Do vermelho ao azul

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José Vignoli
Vignoli, do SPC Brasil: a empresa pode perder competitividade

Há pouco mais de um ano, os débitos do cartão de crédito e o financiamento da casa própria tiravam o sono de Marques Pereira, de 49 anos. Embora não estivesse com as contas atrasadas, pagá-las estava ficando cada vez mais difícil e o salário não chegava até o final do mês. “Não conseguia guardar dinheiro e não tinha tempo para organizar as finanças”, conta. Pereira não é o único. Pesquisa do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), com 656 consumidores de todas as classes sociais, mostra que apenas 24% dos brasileiros se consideram organizados; 62% tentam se organizar, mas acabam perdendo os prazos; e 14% são desorganizados. Na parcela dos que tentam se organizar financeiramente, 55% não conseguem chegar ao fim do mês com as contas pagas.

A pesquisa mostrou que oito em cada dez entrevistados têm pouco ou nenhum conhecimento sobre como fazer o controle das despesas pessoais. Resultado: dívidas e muitas preocupações. “O brasileiro ainda controla mal as finanças. É preocupante e as consequências são negativas em todos os aspectos”, afirma Flávio Borges, gerente financeiro do SPC Brasil. “No trabalho, a pessoa vai estar menos concentrada. E o desempenho e a produtividade podem cair”, diz. Nesse cenário, até as empresas começaram a se preocupar com o tema. E em tempos de endividamento alto e corrida pelos melhores profissionais, elas investem em programas de educação financeira para os funcionários.

Longe das dívidas
Foi assim que Pereira voltou a dormir. Coordenador de produção na fábrica de Pedro Leopoldo da Holcim, em Minas Gerais, ele teve suporte da empresa para conseguir organizar melhor o orçamento. Desde 2012, a indústria de cimento oferece programa de educação financeira, baseado em palestras, cursos e consultoria presencial e on-line com educador. “Temos uma estratégia de responsabilidade ativa, de trabalhar saúde e benefícios, porque a base da empresa é formada pelos funcionários. E vimos que o desequilíbrio nas finanças pode levar à dispersão”, afirma Juliana Andriegueto, gerente de responsabilidade social corporativa e do Instituto Holcim para a América Latina. 

Investindo na própria empresa
Enquanto parte da população ainda está na fase de aprender a fazer um planejamento financeiro, há aqueles que já estão na fase de investidores – e também com o incentivo da própria empresa. Desde a fundação, em 2001, a CAS Tecnologia implantou o Employee Ownership, que permite aos funcionários comprarem ações da empresa, ainda que ela seja de capital fechado – como permite a legislação das SA (Sociedade Anônima). Hoje, de cada dez funcionários, seis são acionistas da companhia. Quase 20% da empresa está nas mãos dos funcionários.
Juliana Rios, gerente de qualidade na companhia é um deles. Na empresa desde a fundação, a executiva já investiu cerca de 22 mil reais em ações da CAS. “Essa opção é um dos pontos que me chamou a atenção quando comecei a trabalhar aqui. E acredito que funcione como uma medida de retenção”, avalia. A oportunidade de comprar ações da própria empresa, diz Juliana, é uma forma segura de investimento. “Você está lá dentro, acompanhando os resultados o tempo todo”, contaO programa foi implantado em seis operações da indústria, já atendeu 42% dos funcionários da empresa no Brasil e se estende à família. É a esposa de Pereira quem cuida das contas em casa. Ela participou das palestras e cursos da Holcim e é a responsável pela planilha de controle das despesas. Após o curso, a família do funcionário constatou onde estavam os excessos – combustível e vestuário – e mudou o padrão de gastos: conseguiu diminuir em 14% os gastos com combustível. “Minha esposa começou a pegar carona e eu, como trabalho perto de casa, ando até o trabalho em alguns dias da semana”, conta. Para Pereira, a possibilidade de envolver a família é o que o fez se entusiasmar com o programa. “É aí que dá certo”, diz. O débito do cartão, ele liquidou em maio de 2013 e os reajustes permitiram que ele guardasse o crédito que recebeu pela participação de lucros da empresa em uma conta poupança aberta após a consultoria. A participação na previdência privada da empresa aumentou de 7% para 9,5% e Pereira passou a investir em outra previdência privada. O planejamento, agora anual, permitiu à família poupar mais e a meta é fazer uma viagem a Nova York, em 2015.

Bom para o funcionário, melhor para a empresa
Com tudo organizado, Pereira consegue respirar e vê diferença no trabalho. “Dá para produzir mais e dá tranquilidade”, conta. Embora avalie que o aumento da produtividade é consequência do programa e não a motivação, Juliana diz que benefícios como esse ajudam a reter o quadro. “A empresa mostra que se preocupa com o funcionário em todas as dimensões”, diz. O fato de as empresas tomarem para si a responsabilidade pela educação financeira dos funcionários não é ação social, na avaliação de José Vignoli, educador financeiro do SPC Brasil. Um quadro de preocupação com as contas vencidas gera problemas que podem afetar negativamente o ambiente de trabalho. “Assuntos negativos irradiam entre os colegas e a empresa pode perder competitividade”, afirma. Uma situação listada pelo educador é o funcionário que começa a pegar empréstimos de colegas – se ele não paga, o clima fica tenso. Dessa forma, programas de educação financeira impactam não apenas a produtividade e foco de um funcionário, como o clima corporativo, que pode influenciar na competitividade das companhias.

A falta de gestão das contas pode fazer com que a empresa perca um talento por uma diferença mínima de salário – que, na visão do endividado, pode ajudar na hora de pagar as contas. “Esse profissional passa a leiloar o trabalho e ele vai sair se for para receber 100 reais a mais”, avalia o educador financeiro Reinaldo Domingos, autor do livro Terapia financeira (Editora Dsop).  Ele explica que, em situações como essas, muitas empresas optam pelo aumento salarial, mas isso não resolve o problema, que é de base. Segundo Domingos, os benefícios de um programa oferecido pelas companhias vão além da produtividade. “É uma questão de saúde. Um trabalhador inadimplente, com nome negativado, fica acuado com baixa autoestima”, afirma. Nesse quadro, as consequências são desde a dificuldade na gestão da carreira, uma vez que o funcionário não terá recursos e nem ânimo para se atualizar, a pedidos de demissão para resgate do fundo de garantia.
#Q# 
Questão de saúde

Descontrole: um problema de geração
Quem tem mais de 40 ou mesmo 30 anos viveu os períodos em que a inflação no país impedia que o dinheiro rendesse até o final do mês. Receosos dos aumentos de preços do dia seguinte, os brasileiros gastavam o dinheiro que tinham em mãos. Esse comportamento ficou de herança para parte da população e está no cerne do descontrole financeiro que marca a maior parte da população, explica Flávio Borges, gerente financeiro do SPC Brasil. A pesquisa da empresa mostra que 71% dos entrevistados têm conhecimento parcial sobre as próprias finanças. E esse comportamento independe da renda. “É uma questão de comportamento, é cultural”, diz.
Outro fator de descontrole é o aumento da renda e ascensão social. Parece um paradoxo, mas é mais um fator comportamental. “Uma parte da população entrou no mercado de consumo sem qualquer planejamento e passou a comprar desmedidamente em busca de uma identidade”, explica Borges. Para uma mudança em grandes proporções, o tema educação financeira deve ser tratado em todos os meios possíveis: da escola às empresas.

Na Samarco, da área de mineração, os problemas de orçamento dos funcionários são encarados como questões de saúde, afirma Crenilda de Souza Ferreira, assistente social da companhia. O programa de saúde financeira foi implantado há três anos pela gerência de saúde ocupacional da empresa. “Temos a obrigação de olhar para os diversos aspectos que envolvem a saúde dos funcionários e um deles é o financeiro. Um problema financeiro compromete o trabalho”, afirma a assistente. O programa da mineradora envolve palestras, semana de consultoria presencial com educador e assistência às dúvidas, feita pela equipe de assistência social, que foi treinada pela consultoria parceira. O foco, explica Crenilda, é a mudança de comportamento e a família também é envolvida no programa. E o tema, antes encarado com certa desconfiança pelos funcionários, agora é visto com naturalidade. “Já conseguimos perceber a maturidade do quadro com relação ao assunto”, diz. Dos mais de 3 mil funcionários da empresa, cerca de 30% aderiram no primeiro ano, número que saltou para cerca de 60% no ano seguinte.

Combater o endividamento
É em busca desses resultados que a Basf, da área química, implantará seu programa de educação financeira neste ano. As primeiras turmas serão abertas no primeiro semestre, afirma Juliana Justi, gerente de talentos para a América do Sul. Segundo ela, a expectativa é grande por parte dos funcionários. “Uma pessoa com um alto nível de endividamento e que paga todos os meses juros muito altos tem sua tranquilidade afetada, e por consequência, isso gera uma baixa na concentração e desempenho no trabalho”, afirma Juliana. Assim como em outras companhias consultadas, o programa é formado por palestra de sensibilização, seguida por workshop sobre como organizar as finanças e uma consultoria de avaliação da situação do funcionário. “Proporcionar recursos como esse é um diferencial e contribui para a motivação e engajamento”, afirma. 

Como fazer

Crenilda de Souza Ferreira
Crenilda da Samarco: encarar como questão de saúde 

Não é porque ter um programa de educação financeira é importante tanto para funcionários quanto paras as empresas que as companhias devem oferecer qualquer coisa. Cartilhas e palestras isoladas só geram custos e não trazem resultados efetivos, afirmam consultores. “Essas ferramentas podem dar um norte, mas sozinhas não resolvem, não têm força para mudar comportamentos e hábitos”, reforça Domingos. Para mudanças concretas, diz, é preciso realizar comunicação ampla e envolver todos os setores da companhia – dessa forma, o benefício desperta o interesse dos funcionários.

Partir de uma pesquisa para avaliar a situação financeira do quadro não é regra, mas pode ser um bom começo e dar bases dos temas que o programa focará. Essa foi a estratégia da Holcim e da Samarco. “Como queríamos algo que fosse contínuo, realizamos pesquisas internas para construir um programa totalmente customizado”, afirma Crenilda, da Samarco. Na Holcim, a criação do programa de educação financeira partiu do resultado de pesquisa interna feita pela área de responsabilidade social da companhia em 2011. Por meio dela, a companhia avaliou as situações de moradia, educação e financeira do quadro. Dos 1.700 funcionários, 65% responderam à pesquisa e constatou-se que 31% dos funcionários moravam de aluguel ou pagavam financiamento, 75% pagavam alguma dívida ou empréstimo e 34% não conseguiam poupar dinheiro. As seis unidades que hoje oferecem esse suporte foram escolhidas por serem aquelas cujo número de funcionários que relataram ter o orçamento desorganizado na pesquisa foi maior. Segundo Juliana Andriegueto, da Holcim, implantar um comitê formado pelo RH e pela área de responsabilidade social da empresa foi decisivo para gerar mobilização.
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Confiança no Programa

SCORES DO DESCONTROLE
81% têm pouco ou nenhum conhecimento sobre como fazer o controle das finanças
56% chegam ao fim do mês sem ter conseguido poupar
39% das pessoas alegam falta de disciplina para registrar os gastos
29% acreditam que unir todas as informações é o grande empecilho
36% admitem que costumam comprar produtos mesmo sem ter condições de pagar
23% alegam falta de tempo para ter controle financeiro
11% justificam a falta de controle pelo desconhecimento do cálculo de juros
36% admitem não saber o valor exato das contas que terão de pagar no final do mês

Para Vignoli, do SPC Brasil, o mais difícil é manter o programa. “O RH tem de estar preparado para o segundo passo, para estender o programa”, afirma. O acompanhamento da situação financeira dos funcionários que participam do programa é essencial – é dessa forma que a empresa mensura os resultados e consegue verificar pontos a serem mudados no meio do caminho. A confiança na relação entre empresa e funcionário é o que vai manter o benefício vivo e eficiente, acredita. “É difícil uma pessoa que está endividada falar sobre o problema. Ele só vai se expor se houver confiança”, afirma. Ao implantar um programa como esse, diz Vignoli, a empresa precisa adotar cuidados para que ele não seja invasivo aos olhos dos funcionários. “O limite da empresa é o de orientar. A empresa tem de abrir um caminho para o diálogo.”

Investindo na própria empresa
Enquanto parte da população ainda está na fase de aprender a fazer um planejamento financeiro, há aqueles que já estão na fase de investidores – e também com o incentivo da própria empresa. Desde a fundação, em 2001, a CAS Tecnologia implantou o Employee Ownership, que permite aos funcionários comprarem ações da empresa, ainda que ela seja de capital fechado – como permite a legislação das SA (Sociedade Anônima). Hoje, de cada dez funcionários, seis são acionistas da companhia. Quase 20% da empresa está nas mãos dos funcionários. 

#L#Juliana Rios, gerente de qualidade na companhia é um deles. Na empresa desde a fundação, a executiva já investiu cerca de 22 mil reais em ações da CAS. “Essa opção é um dos pontos que me chamou a atenção quando comecei a trabalhar aqui. E acredito que funcione como uma medida de retenção”, avalia. A oportunidade de comprar ações da própria empresa, diz Juliana, é uma forma segura de investimento. “Você está lá dentro, acompanhando os resultados o tempo todo”, conta.

Balança, mas não cai
Organizar as finanças não é tarefa fácil: é preciso colocar despesas e receitas no papel, saber exatamente para onde vai o dinheiro, negociar dívidas. Dá trabalho no começo, mas com o tempo, a tarefa entra na rotina e beneficia o planejamento de metas de curto e longo prazo. O educador Reinaldo Domingos lista quatro passos principais para manter o orçamento em dia, sem deixar os sonhos de lado.
1. Diagnosticar
Saber o que é despesa, o que é receita e identificar as prioridades e os excessos. Esse é o primeiro passo para a organização financeira. Anotar para onde vai cada centavo do salário tranquiliza e ajuda a dar um norte sobre o que deve ser mantido e o que pode ser cortado.. Domingos defende o método da anotação no primeiro mês de planejamento – tempo suficiente para definir o que será mantido e cortado. Contudo, há quem defenda que esse diagnóstico deve ser contínuo, por conta das variações das despesas.
2. Sonhar
O segundo passo é colocar no papel todos os sonhos e metas da família – até mesmo das crianças. Segundo ele, é preciso ter metas de curto, médio e longo prazo. “É preciso ter projetos de vida. São eles que ajudam a organizar as finanças”, diz. Nessa hora, deve-se definir o preço do sonho, em quanto tempo ele pode ser atingido, considerando as receitas e despesas, e como cada membro da família pode contribuir para isso.
3. Orçar
É aí que entram os reajustes. A partir do diagnóstico, o passo é adaptar os gastos à realidade de receitas e fazer cortes para gerar excedente e criação de poupança para emergências. “É o que eu ganho menos o que eu sonho e, depois, menos as despesas”, afirma o educador. A poupança e as metas, diz, estão nos excessos de gastos identificados no diagnóstico. Segundo ele, de 20% a 30% dos gastos são excessos.
4. Poupar
Com o conhecimento da realidade financeira e metas definidas, fica mais fácil saber quanto é possível poupar. Um ponto importante é que a poupança deve ser encarada como uma despesa fixa. A premissa do “o que sobrar, eu guardo” normalmente não dá certo. Para a realização de metas de curto prazo, Domingos recomenda a poupança. Para metas de médio prazo, CDBs, títulos do tesouro e fundos de investimentos de RF podem ser opção. Quem tem planos de longo prazo e uma poupança maior, dá para investir em títulos públicos e previdência privada.

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