É hora de pensar fora da jaula

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Visitar empresas brasileiras, hoje, permite perceber um padrão preocupante entre elas, que leva ao resgate de um tema de pesquisa behaviorista muito em voga em meados da década de 70: o desamparo aprendido. Uma das pesquisas mais famosas sobre esse tema foi feita com cães, presos em jaulas, cujas barras eram eletrificadas. Antes acostumados à liberdade, os animais inicialmente testavam a possibilidade de fuga com insistência, mas obtinham como resposta insucesso e choques. Conforme registravam o sofrimento, os cães aumentavam o tempo entre uma tentativa e outra, até que simplesmente desistiam de tentar.
 
Nesse momento, a eletricidade era desligada e, apesar disso, os cães continuavam a não encostar nas barras. Mesmo se trocados de jaula, evitavam o teste, dada a recordação da dor. O que há em comum entre essa experiência e o ambiente empresarial brasileiro? Antes de responder, vale lembrar que temos um histórico consistente de profissionalização de apenas 20 anos. A abertura comercial se deu em 1992 e foi dois anos depois que tivemos condições estáveis para apoiar e valorizar a produtividade como base de eficiência empresarial. Coube aos líderes empresariais cumprir com um difícil dever de casa para que o país vencesse seus principais desafios – o que foi muito bem feito. Hoje, somos exemplo global em diversos setores.

Muitas companhias locais aprenderam a se adaptar a novos mundos, a ser mais flexíveis e a se posicionar em novos contextos.

Essa é a nossa jaula. De maneira semelhante aos cães, aprendemos um novo hábito – o de nos adaptar -, mas deixamos de questionar se isso é o melhor atualmente. O pior: nem chegamos a questionar se é possível ir além da nossa jaula e, em vez de nos adaptar à lógica e ao receituário dos mercados mais desenvolvidos, servir de exemplo ao mundo por nossas ações e práticas diferentes.

Trata-se de uma trava contra nós mesmos. O curioso é que, mais e mais, sente-se um clima de celebração no país por conta da crença de que, finalmente, chegou a vez de irmos além e de aproveitarmos nossas condições para nos projetarmos no cenário global. Poucos líderes, no entanto, afirmam que estão fazendo o que é necessário para aproveitar essa oportunidade.

O motivo? O esforço de nos adaptar ao mundo que tínhamos como benchmark tolheu nossa criatividade. Isso fica claro em dos nossos estudos, cujo resultado informa que, enquanto nossos executivos melhoraram as capacidades de adaptação nos últimos 20 anos, as de criatividade atrofiaram.

Isso traz um desafio. Hoje, quando poderíamos usar ideias inéditas para ocupar espaços relevantes no ambiente empresarial, a maioria de nós reagiu diante da crise como o resto do mundo: comemoramos por ter um quadro diferente do globo, mas nos comportamos como se isso não fosse fato e perdemos a oportunidade de nos preparar para colher frutos em um futuro próximo. Ou seja, apesar de todo o discurso sobre inovação que toma o país, não acreditamos nem apostamos no novo como falamos fazer.

Ainda estamos habituados às jaulas dos exemplos externos. A solução? Espero que sejamos disciplinados, como fomos no processo de profissionalização, para perceber isso e incorporar a criatividade ao nosso jeito de gerenciar. Para isso, precisamos perder o medo do choque e testar.

*Cláudio Garcia é presidente da DBM Brasil

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