Ensinando o que interessa

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As universidades corporativas surgiram com força entre as décadas de 70 e 80, em especial nos EUA, onde já são, hoje em dia, mais de 3 mil escolas dessa natureza. Empresas como Sears, Motorola, McDonald´s e IBM são exemplos de organizações que adotam essa prática há muito tempo. No Brasil, elas chegaram no final dos anos 90. O Grupo Algar foi um dos pioneiros, inaugurando a sua escola corporativa em 1998. Atualmente, já encontramos algumas dezenas esparramadas pelo país, principalmente, na região Sudeste.

Mas o que é, de fato, uma universidade corporativa (UC) e o que ela faz? A resposta mais simples é: trata-se de uma escola empresarial, voltada para ensinar aos seus trabalhadores aquilo que interessa no mundo dos negócios. Pelo universo de assuntos, especialidades e necessidades de aprendizagem no ambiente de trabalho, as organizações que constituem essas escolas adotam o substantivo “universidade” para dar um sentido de amplitude e diversidade em sua atuação, e o adjetivo “corporativa” para definir a sua qualidade e o seu foco de atuação, que é o ambiente empresarial.

O surgimento dessas escolas empresariais ocorreu por uma razão também muito simples: qualificar os trabalhadores, complementando o ensino formal de acordo com as necessidades de qualificação que as práticas de mercado demandam. A escola de graduação, por mais que se esforce, não consegue preparar os alunos com a diversidade de conhecimentos que a complexidade dos negócios exige. Muitas vezes, as escolas estão ensinando o que, para as empresas, ou é ultrapassado ou não tem nada a ver com as práticas da cadeia produtiva. É comum chegarem às empresas profissionais graduados que não sabem sequer fazer uma apresentação. Ignoram as mais simples práticas de negociação, não sabem se posicionar perante um cliente ou não têm a mínima capacidade de planejamento. Um estudante, às vezes, passa quatro ou cinco anos fazendo uma graduação e sequer participa de um debate para entender o significado da palavra “cliente”.

A falta de entendimento sobre o que verdadeiramente o cliente significa para o negócio em que ele atua, e até mesmo para sua carreira, é que leva o profissional a contribuir para a má qualidade dos serviços e o atraso em seu próprio crescimento profissional. Temos uma realidade em que milhares de jovens formados chegam ao mercado de trabalho necessitando começar sua aprendizagem laborativa quase do zero. Nesse caso, a empresa, por meio de sua universidade corporativa, atua, preparando-os dentro das exigências dos cargos e das estratégicas de seu negócio. 

As UCs vão muito além do previsível departamento de treinamento que, em muitas organizações, se resume a adotar um cardápio de cursos e oferecê-lo aos trabalhadores da empresa para que façam suas escolhas. Elas adotam o conceito de educação continuada, que significa a preparação contínua de todos os colaboradores do quadro da sua companhia. Torná-los eternos estudantes, eternos aprendizes em suas carreiras dentro de uma visão que vai além do curto prazo. Para isso, praticam um processo constante de observação e levantamento de necessidades junto a todos os trabalhadores da organização. Esse processo inicia-se com a análise das competências exigidas para cada cargo, seguida das apreciações contidas nas avaliações de performance e no potencial de carreira de cada talento. Tudo isso alinhado com as estratégias de negócios atuais e futuras de onde se extraem as necessidades de formação.

Uma boa universidade corporativa tem em seu portfólio de conteúdo fundamental a missão de desenvolver boas atitudes nos profissionais e, para isso, começa ensinando os valores e os princípios da empresa a seus alunos. É uma forma de desenvolver a cultura empresarial e ter as pessoas falando a mesma língua. No seu processo educacional, não pode faltar o preparo contínuo das lideranças – isso em função de que muita gente boa no mundo corporativo alcança funções gerenciais muito mais pelas competências técnicas do que pelas habilidades em lidar com gente. Treinar, também, habilidades técnicas e operacionais conforme demanda com o cuidado de adicionar os fatores atitudinais que farão a diferença em suas carreiras.

Empresas com visão de valor na formação de seu público interno investem em torno de 4% a 5% do montante do salário-base de sua folha de pagamento na preparação de sua força de trabalho. Dependendo do quadro de pessoal, há companhias no Brasil investindo cifras que chegam a mais de 10 milhões de reais por ano. Mas uma universidade corporativa pode ser montada a partir de um investimento de 1 milhão de reais ao ano.

Atualmente, essas instituições de ensino estão indo além do treinamento de seus trabalhadores. Estão atuando também na cadeia produtiva dos negócios de suas empresas, estão ensinando seus terceirizados, fornecedores e clientes. É comum encontrar empregados de empresas parceiras recebendo aprendizagem da universidade corporativa de seu contratante. É o zelo pela qualidade da prestação de serviços de toda a cadeia de valor de uma empresa. Ao executarem bem seu trabalho, as UCs contribuem para a formação de uma força de trabalho mais competente, um atendimento mais humanizado nas organizações, uma sociedade mais culta e um país mais desenvolvido.

*Cicero Domingos Penha é vice-presidente corporativo de Talentos Humanos do Grupo Algar e presidente da Algar – Universidade de Negócios (Unialgar)

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