De volta para casa

Natalia Gómez
12 de agosto de 2011
Adriano Vizoni
Almendro, da Roche: o mercado nos EUA está no piloto automático. Aqui, a efervescência e o dinamismo são muito maiores

Há alguns anos, fazia muito sentido tentar a vida no exterior. E isso não valia apenas para jovens sonhadores, mas também para executivos de alto escalão que buscavam o desenvolvimento fora do Brasil. Mas a crise financeira internacional virou esse jogo de cabeça para baixo. A informação de que o mercado brasileiro é a “bola da vez” ecoou pelos quatro cantos do mundo, e agora muitos executivos deixam seus postos em multinacionais estrangeiras para voltar ao seu país mesmo sem um novo emprego definido. Pela primeira vez, os nossos bosques têm, de fato, mais vida. A falta de mão de obra deixa o mercado de trabalho ainda mais atrativo, especialmente para os que têm maior qualificação.

O carioca Fernando Salek, de 42 anos, vice-presidente de finanças corporativas de uma das maiores mineradoras do mundo, a BHP Billiton, por exemplo, pediu seu desligamento da empresa, em Londres, e prepara seu retorno ao Rio. “Não há lugar melhor do que o Brasil para estar no momento”, afirma. Ele conta que o clima na Europa é de desaceleração, o oposto do que ocorre no Brasil, e que o ambiente econômico é “complicado e difícil”. Economista formado pela PUC-RJ, Salek trabalhou por dois anos e meio na Holanda e mora em Londres há mais de três, com a esposa e três filhos.

Em busca de trabalho em posições sênior de finanças, o executivo está confiante de que não terá muitas dificuldades em sua recolocação. “Não subestimo as dificuldades de adaptação, mas vejo o retorno com muito entusiasmo”, afirma. A vontade da família também contou muito na decisão, assim como o desejo de que os filhos cresçam como brasileiros.

Menos objetividade
Uma das dificuldades que ele espera enfrentar no Brasil é a menor objetividade do ambiente de trabalho brasileiro em comparação com o europeu. “Eles administram o tempo de forma mais eficiente”, conta. Salek dá como exemplo as inúmeras reuniões realizadas pelas empresas no Brasil, muitas vezes sem um objetivo definido. Apesar desse aspecto negativo, Ele destaca que a cultura brasileira privilegia mais as relações humanas do que a dos países europeus, que têm maior frieza no trato, tanto no ambiente profissional quanto no social. Ele acredita que existe uma visão idealizada de morar fora, mas que a realidade é diferente. “A ideia de morar fora é muito sedutora, mas não é uma vida fácil”, conta. “Uma pessoa pode viver quinze anos em um país, mas sempre será um estrangeiro”, completa.

#Q#

Nos EUA, epicentro da crise global, executivos brasileiros também estão decidindo retornar ao país em busca de maior estabilidade. O gerente de relações com investidores da Wilson Sons, Guilherme Nahuz, de 37 anos, voltou em março do ano passado, depois de viver por dez anos em Boston. Nesse período, ele se formou em administração na universidade de Massachusetts, fez um MBA e um mestrado em finanças, além de trabalhar em dois bancos – o IBT e o State Street. Em 2008, quando veio a crise, Nahuz trabalhava na área de private equity do State Street. Com cerca de 30 mil funcionários, a instituição cortou 10% do seu efetivo durante a turbulência econômica, dentre os quais alguns gerentes que atuavam diretamente com o executivo. “Eu acompanhava de perto os indicadores econômicos brasileiros, e nessa época me pareceu que o país seria menos afetado e se recuperaria mais rápido. Foi exatamente o que aconteceu”, lembra.

Naquele ano, ele começou a planejar o seu retorno e a fazer contatos com brasileiros, até que surgiu a oportunidade de trabalhar na área de relações com investidores da Wilson, Sons, prestadora de serviços ao setor de comércio marítimo que abriu capital na Bovespa em 2007. A experiência de Nahuz no mercado financeiro internacional fez dele o candidato ideal para o cargo. A carência de profissionais com experiência na área foi um facilitador do processo. Recentemente, o executivo deixou a coordenação da área de relações com investidores para assumir a gerência e, agora, procura uma pessoa para assumir sua vaga anterior. “Estamos buscando aqui, mas cogitamos procurar brasileiros no exterior”, conta.

Economia aquecida
Segundo a diretora da empresa de recrutamento Hays, Alexia Franco, a procura de brasileiros expatriados por oportunidades no Brasil dobrou no último um ano e meio. “O aquecimento da economia brasileira é o principal atrativo para as pessoas que estão lá fora”, conta. Segundo ela, o fenômeno atinge profissionais de todas as áreas, mas Alexia destaca os setores de finanças, indústria e óleo e gás como alguns dos mais atrativos, em especial nos níveis de gerência e direção. Ao contrário do que ocorria no passado, os profissionais não estão interessados apenas em trabalhar em multinacionais. De acordo com Alexia, existem oportunidades interessantes em empresas de médio porte ou companhias que abriram capital recentemente. “Essas empresas estão em processo de profissionalização e oferecem bons cargos para profissionais qualificados”, explica.

Segundo ela, executivos com experiência têm condições de conseguir cargos e salários mais elevados nessas companhias do que nas gigantes internacionais. Mesmo assim, é comum os brasileiros aceitarem pacotes de benefícios inferiores àqueles aos quais estavam habituados no exterior. “A saída do Brasil impulsiona benefícios, como escolas e passagens, e na volta ele pode não conseguir o mesmo nível”, afirma. No entanto, a diretora conta que isso não tem sido um empecilho para os brasileiros que querem voltar.

Não é para todos
Apesar do otimismo em relação ao retorno dos brasileiros, os especialistas alertam que as oportunidades não são para todos. As boas propostas estão concentradas em profissionais qualificados e com experiência em suas áreas de atuação. “Os altos executivos são muito assediados”, conta a consultora de carreira da Thomas Case, Monah Saleh. No entanto, pessoas que voltam do exterior apenas com o aprendizado da cultura e do idioma estrangeiros encontram dificuldades para competir no Brasil. “Esses diferenciais não são suficientes porque existem muitos brasileiros qualificados, inclusive com outros idiomas fluentes”, afirma.

Ela explica que a vantagem fica para aqueles que trabalharam no exterior, mas dentro da sua área. A realização de um MBA ou de um estágio no exterior pode trazer ganhos, mas mesmo assim sai perdendo quando concorre com a experiência de profissionais que estão atuando no mercado no Brasil. Monah conta que o interesse dos brasileiros em retornar se intensificou no final de 2009. “Tem muita gente voltando ou querendo voltar”, afirma. Em algumas áreas, como engenharia e tecnologia, a recolocação dos profissionais é muito rápida, já que existe carência de força de trabalho.

#Q#

O diretor de recursos humanos da Roche, Maurício Lima, conta que tem recebido muitos e-mails de profissionais brasileiros que estão na Europa e nos EUA há três ou quatro anos e desejam voltar para o Brasil. A maioria dos contatos é feita por profissionais no nível gerencial que pretendem aproveitar o crescimento econômico do país. Segundo ele, a companhia tem interesse em profissionais com experiência no exterior, pois são pessoas com boa capacidade de adaptação e idioma estrangeiro fluente. Mesmo assim, ele destaca que a vivência internacional não garante, por si só, uma vantagem competitiva. “Observo se a pessoa trabalhou na área, teve conquistas e realizações”, explica.

Flávio Almendro é um brasileiro que trabalha na Roche do Brasil desde 2000 e havia deixado o país em 2008 para trabalhar na unidade da empresa em Nova Jersey, nos EUA. Engenheiro de produto, ele colocou seu currículo no site global da empresa em 2007, e conseguiu uma vaga nos EUA para dar suporte às afiliadas da Roche em todo o mundo, também como engenheiro de produto. Até então, não havia sinais de crise, mas no final de 2008 o ambiente começou a mudar. “Dava para sentir o cheiro da crise rondando diversos setores da economia, pessoas perdendo emprego, fábricas que fechavam. Todos tinham uma postura mais prudente em relação a gastos”, conta. Como seu currículo continuava disponível no site da empresa, o executivo recebeu duas propostas similares de trabalho da Roche nos EUA e no Brasil.

Depois de avaliá-las cuidadosamente, ele optou por retornar ao Brasil, onde via maior chance de crescimento. “O mercado norte-americano está no piloto automático. Aqui, a efervescência e o dinamismo são muito maiores”, diz. Ele voltou para o Brasil em dezembro de 2010 e conta que já adquiriu mais conhecimento do que se tivesse ficado nos Estados Unidos neste período. Atualmente, Almendro é gerente de treinamento e suporte, na mesma linha de gerência que ocupava no exterior, mas cuida hoje de uma equipe de 11 efetivos e dois estagiários. Antes ele cuidava de produtos, e agora tem pessoas se reportando diretamente a ele. “O desafio é bem maior”, conclui.

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