De volta ao batente

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    A Robert Bosch encontrou uma maneira interessante de aproveitar o conhecimento dos profissionais que se aposentam na empresa. Criou uma consultoria, chamada Bosch Management Support (BMS), que presta serviços para a própria companhia, tendo como consultores essas pessoas que se desligaram. Ganham os dois lados. A Bosch, podendo contar com a experiência de profissionais que têm um profundo conhecimento dos processos e da cultura da empresa. Ganham também os profissionais, que têm a oportunidade de continuar na ativa, mas agora em projetos pontuais, o que lhes dá mais tempo para gozar de sua merecida aposentadoria.

    A BMS nasceu na Alemanha, país de origem da multinacional, em 1999, mas só chegou ao Brasil em setembro do ano passado. O mais curioso foi que isso aconteceu por iniciativa exatamente de um profissional aposentado pela Bosch: o ex-presidente da empresa para América Latina, Edgar Silva Garbade. Ele atuou na companhia por 32 anos, dos quais seis passou à frente da operação na América Latina, cargo que deixou em 2008. Segundo Garbade, assim como ele, a maioria dos profissionais contratada pela Bosch passa boa parte de suas carreiras na empresa. “As pessoas entram cedo e acabam passando a vida dentro da companhia. Tanta experiência e tanto conhecimento não podem ser desperdiçados”, diz. O responsável pela BMS no Brasil conta que a Bosch retém 90% de seus profissionais, índice que vale para operação brasileira e global. Nos anos que passam dentro da companhia, os funcionários têm oportunidade de atuar em diferentes funções, setores e ainda em uma ou algumas das 50 filiais que a Bosch tem no mundo.

    Essa possibilidade de desenvolvimento de carreira, e treinamentos oferecidos e subsidiados pela Bosch são algumas das razões do alto nível de retenção. Também ajudam a entender melhor o quanto esses profissionais são valiosos como consultores para a empresa em seu pós-carreira. “São dez dias de formação por ano para cada funcionário, além do apoio para a realização de mestrados”, ressalta Garbade, que deixou o cargo de presidente, mas continua com os números na ponta da língua.

    Planejamento prévio
    Ele conta que começou a planejar o que faria em sua aposentadoria três anos antes de se desligar das funções de presidente da Bosch na América Latina, em 2005. Logo que se aposentou, passou a se dedicar à área de responsabilidade social, por meio do Instituto Bosch. Hoje, além dessa atividade, é responsável pela BMS no Brasil e ainda atua como consultor. “Só mudei de ramo”, comenta. A BMS aproveita a experiência de profissionais de todos os níveis, não apenas de ex-executivos. Com oito meses de existência, já aproveitou cerca de 30 ex-funcionários como consultores. Metade deles está atuando atualmente em projetos em andamento na Bosch, em empresas afiliadas ou fornecedores da companhia. Eles atuam como prestadores de serviços da BMS. Um desses consultores é Edson Grottoli, que assim como Garbade atuou 32 anos na Bosch. “Passei por várias posições e me aposentei em 2009, como diretor de Recursos Humanos”, conta. “Decidi que executivo não queria ser mais. Então abri uma consultoria”, continua.

    Atualmente além da atuação independente, ele também trabalha em dois projetos da BMS, um na área de logística e outra na área de estratégia comercial. “Em geral, as empresas estão enxutas, por isso há uma grande demanda por consultoria hoje. É um modo de trazer profissionais como histórico de realizações para um projeto”, reflete. Aos 56 anos e ainda com bastante vitalidade, mas também vontade de gastar mais tempo com sua vida pessoal, essa foi a forma que Grottoli encontrou de se manter ativo. Ganha ele e ganham a BMS e outras empresas que o contratam. “Hoje, trabalho apenas duas, três vezes por semana. Continuo ativo, mas não dependo mais de um trabalho diário”, afirma. Além desses benefícios para todas as partes, Garbade garante que o modelo de negócios da BMS é bastante lucrativo financeiramente, tanto para consultoria como para a Bosch. “Se fossem contratados consultores sem o conhecimento que esses profissionais têm da companhia, seria gasto muito mais tempo e dinheiro”, comenta.

    Um pouco de estatística
    Segundo pesquisa do Dieese e da Fundação Seade, em 2003, a participação das pessoas com mais de 60 anos na PEA (População Economicamente Ativa) era de 21,9% na região metropolitana de São Paulo. Esse percentual tem se mantido nos últimos anos. Isso significa que 357 mil pessoas com mais de 60 anos faziam parte do mercado de trabalho. Dessas, 328 mil estavam ocupadas e 31 mil, desempregadas. O levantamento apontou que os ocupados com mais de 60 anos estão mais concentrados no setor de serviços (52,8%) e no comércio (22,3%). Na indústria, a participação é de 11,9%. Esses números mostram que, para melhorar a renda, o aposentado volta para o mercado de trabalho. Dos ocupados com mais de 60 anos, 43,9% são autônomos; 31,4%, assalariados; 9,8%, empregados domésticos e 9,7%, empregadores.


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