Gestão

Entender as partes

Dum De Lucca
22 de outubro de 2010

O atual CEO mundial da Ford, Alan Mulally, é um bom exemplo de liderança empresarial conectada com os desafios da gestão sindical daqui para a frente. A opinião é do diretor-presidente da Garcez Recursos Humanos, Edmir Garcez. Ex-negociador sindical da montadora, aqui no Brasil, entre 1974 e 1985 – além de ter exercido o cargo de gerente de RH da empresa entre 1960 e 1985 -, Garcez credita ao fato de Mulally ser um especialista em relações de trabalho e de conhecer como funciona o trato com os sindicatos e as negociações a nomeação do executivo como o principal líder da Ford em todo o mundo. “A palavra-chave da gestão e do sistema sindical no século 21 é negociação”, diz Garcez, que vai participar da 5ª edição do congresso sobre gestão de pessoas promovido pela ABRH-BA (veja quadro ao final desta entrevista) . “É necessário que um profissional desse nível entenda esse universo para poder estabelecer as relações adequadas”, afirma o consultor para justificar um movimento que está em curso nas emrpesas, que é a preparação de seus executivos. “Não dos gestores de RH, apenas, mas da hierarquia, sobre a necessidade de conhecer toda a cadeia de processos.”

MELHOR   Como gerir um sindicato em um país com forte engajamento político nas entidades de classe?
Edmir Garcez – Ao pensarmos os sindicatos, tanto empresariais quanto de trabalhadores, e a estrutura sindical brasileira, lembrando a origem dessas entidades a partir da revolução industrial, passando pela realidade do Brasil da década de 1930, quando o então presidente Getúlio Vargas criou as leis trabalhistas, até os dias atuais, podemos perceber que essa estrutura que está em vigor até hoje tem sido objeto de projetos de lei de todos os governos para modernizá-la, mas até agora ninguém conseguiu. O presidente Lula não modernizou essas estruturas, até para eliminar vícios, desde corrupção até práticas de negociação entre capital e trabalho, da forma como é feito no chamado mundo desenvolvido há muitos anos. O atual governo deu alguns passos, mas não entrou na essência. Legalizou as centrais sindicais que viviam paralelamente, tinham estatutos próprios, porém não pertenciam à organização sindical oficial. Só em 2008 as centrais sindicais foram reconhecidas e tiveram direito às contribuições sindicais. Esse engajamento político nos sindicatos vem de Getúlio, com o sindicalismo pelego, que existe para o benefício das empresas e do governo. Esse sistema apodreceu, durante anos, os sindicatos sob o ponto de vista ético, transformando-os em um negócio. A partir da greve de 1978 da indústria automobilística do ABC paulista, e do surgimento da CUT em 1983, começou um sindicalismo de interesses dos direitos dos trabalhadores. Aí outros sindicatos surgiram. Hoje, existem mais de 20 mil sindicatos no país, porém apenas cerca de uma dezena deles estão preparados para lutar pelos direitos dos trabalhadores, os outros sugam os trabalhadores. Esse novo sindicalismo fez com que as empresas substituíssem os departamentos pessoais por recursos humanos, isso porque os sindicatos vinham se organizando fortemente.

Em que medida interesses partidários políticos podem prejudicar negociações?
Prejudicam bastante. Isso depende do nível de politização dos trabalhadores. Quanto mais informados eles forem, menos manipulados serão pelas direções sindicais. Os metalúrgicos do ABC são um exemplo de bons sindicatos, ao contrário dos sindicatos de transportes públicos, que não primam por boas lideranças.

O que vai definir a gestão sindical no século 21?
O que está em marcha é a preparação dos profissionais das empresas. Não dos gestores de RH, apenas, mas da hierarquia, sobre a necessidade de conhecer toda a cadeia de processos. A Ford contratou um CEO, Alan Mulally (ex- Boeing), em 2006, que foi escolhido pelo fato de ser um especialista em relações de trabalho, de conhecer como funciona o trato com os sindicatos e as negociações. É necessário que um profissional desse nível entenda esse universo para poder estabelecer as relações adequadas. No sistema capitalista democrático, os sindicatos são um dos baluartes, o que não exclui regimes como o de Cuba, por exemplo, que também tem sindicatos – só que, nesse tipo de regime, eles servem aos governos, e os sindicatos existem para servir aos trabalhadores. Então a palavra-chave da gestãoe do sistema no século 21 é negociação.

Qual a dificuldade de construir essa mentalidade nos gestores brasileiros?
A dificuldade passa sempre pelo preparo, pelo nível de conhecimento dos executivos para essa realidade. Essa preparação, mesmo nos países desenvolvidos, às vezes sai dos eixos, porque nem todos estão prontos. No ano passado, na França, foram “sequestrados” por sindicalistas alguns executivos de empresas como a Sony e a Caterpillar (ver boxe Reter “na marra”). Se isso acontecesse no Brasil, onde estamos em processo de desenvolvimento, a opinião pública ficaria abismada. Ocorreu na França porque as pessoas não estavam preparadas para trabalhar nesse universo de conflito. Essa mudança de mentalidade só vai funcionar se a cabeça maior da organização caminhar nessa direção; não adianta um RH moderno e estratégico se o CEO impede que ele atue. Por outro lado, mesmo com um líder negociador, se não existir um RH competente, ele terá de buscar essa competência. Ao contratar Mulally, a Ford não mergulhou nos problemas que a GM enfrentou. Empresas extremamente conservadoras se destruirão se não mudarem a mentalidade de negociação de seus gestores.   

#Q#

Qual o papel e a influência das regulamentações e leis trabalhistas na gestão dos sindicatos?
Há uma influência significativa, mas não tão grande no campo da legislação trabalhista como os advogados trabalhistas imaginam. Isso porque em outros países sequer existe justiça do trabalho, como nos EUA e Japão. Os problemas são resolvidos pela negociação do dia a dia, no chão de fábrica, pela relação chefes e subordinados – o primeiro nível de hierarquia com a sua equipe de operadores, mecânicos, seja lá qual o business, tudo é resolvido no setor. Quando a gestão está preparada para isso, sobra muito pouco para o sindicato fazer, inclusive os sindicatos são alocados nas empresas. No Brasil, se você diz uma coisa dessas, muita gente vai arrancar os cabelos. Quem vai admitir sindicatos nas empresas? Eles não são inimigos das corporações e essa visão distorcida precisa mudar. Se as pessoas abrirem os olhos, irão perceber que, na maioria das vezes, os interesses dos trabalhadores e das empresas são os mesmos. E, se forem diferentes, precisam ser solucionados pela negociação e não pelos tribunais. Um exemplo recente, aqui no Brasil, foi o da Embraer, quando o capital atropelou os colaboradores sem dó na crise de 2008.

O senhor acredita que as reformas trabalhistas sairão no próximo governo?
Torço muito por isso, para que haja uma modificação na estrutura sindical e trabalhista. Acredito em algumas ações, mas não muito profundas. Nunca vi dois candidatos tão bem preparados como nessa eleição, acho que ambos têm competência instalada a despeito das alianças realizadas.

Há um forte processo de terceirização em curso, mas em muitos casos, ele não segue os preceitos legais. Como o senhor analisa esse fato?
Terceirização é uma ferramenta utilizada em um momento de dificuldade de emprego, de economia no buraco, é uma solução de países não muito desenvolvidos. Ela foi criada com todos os seus abusos, especialmente burlando os direitos trabalhistas. A ação da Vivo [veja mais na edição de agosto de MELHOR] ao acabar com a terceirização nas lojas foi uma atitude humana e inteligente que demonstra o correto, a nova tendência. Em vez de pagar ao terceirizador, pague a seus funcionários. No Brasil, utilizamos isso por um período como uma forma de gerar subemprego. Na medida em que estamos crescendo, vamos atropelar a terceirização criada em um passado muito triste. Nessa área, a legislação trabalhista é muito fraca, não protege em quase nada o funcionário. Mas, existem atividades que, eventualmente, podem ser terceirizadas, como segurança e limpeza, por exemplo.

Dimensões da gestão

Diretor-presidente da Garcez Recursos Humanos, também presidente fundador do Instituto Nacional de Mediação e Arbitragem (Inama/Br), ex- negociador sindical da Ford entre 1974 e 1985, ex-gerente de RH da mesma montadora de 1960 a 1985 e autor de Negociando com negociadores – O negociador trabalhista , Edimir Garcez é um dos palestrantes do V Congresso de Gestão de Pessoas – AquaRHela para InovaRH e HumanizaRH, promovido pela ABRH-BA nos dias 4 e 5 de novembro, no Bahia Othon Palace Hotel, em Salvador, e cujo tema central é As diferentes dimensões da gestão de pessoas . Garcez fará a palestra Gestão Sindical no século 21 – a humanização além da negociação.

 

Reter “na marra”

Notícia publicada no World Socialist Web Site, em abril do ano passado, informava que trabalhadores em greve das duas plantas da Caterpillar em Grenoble, na França, detiveram cinco de seus diretores em seus escritórios no último dia de março. Os executivos ficaram impossibilitados de deixar a empresa desde a manhã daquele dia até a 1h da manhã do dia seguinte.

A atitude dos trabalhadores franceses de tornar reféns os cinco diretores foi justificada como uma maneira de forçar a companhia a negociar o plano envolvendo 733 demissões dentre os 2.800 trabalhadores nas unidades de Grenoble e Echirolles.

A mesma notícia também informava que, em fevereiro de 2008, trabalhadores da BRS em Devecey mantiveram seu chefe refém porque ele tentou enviar todas as máquinas de sua fábrica para a Eslováquia sem informá-los. No mês seguinte, trabalhadores da fábrica Kléber em Toul detiveram dois diretores a fim de obter melhores termos para a demissão. “Em março deste ano, o presidente da Sony na França foi forçosamente detido em sua planta em Pontons-sur-Adour. Duas semanas depois, foi a vez do diretor industrial da fábrica da 3M em Pithiviers, próximo a Orléans. Ambas as ações foram tentativas de obter concessões dos diretores sobre os termos de demissão. Depois disso, François-Henri Pinault, o chefe executivo bilionário do luxuoso grupo varejista PPR, teve de ser resgatado pela polícia, após os trabalhadores da loja bloquearam seu táxi por mais de uma hora, assim que ele saiu de uma reunião”, diz o texto.

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