Elas nunca são fáceis

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    Todos aqueles que, de alguma maneira, estão envolvidos no processo de negociação salarial sabem muito bem disso: elas não são nada fáceis. Entretanto, neste segundo semestre, elas prometem ser bem mais complicadas. Prevejo negociações muito complexas, com grande mobilização de centrais sindicais, sindicatos, empregados e muitas paralisações. O cenário em que ocorrerão essas negociações foi e está sendo formado por uma série de componentes, fatos, concessões, que sugerem esse tipo de visão. Essa situação começa a ser criada a partir das categorias que têm data-base (e, portanto, negociações coletivas) no segundo semestre. Ou seja, as principais do país: bancários, metalúrgicos, químicos, petroleiros, dentre várias outras.

    A coisa boa é a economia forte. Empresas vendendo tudo o que produzem. Vivemos um período de pleno emprego, para dizer o mínimo, olhando obviamente apenas para esse aspecto da realidade brasileira que nos interessa para efeito desta análise. Obviamente não estamos falando de nossa educação, de nossa saúde, de nossos governantes, sobre ética, segurança pública, e mais uma boa lista de temas que nos envergonham. Mas, voltando à nossa análise, é evidente que quando se negocia com a economia aquecida, com necessidade de produção, os dirigentes sindicais crescem, eles ficam mais à vontade para representar o sempre presente anseio de seus representados, no que diz respeito à obtenção de bons reajustes salariais.

    Há um aspecto – de grande relevância – nesse momento. Mais do que o pleno emprego, estamos vivendo uma acentuada falta de mão de obra especializada, e eu diria até da mão de obra não especializada. Com o aquecimento da construção civil, hoje já não se encontram candidatos para uma série de cargos em outros tipos de indústrias. É claro que isso irá aumentar a pressão por parte dos sindicalistas. Devemos incluir nesse cenário a inflação, que já é sentida, como há muito tempo não o era.

    Essa variável tem um peso enorme nas negociações, pois se por um lado os economistas, empresários, profissionais de finanças e de recursos humanos sabem que não se pode alimentar o processo inflacionário e sabem muito bem explicar toda essa teoria econômica, por outro estão os trabalhadores e suas esposas que a cada dia precisam de mais dinheiro para comprar as mesmas coisas nos supermercados. E o que acontece de fato é: como eles não levam mais dinheiro a cada mês para casa, levam menos coisas para lá. Para agravar a situação, o pico de inflação ocorrerá nos mês de agosto, setembro e outubro, bem no meio das principais negociações. Esse fato coloca sobre os dirigentes sindicais uma pressão enorme nas mesas de negociação.

    Não podemos nos esquecer de considerar mais um aspecto, nesse já complexo cenário: o PIB do ano passado. Os economistas dirão de pronto: “Mas o que ele tem a ver? As negociações não são desse ano? O PIB de 2011 não será menor?” Eles têm toda razão. Estão absolutamente certos. O problema novamente é a diferença que existe entre o mundo totalmente racional, do mundo real, onde a emoção tem um valor muito forte. Os trabalhadores dirão: “No ano passado, nós demos nossa grande contribuição para o PIB, para o país, para as empresas e não recebemos grande coisa, pois vínhamos sentindo os reflexos da crise começada em 2008. Agora, não vamos ter novamente, em função da provável próxima crise provocada pelo aumento inflacionário? Então, quando iremos receber nossa parte?”

    O pior é que ambos os lados não deixam de ter razão. Aumentos salariais reforçam indexação e turbinam os preços, complicando a vida do governo, da economia, das empresas e, por fim, dos próprios trabalhadores. Por outro lado, se os sindicatos e os trabalhadores não conseguirem melhores salários, mais garantias de emprego, novos benefícios quando a economia está aquecida, quando conseguirão? É nítido que a vida está mais cara a cada dia. Como o trabalhador faz para viver? Esse será o raciocínio dos sindicalistas, não tenham dúvida.

    Concessões do passado
    Outro ingrediente, nesse já complexo cenário, são as concessões do passado que, para o imaginário popular, devem – erradamente, na minha opinião, como de muitos outros especialistas – servir de piso para as concessões deste ano. Observem o que aconteceu recentemente numa das montadoras no Paraná. Mais de 3 mil empregados cruzaram os braços pleiteando o pagamento de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de 12 mil reais por funcionário, enquanto a empresa oferece uma antecipação de 4,6 mil reais por funcionário. Não é nosso objetivo aqui analisar o pedido ou a concessão, mas apenas ilustrar nosso comentário. As concessões de cada categoria acabam influenciando as demais, para o bem e para o mal.

    Tenho observado, na imprensa, várias análises sobre esse tema. Alguns, os mais ortodoxos – ao meu ver -, entendem que os reajustes deste ano serão menores do que no ano passado. Outros, nos quais eu me incluo, de que serão maiores, no mínimo da mesma grandeza. Mas uma coisa eu garanto: este ano as negociações serão muito, mas muito, mais difíceis.

    Apesar de a Justiça do Trabalho ser um caminho, espero que o bom-senso prevaleça de ambas as partes e que a mesa de negociação e o diálogo sejam os mecanismos escolhidos e exaustivamente trabalhados, antes de lançarem os trabalhadores a uma onda de greves que em nada contribuem para o país, para as empresas e nem tampouco para os próprios trabalhadores.

    * Fernando Tadeu Perez é especialista em gestão de pessoas e negociações sindicais. É titular da FPerez Performance Pelas Pessoas

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