar. Com a palavra, José Carlos Teixeira Moreira:


    Inovação
    Inovar é da natureza humana. Assim, uma empresa que inova desperta a natureza do ser humano. No entanto, há muitas organizações em que esse despertar não convém. Isso porque elas se baseiam no conceito de que o repetido é mais barato. A origem da falta de inovação está na filosofia de uma empresa: se o que predomina nela é a visão meramente econômica, a ideia de copiar é mais bem aceita, dá mais certo. Porque copiar não exige pesquisa, já que alguém ou outra companhia já fez isso. Nas empresas em que há uma cultura de inovação, é possível perceber o engajamento das pessoas. Isso porque mexe com a alma. O corpo apenas se envolve, mas a alma, ela sim se engaja.  A disciplina pode ajudar no processo de inovação. No jazz, por exemplo, os momentos de improvisação são de pura inovação. E têm muita disciplina envolvida: está combinado que a música a ser tocada é aquela; está combinado que os demais músicos não vão interferir no solo daquele sujeito, a não ser naquela nota que ele não der direito. De vez em quando, é preciso ter a disciplina de voltar Í  música original para lembrar a plateia de que música está sendo tocada.

    Na inovação, aprendemos que não se trabalha com “perfil” de ninguém. Trabalhamos de frente. O conceito de perfil tem a ver com aquilo que a pessoa parece ser. De frente, vemos como ela é realmente. Perfil deriva da ideia de mão de obra, do que um profissional teria de fazer em uma atividade – e só aquilo. Hoje, aprendemos que as pessoas inovadoras, e que são apaixonadas pelo que fazem e pela vida, são elogiadas não pelo que produzem, mas pelo que fazem acontecer. O valor de uma empresa está mais no que esses profissionais fazem acontecer, não no que produzem.


    Motivações
    Uma empresa depende muito das motivações do empreendedor. E o que a área de RH faz se é leal Í  companhia? Ela vai fazer com que elas, motivações, aconteçam. O RH é o principal espelho das motivações do empreendedor. As motivações são aquelas sobre as quais você conversa consigo mesmo e envolvem o que você está fazendo da vida. Isso é muito filosófico? Lógico que sim! Porque o ser humano tem alma! Portanto, se a motivação for pequena, ele tende a ser pequeno. E o RH tende a ser pequeno. Mas essa área pode fazer uma revolução interna e mudar isso? Sim, mas não é uma tarefa fácil. A área de RH é a melhor luz para iluminar os caminhos não imaginados pelo empreendedor. No entanto, precisa ser estratégica. Precisa compartilhar as discussões de primeira linha. Na maioria dos casos, porém, isso não acontece porque numa empresa de visão meramente econômica essa área é encarada como despesa. E o empreendedor só se reúne com pessoas de receita. Para ele, é perda de tempo chamar para uma reunião gente de despesas. Para esse pessoal, damos uma ordem para cortar custos, mas chamamos o pessoal ligado Í  receita para traçar o futuro.


    Receita e resultados
    Geramos receita não apenas com investimento, mas fazendo melhor aquilo que já fazemos. Você percebe que compartilhamos o futuro com quem faz melhor, com quem tem mais receita, mais resultados? E resultado é mais que dinheiro. Andamos com pessoas que são elogiadas pelo que fazem ocorrer. Pessoas que transformam um valor que pode ter como moeda de troca credibilidade, reputação, notoriedade (que é diferente de fama, que pode ser comprada), poder de influência e dinheiro ou recursos – nessa ordem. Há empresas que colocam o dinheiro em primeiro lugar. Não há nada errado com isso. Só que ele não compra credibilidade, nem notoriedade, por exemplo. A área de RH não pode pensar que é despesa, não deve se perceber como uma atividade de suporte. Ela não é uma atividade-meio, é uma atividade-fim – e tem de dar um fim a isso de atividade-meio. Muitos RHs não acreditam no valor que têm e muitos não têm valor mesmo, porque foram recrutados dessa forma em função das motivações meramente econômicas ou financeiras de um empreendedor. Acredito que o RH deve lidar melhor com o conceito de resultado. Muitos profissionais, quando conversam comigo, mostram um certo sofrimento e justificam-no afirmando que nas empresas em que trabalham tudo é voltado para resultados. Sempre respondo: “Que engraçado, desde pequeno sou voltado para resultados. E meu filho também. Você já imaginou um filho que não dê resultados?”. Esses profissionais angustiados associam resultado a dinheiro. O que não é verdade. Resultado vai além, ele é feito por pessoas que fazem acontecer. E a área mais importante em resultado é o RH porque lida com pessoas.

    Quer conhecer uma empresa? É fácil: veja como ela lida com as pessoas, com seus colaboradores. Como ninguém dá o que não tem, o jeito com que uma companhia trata seus funcionários é o mesmo com que elas lidam com os clientes. O índice de satisfação destes tende a ser muito próximo ao dos funcionários. Leituras internas bem feitas mostram isso.

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    Gumae Carvalho é editor de MELHOR – Gestão de Pessoas, revista oficial da ABRH. Antes, também trabalhou nas revistas Educação e Ensino Superior. Foi professor na Faculdade Cásper Líbero (onde se formou em 1993), assessor de imprensa, consultor editorial e um dos criadores do fanzine (e depois revista) Panacea.
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