Entre a mais-valia e o que mais vale

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    Recentemente, uma notícia divulgada pela BBC chamou minha atenção. Dizia a matéria que a empresa aérea British Airways (BA) pediu aos seus funcionários que trabalhassem de graça por até um mês. O apelo era uma forma que a companhia encontrara para não morrer e fora enviado por e-mail para os mais de 30 mil trabalhadores da organização no Reino Unido, além de ter sido publicado no jornal interno da BA.

    De repente, lembrei-me das aulas de Organização Social e Política Brasileira (a famosa sigla OSPB) a que assisti em meus tempos áureos de ginásio… Embora estivéssemos saindo de um regime de exceção (leia-se ditadura), ainda imperava um certo medo por parte de alguns professores em falar sobre temas que evocassem coisas da esquerda. Mas eis que, de repente, um professor maluco, com calça cor de laranja e camisa verde-limão (características da moda new wave da época), aparece em sala de aula e tasca a explicar algumas das noções básicas do marxismo, entre elas a de mais-valia – bem na aula de OSPB, símbolo do antigo regime.

    Para um bando de pré-adolescentes, falar que mais-valia era a diferença entre o valor adicionado pelos trabalhadores aos produtos e serviços oferecidos ao mercado e o salário que recebiam não significava que teríamos pleno entendimento do conceito. Assim, nosso professor resolveu resumir bem a coisa, explicando que mais-valia era o trabalho não pago ao trabalhador. Somente dessa forma foi possível entender o que ele queria dizer. E foi essa explicação que me veio à cabeça ao ler a notícia da BBC.

    Em todo o mundo, empresas estão buscando alternativas para sobreviverem em meio ao atual cenário econômico e financeiro. Suspensão de contratos de trabalho, férias coletivas… Em alguns casos, executivos estão abrindo mão de seus elevados salários para mostrar que estão vestindo a camisa e dando o sangue como os demais colaboradores. Ouvir que um profissional como esses optou por receber apenas um dólar de salário é comum nos EUA. Na AIG, por exemplo, Edward Liddy, presidente e executivo-chefe da seguradora, entrou na onda e vai receber como salário, até 2009, um dólar. Mas poderá levar um bônus especial em 2010, caso a empresa apresente um desempenho incrivelmente excelente. Um amigo, ao saber disso, comentou que era preciso dar crédito à seguradora, já que de bônus ela entendia bem. Que maldade!

    A British Airways parece ter sido mais radical em relação a essas e tantas outras empresas ao chamar todos para o sacrifício. Você aceitaria uma proposta como essa? “Não quero ser contratado por alguém que me aceite como funcionário e, ainda por cima, pague um salário para mim”, respondeu o mesmo amigo, adaptando outro conceito marxista. Ou melhor, um conceito groucho-marxista.

    Se eu reencontrasse, hoje, meu agora velho professor, que talvez já não use mais aquelas roupas de cores estrambólicas, e lhe perguntasse se o que a empresa britânica está fazendo é deixar clara a tal da mais-valia – uma vez que se trata de trabalho não pago -, ele talvez respondesse que pode não ser isso, mas é o que mais vale, atualmente, para manter uma organização respirando. Mas ainda me perguntaria: “Mas vale também para os colaboradores?”

    Gumae Carvalho é editor da revista Melhor Gestão de Pessoas

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    Gumae Carvalho é editor de MELHOR – Gestão de Pessoas, revista oficial da ABRH. Antes, também trabalhou nas revistas Educação e Ensino Superior. Foi professor na Faculdade Cásper Líbero (onde se formou em 1993), assessor de imprensa, consultor editorial e um dos criadores do fanzine (e depois revista) Panacea.
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