Gestão

Do acadêmico ao corporativo

Natalia Gómez
12 de Abril de 2012
Adriano Vizoni

Graduado em Química, com mestrado em engenharia de materiais, Gilberto Siqueira partiu para a França em 2007, para cursar um doutorado em ciências dos materiais na área de nanocelulose pela International School of Paper, Print Media and Biomaterials, com financiamento da União Europeia. Em seguida, iniciou um pós-doutorado na Luleå University of Technology, na Suécia, com o apoio de empresas locais. Durante um workshop, conheceu um representante da Suzano, com quem trocou cartões de visitas após realizar uma apresentação. O que Siqueira não imaginava é que, pouco tempo depois, trocaria o mundo acadêmico por um cargo na indústria. Em meados de 2011, foi chamado para trabalhar na Suzano como consultor em pesquisa, desenvolvimento e inovação na empresa.

Casos como o de Siqueira começam a não ser raros no mundo corporativo. Conhecida por produzir papel e celulose, a Suzano está colocando em prática uma nova estratégia de longo prazo: reduzir a participação do papel em seus resultados e conquistar dois novos mercados, de energia renovável e biotecnologia. Para dar conta desses projetos, a empresa encontra-se em uma busca crescente por profissionais das áreas de pesquisa e inovação, e é na universidade que tem encontrado esses preciosos recursos.

Em vez de profissionais renomados no mercado em que atua, são pesquisadores com títulos de mestres e doutores que estão na mira da companhia. Hoje, a Suzano já conta com 19 profissionais com esse perfil em seu quadro de colaboradores nas áreas que demandam expertise em base florestal e papel – hoje ocupadas por um universo de 29 especialistas e gestores.

A principal demanda de profissionais qualificados vem da FuturaGene, empresa inglesa especializada em pesquisa e desenvolvimento de biotecnologia para os mercados de culturas florestais e biocombustíveis, adquirida pela Suzano em 2010. “Antes, essa era uma área interna da empresa, que tomou proporções maiores e tornou-se um negócio. A partir daí estamos em uma busca constante por novos profissionais”, explica a gerente de desenvolvimento de recursos humanos da companhia, Karen Gomiero.

Outra frente que demanda a mão de obra especializada é a de energia, incluindo a fabricação de pellets de madeira de reflorestamento, que podem ser usados como substitutos ao óleo e ao carvão mineral. De acordo com a executiva, os profissionais que vêm do ambiente universitário chegam à empresa com profundo conhecimento sobre a sua área e têm rapidez para buscar informação. Mas a maior vantagem é a conexão criada com o ambiente acadêmico. “O profissional tem uma rede de contatos e conhece as universidades mais fortes em determinados temas, o que facilita na hora de a empresa firmar parcerias”, diz. Ela conta que nem todas as pesquisas da Suzano têm início na companhia, muitas nascem na universidade e são conduzidas conjuntamente. “É um vai e vem de informações”, comenta.

Entre as instituições de ensino parceiras estão a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal de São Carlos. Na hora de selecionar esses profissionais, a empresa conta com indicações dos pesquisadores que já trabalham na organização. Entretanto, para ampliar as possibilidades, também participa de feiras e palestras em universidades estaduais e federais. Em alguns casos, os pesquisadores deixam de se dedicar exclusivamente à pesquisa para liderar equipes e até mesmo mudar de área. “São pessoas com excelente visão de longo prazo e conseguimos aproveitar essa habilidade em outros setores da empresa”, afirma Karen. A possibilidade de crescer e ter oportunidades em outras áreas é um dos fatores de atração desses profissionais. A especialidade no negócio aliada à visão da academia é o grande diferencial para esse tipo de colaborador da Suzano.

Melhor - Gestão de pessoasSuprir a demanda
Um dos profissionais que fazem parte da equipe da FuturaGene é o agrônomo Eugênio Cesar Ulian, de 53 anos. Com seis meses de casa, ele ocupa o cargo de gerente executivo para assuntos regulatórios e possui mestrado e doutorado em fisiologia vegetal pela Texas A&M University. Ulian conta que atua com pesquisa há 20 anos, mas que o foco de sua carreira está em empresas privadas e sua interface com o meio acadêmico. Segundo ele, vem ocorrendo um movimento claro de aproximação entre o meio acadêmico e as empresas no Brasil nas últimas décadas, muito relacionado à necessidade de inovar. “A isenção do meio acadêmico é fundamental para garantir a evolução da ciência básica, e a aproximação com o mundo corporativo fortalece o direcionamento à pesquisa e à inovação”, afirma. O gerente conta que as empresas têm buscado fortalecer a gestão do conhecimento interno com profundidade técnica, principalmente na área regulatória. 

Mas, afinal, é possível conciliar a carreira acadêmica com atuação no mundo corporativo? Para Ulian, foi um processo natural. Além da formação acadêmica, o executivo tem sólida experiência no mercado, com passagens por organizações como a Copersucar e Monsanto do Brasil. “Com o tempo, fui deixando a pesquisa e parti para uma área mais administrativa que envolvia cuidar do orçamento e de pessoas.” 

Na Monsanto, seu papel era manter um relacionamento com a comunidade científica e, com isso, trazer novidades para a empresa. Atualmente, sua função na Suzano é garantir que a companhia trabalhe de acordo com a legislação vigente na área de biotecnologia, que é bastante regulamentada no Brasil. De acordo com o executivo, nessa área são raras as contratações de profissionais que possuem apenas o nível de graduação no setor de biotecnologia, exceto para a área de vendas. “Empresas que atuam de uma ponta a outra do negócio, como é o caso da Suzano, precisam de profissionais com uma forte formação acadêmica para ter este diferencial”, diz.

Melhor - Gestão de pessoasAdaptação
Pela experiência da Suzano, a adaptação ao ambiente corporativo é mais fácil quando os pesquisadores são jovens, entretanto, os mais experientes também precisam se adaptar à realidade de orçamentos e prazos de um cotidiano empresarial. “Na universidade, os pesquisadores recebem dinheiro e aplicam, mas na empresa existe a necessidade de avaliar o retorno desse investimento, além de reportar os resultados mensalmente”, ressalta a gerente de RH. Segundo ela, a principal diferença é que a universidade não tem o mesmo compromisso com o retorno financeiro dos projetos, pois o objetivo é outro.

O processo de adaptação ocorre no dia a dia do trabalho, com o apoio dos gestores. Treinamentos também ajudam, desde que sejam elaborados de acordo com a bagagem de cada profissional. Para o químico Gilberto Siqueira, de 30 anos, uma das distinções entre o dia a dia em universidades e em empresas está no ritmo de trabalho. “A velocidade com que as coisas acontecem é muito maior em um ambiente corporativo, e o tempo que temos para encontrar uma solução é mais curto”, afirma o pesquisador, que atua na Suzano há seis meses. Outra diferença é o perfil de pesquisa, já que nas empresas é sempre direcionada para a busca de novos produtos (ou melhorias) e processos.

E foram justamente essas características que motivaram a ida de Siqueira para a indústria. “Um dos aspectos que mais me estimulou foi a possibilidade de aplicar os conhecimentos adquiridos ao longo da minha carreira acadêmica para o desenvolvimento de pesquisa focada em resultados, em uma velocidade muito maior do que ocorre dentro da academia”, afirma. Ele conta que sua adaptação na companhia foi rápida devido ao fato de ter desenvolvido pesquisas para indústrias durante o período em que cursou seu pós-doutorado no exterior. “Além disso, a equipe de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Suzano é bem diversificada [inclui engenheiros, químicos, mestres e doutores], o que contribuiu muito para minha integração ao grupo”, completa. Com mestrado em engenharia de materiais pela Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, o químico realizou pesquisas para a Votorantim Metais como consultor – tudo isso antes de partir para a França, onde cursou seu doutorado, e para a Suécia, local onde concluiu o pós-doutorado.

Horizonte amplo
“Não imaginava que iria trabalhar com pesquisa em uma empresa, porque normalmente o maior mercado para o pesquisador está nas universidades”, diz Siqueira, embora tenha hoje vários colegas na mesma situação. Segundo ele, o avanço econômico do Brasil tem acelerado os investimentos em pesquisa e desenvolvimento no país, o que amplia o campo de atuação dos acadêmicos. Como consultor na empresa, além de gerenciar e desenvolver projetos na área de nanotecnologia, ele busca projetos e parcerias com universidades e especialistas. “Faz parte de minhas atribuições identificar o potencial dos projetos, avaliando também a sua influência e impacto econômico e socioambiental”, conclui.

 

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