Eles podem estar na mesa ao lado

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Charles Manson, o Maníaco do Parque, Hannibal Lecter (dos livros do escritor Thomas Harris e filmes como O Silêncio dos Inocentes e Dragão Vermelho) ou o policial Dexter Morgan (da série de TV Dexter) certamente estão entre os primeiros nomes que vêm à mente da população em geral quando se fala em psicopatas. São exemplos extremos, justamente pela carga de violência que os tornou famosos na ficção ou no mundo real. Entretanto, o comportamento violento é apenas uma – e das mais raras – característica em indivíduos portadores de transtornos de personalidade antissocial. É alarmante afirmar que os psicopatas estão por todos os lados e apresentam perigo, como amostram alguns autores best-sellers. Por outro lado, é bastante provável que haja portadores de alguma sociopatia, com características mais brandas ou mais severas, no circulo social e de trabalho de todos nós.

A Associação Psiquiátrica Americana aponta que 3% dos homens e 1% das mulheres apresentam distúrbios psicológicos, transtornos de personalidade, grande dificuldade em se adaptar e enquadrar nas regras sociais – uma definição simples que consegue agrupar as diversas manifestações de psicopatia, como formas de relacionamento não usual em relação a outras pessoas, alterações na maneira de pensar e agir, ausência de sentimentos genuínos, falta de culpa ou remorso, frieza, insensibilidade em relação a sentimentos ou problemas alheios, manipulação e desvios de caráter. 

O escritor e Ph.D. em psicologia John Clarke, autor do livro Trabalhando com Monstros – como identificar psicopatas no seu trabalho e como se proteger deles (Editora Fundamento), chama de psicopatas corporativos os portadores de transtornos antissociais que fazem qualquer coisa para subir na carreira: intimidam e ridicularizam os companheiros de trabalho, são impulsivos e superficiais, abusam de seu charme e lábia na tentativa de impressionar chefes e clientes, empurram seus afazeres para os outros e ainda jogam a culpa neles se alguma coisa sai errado. 

O psicoterapeuta australiano afirma que a proporção de portadores de sociopatias em empresas é grande, justamente porque são ambientes nos quais eles podem atacar psicologicamente as pessoas e ainda serem recompensados financeiramente. “Eles veem o ambiente de trabalho como uma oportunidade para mentir e agredir em troca de um salário. Eles satisfazem sua necessidade de poder e controle sobre outras pessoas, manipulam colegas e a estrutura organizacional a seu favor. Como, normalmente, são vistos como colaboradores valiosos, eles são promovidos e recebem recompensas financeiras por seu comportamento, e isso pode continuar até alcançarem tal posição de poder a ponto de serem incontroláveis”, diz. 

Para o psiquiatra Duílio Antero de Camargo, coordenador da comissão técnica de saúde mental da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), portadores de psicopatias consideradas mais brandas podem passar despercebidos aos olhos da sociedade. Naturalmente, eles optam por trabalhos mais individualizados, sem muita necessidade de interação ou interferência de outras pessoas. 
“Por outro lado, indivíduos com características de egocêntricos, megalômanos, mentirosos, dissimulados, calculistas, que transgridem as regras sociais, esses são os que causam problemas sérios no ambiente de trabalho. É a pessoa que articula para se tornar a mais importante, sem se preocupar se vai passar por cima ou fazer mal a alguém. Ela busca satisfação pessoal, então encontra os pontos fracos, faz armadilhas e mentiras extremamente sofisticadas para pegar os colegas. E isso pode ser encontrado em todos os níveis de hierarquia”, explica.

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Eu, eu, eu
O publicitário Ronaldo* acredita ter passado pelas manipulações de um psicopata, há cerca de dois anos, na agência onde trabalha. O causador dos problemas foi contratado como diretor de criação e, até então, era um mero desconhecido no mercado. “Ninguém sabia de onde ele vinha, mas impressionou todo mundo nas entrevistas, tinha feito estágio na Europa, um portfólio recheado. Na hora, os chefes acharam que tinham descoberto uma preciosidade em forma de profissional”, brinca.

Sobrevoar o trabalho
O novo diretor de criação assumiu quatro ou cinco contas grandes de uma vez. Nas reuniões, segundo Ronaldo, ele era muito articulado, envolvia os colaboradores e clientes, falava em italiano e inglês, era um showman. “Mas na hora de trabalhar, vinha com um discurso motivacional furado e deixava todas as decisões para as equipes, não se envolvia com quase nada. Dizíamos que ele sobrevoava o trabalho”, lembra. “Porém, na hora de apresentar os projetos para os clientes, ele fazia questão de estar presente e usava a lábia que tinha para falar bonito, sem querer dizer nada. E nunca falava ´nós´, era sempre ´eu´. ´Eu criei, eu imaginei, eu quis dizer´.”

Quando recebia críticas ou a reprovação de projetos, o diretor nunca se exaltava com os colaboradores. “Começamos a perceber que ele manipulava a história para que a bronca viesse dos diretores da agência, já que ele sempre se esquivava. Ele retorcia os fatos para deixar toda a culpa nas equipes”, recorda-se o publicitário. Ronaldo conta que a situação perdurou por quase um ano, até o diretor de criação ver-se envolvido em uma mentira com os dois diretores da agência. “Ele tentou colocar um contra o outro e não conseguiu, pois eles são sócios há anos. Em uma semana, enquanto esperávamos que ele fosse demitido, ele deixou todas as contas e foi contratado por outra agência. Uma amiga que trabalhou com ele disse que foi a mesma história por lá”, revela.

* Nome fictício a pedido do entrevistado

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Assédio moral
O psiquiatra Duílio de Camargo destaca que não existem pesquisas e números sobre a atuação de “psicopatas corporativos” em razão da dificuldade de diagnóstico. “Na maior parte das vezes, essas pessoas ficam um tempo muito curto na empresa, mal dá tempo de levantar dados. Faltam pesquisas sobre o tema, pois é preciso aplicar uma série de metodologias científicas para ter dados reais”, diz. Para o médico, que integra o Grupo de Saúde Mental e Psiquiatria do Trabalho do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), ações e comportamentos mais graves de portadores de transtornos de personalidade antissocial nas empresas devem ser avaliados com cuidado pelas áreas de recursos humanos, pois encontram resposta trabalhista e jurídica. “É assédio moral, porque é caracterizado, em geral, por uma conduta que atenta contra a dignidade do trabalhador, por ser abusiva e atingir a parte psicológica de forma repetida e prolongada, expor a situações humilhantes e constrangedoras, com ofensa à sua dignidade e integridade física”, explica. O colaborador pode ser punido e a empresa poderá responder ao caso nas esferas trabalhistas, cível e até criminal.

Camargo frisa que é possível identificar alguns traços de personalidades com transtornos em sistemas mais sofisticados de entrevistas de emprego, com histórico de vida e antecedentes de trabalho, mesmo que os candidatos consigam forjar currículos e sair-se bem em entrevistas. “Às vezes, são pessoas capacitadas e importantes para a empresa. Mas também podem ser causadoras de problemas, que ficam no emprego por poucos meses, criam o maior tumulto sem se importar com aquilo, pois sabem que logo conseguem outro trabalho”, avalia.

O papel do líder
Segundo Cícero Penha, vice-presidente corporativo de Talentos Humanos do Grupo Algar, existe na companhia um trabalho preventivo para questões de saúde mental, com palestras e ações sobre estresse, questões de relacionamentos pessoais e profissionais e qualidade de vida. “Também temos uma preparação de lideranças, que é parte da nossa política de Talentos Humanos, que visa cuidar bem das pessoas que trabalham no grupo. Líderes mal preparados, em vez de acolher de forma receptiva e educar seus colaboradores, vão ameaçar e mandar, o que potencializa os problemas e leva mais gente a adoecer. O medo adoece as pessoas. Trabalhamos a liderança pela responsabilidade, e não pelo poder, uma diferença sutil que se torna enorme na prática”, afirma Penha.

Cuidar do clima
Camargo destaca que é intrínseca a relação entre a qualidade do clima organizacional de uma empresa e o surgimento de problemas com pessoas portadoras de transtornos de personalidade antissocial. Em sua opinião, companhias com uma cultura mais agressiva atrairão profissionais que se enquadrem nessa postura, o que pode levar novamente ao assédio moral. “É fundamental que o RH saiba trabalhar essas e outras situações que podem gerar problemas e implicações econômicas. Seria muito importante ter programas de saúde mental com estrutura para avaliações de áreas que apresentam problemas, fazer diagnóstico por meio de entrevistas individuais, para depois intervir e aplicar um programa de prevenção, com campanhas educativas. Tudo isso visa melhorar o clima organizacional, não elevar o custo do Seguro Acidente de Trabalho e evitar ações na Justiça”, defende Camargo.



Tipos de psicopatia
Baseado na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10), o psiquiatra Duílio Antero de Camargo elencou oito tipos de transtornos mentais de comportamento, também chamados de psicopatias ou sociopatias. Eles estão divididos em dois grupos, sendo o primeiro com os transtornos considerados mais graves.



Maior dificuldade de convivência social

Paranoide
Pessoa muito desconfiada, que distorce os fatos contra si, possui sentimentos de perseguição e infidelidade, dificuldade em participar de grupos sociais por medo de ser prejudicada.

Esquizoide
Retraimento social e afetivo muito grande, dificuldade de experimentar prazer em atividades e sentimentos, normalmente desenvolve atividades mais solitárias. Casos mais graves são de esquizofrenia.

Antissocial
Tem desprezo pelas normais sociais e padrões morais, tem baixa tolerância às frustrações, é impulsivo, o famoso “pavio curto”; em casos extremos, pode ser violento.

Emocionalmente instável
Pessoa impulsiva, com tendência a estado de cólera permanente, agressividade intensa e alterações de humor muito rápidas.



Menor dificuldade

Histriônica
Assemelha-se ao que se chamava de histérico: pessoa dramatiza suas ações, tem a teatralidade em tudo que faz, é egocêntrica, tem desejo permanente de ser apreciada e é sedutora.

Anancástica
Pessoa obsessiva com pormenores, prudente em excesso, excessivamente rígida quanto a questões morais e éticas; verifica seu trabalho e atividades e costuma refazer as coisas.

Ansiosa
Tem sentimento de tensão, insegurança e inferioridade muito grande, vê com exagero os perigos que possa correr e costuma evitar situações que saiam da rotina.

Dependente
Pessoa muito indecisa, com medo de ser abandonada, percebe-se como fraca e incompetente, muito submissa à vontade dos outros, tem tendência a transferir responsabilidade aos outros.

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