Entre o dragão e o “jeitinho”

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Entre o Dragão e o 'jeitinho' / Crédito: Shutterstock
Crédito: Shutterstock

China já é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2012. Aliás, em 2010, ela passou a ser o primeiro ou segundo parceiro comercial de 78 países. De acordo com estimativas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, em 2019, o PIB chinês vai atingir 22,4 trilhões de dólares e vai superar o americano. Se a previsão for confirmada, em um futuro próximo, a China vai superar os EUA como a maior economia do mundo. O Brasil alcançou o patamar de 2,4 trilhões de dólares e se aproxima do 6º lugar. Ambos estão entre as maiores economias emergentes e têm estabelecido crescentes relações bilaterais. Promissoras, certamente, mas também repletas de desafios.

A interação entre executivos desses países tem sido crescente, registrando nos últimos anos um expressivo crescimento de 47%, de visitantes da China ao Brasil, de acordo com o Ministério do Turismo. Temos apoiado o desenvolvimento de negócio sino-brasileiro e verificamos uma grande dificuldade que, frequentemente, cria importantes obstáculos: a diferença cultural.

Sabemos que Brasil e China têm culturas bastante diferentes, uma moldada em 5.000 anos de civilização e a outra, quase uma adolescente, com apenas 500 anos. Em alguns casos, como veremos, são perspectivas opostas e não se pode apontar nenhuma das duas como a melhor. Não se trata tampouco de modificar completamente a própria visão de mundo, mas sim de saber trabalhar adequadamente como seu interlocutor. Desenvolver de fato uma boa competência intercultural passa mais por conhecer os valores, o jeito de pensar e se comportar, que permite atuar em diversas situações com flexibilidade e tolerância. Conhecendo a essência do pensamento, não há necessidade de memorizar um manual de hábitos e rituais dos países em questão.

Como construir diálogos e relações consistentes que se sustentem no longo prazo entre países tão distantes geográfica e culturalmente? Como compreender e lidar com tantas diferenças efetivamente? Essas são algumas questões que precisam ser investigadas para que se estabeleçam relações duradouras.

Cultura nacional
Muitas análises têm sido realizadas com base em dados estatísticos, relatos de casos e comparações de características sociais, geográficas e políticas de ambos os países. Essa diversidade de informações contribui para a montagem do complexo quebra-cabeça que é a relação intercultural entre China e Brasil. Podemos acrescentar mais uma “peça” com o auxílio dos estudos culturais desenvolvidos por Geert Hofstede, referência global em interculturalidade. Seu modelo de cultura nacional é composto por seis dimensões e ajuda a compreender diferenças e similaridades entre os países. A partir de um entendimento mais profundo da mentalidade e do comportamento, é possível também melhorar a relação comercial.

A primeira dimensão trata da Hierarquia e Concentração de Poder (PDI, Power Distance Index). Quanto mais alto esse índice, mais as decisões são centralizadas, as pirâmides das organizações são altas e mais se atribui a gestores privilégios e símbolos de poder. Tanto o Brasil quanto a China apresentam índices elevados, mas o da China é ainda maior do que o nosso. Isso significa que em ambos os países os líderes não costumam ser questionados e esperam que seus subordinados simplesmente acatem suas decisões. Um exemplo do que se diz no jargão popular “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Na China, isso é ainda mais intenso e verdadeiro. Com uma hierarquia forte, as decisões lá são, no geral, muito mais rápidas do que as nossas, pois não há necessidade de consulta “às bases”. Dessa forma, a execução da estratégia se torna ágil. Por outro lado, ao privilegiarmos uma gestão relativamente mais participativa, somos considerados lentos. Sob a ótica chinesa, nosso comportamento é visto como perda de tempo desnecessária em que as pessoas falam demais e se explicam muito. Já os brasileiros percebem os chineses como tendo uma relação hierárquica rígida, que deixa o sistema de gestão desprovido da proteção do livre debate e da crítica, que são capazes de detectar falhas e propor melhorias com riqueza e dinamismo.

É uma questão de ponto de vista. Para os chineses, somos lentos na tomada de decisão e na execução. Já os brasileiros tendem a perceber os chineses como autoritários.

#Q#

Individualismo versus coletivismo 
A segunda dimensão do modelo Hofstede é o Individualismo (IDV), que avalia a relação entre individualismo e coletivismo. O índice da China é 20, enquanto o brasileiro chega a 38 e, apenas como referência, o dos EUA é 91 – país com mais alto índice de individualismo do mundo, segundo a pesquisa Hofstede.

Um baixo IDV indica tendência ao coletivismo, ou seja, os chineses privilegiam o bem-estar do grupo, da família e do social em geral. Sociedades coletivistas desenvolvem uma linguagem única de entendimento dentro de seus grupos, eles mantém entre si uma comunicação sutil com expressões próprias. Não é à toa que a China possui mais de cem dialetos, sendo o mandarim o idioma oficial do país.

Nas relações coletivistas, as pessoas pertencem a grupos que “cuidam” delas em troca de lealdade. O mau desempenho de um funcionário não é motivo para demissão e sim para troca de função. Daí, por exemplo, a dificuldade e relutância em se fazer uma avaliação direta de desempenho. Essa prática é encarada como ameaça à harmonia e não como um fator de melhora da produtividade.

É interessante observar que a rede de relacionamentos é extremamente valorizada, baseada na confiança que eles nutrem entre si, chamada de guanxi, que vai muito além do networking. São esses laços sólidos que permitem aos chineses trabalhar bem em grupo e estabelecer o que para nós parece um longo ritual na hora de realizar negociações. Mas para a cultura chinesa é uma forma de criar uma relação consistente que desperte um compromisso pessoal na esfera profissional. Muitos chineses só fazem negócio com quem conhecem muito bem. Outra consequência desse traço cultural é que sociedades coletivistas como a chinesa consideram normal e desejável a contratação de funcionários baseada na confiança entre as pessoas e não no desempenho. Em outras palavras, contratar amigos e parentes é natural, em vez da seleção por competência.

Mitigar riscos
A terceira dimensão trata de Desempenho em seu aspecto mais amplo. Denominado originalmente de Masculinidade versus Feminilidade (MAS), esse índice mede o grau em que uma nação valoriza o comportamento típico e historicamente associado ao homem: desempenho e competição, por exemplo. A China atinge 66 pontos enquanto o Brasil é um pouco mais “feminino” com 49. A realização e o sucesso, por exemplo, são valores determinantes na sociedade chinesa, enquanto os brasileiros preferem cuidar dos que se esforçam, mas não têm resultado. No ambiente de trabalho chinês, são valorizadas atitudes como objetividade, competição, admiração pelo realizador e foco em desempenho. Já a cultura brasileira é focada no cuidado com as pessoas e qualidade de vida. Não é à toa que a média de horas trabalhadas no Brasil é inferior a 40 horas semanais, segundo o IBGE, enquanto na China, em algumas cidades, chega a 48 horas.

A quarta Dimensão, UAI (Uncertainty Avoidance Index) indica o quanto indivíduos de uma sociedade evitam a sensação de incerteza e buscam mitigar riscos. A China, com 30 pontos, pode ser considerada risk taker, já o Brasil, com 76, é quase o oposto. Na prática, a alta pontuação aponta uma grande necessidade de segurança, regras e estrutura. No Brasil, em consequência, criam-se muitas leis para lidar com a insegurança. O que para nós é percebido como um risco, muitas vezes para eles é interpretado como oportunidade.

Pragmatismo 
Outro índice que vale a pena observar é o Pragmatismo (PRA), que mede o grau em que uma sociedade tem um comportamento mais pragmático ou normativo. Os chineses têm um dos índices mais elevados do mundo e são considerados muito pragmáticos. Eles preferem ser flexíveis com a vida e com os negócios e são altamente adaptáveis às circunstâncias, ou seja, são eles e não nós os campeões do “jeitinho”, já que o foco é muito mais no resultado do que no processo. Não é a toa que os políticos que dominam a China atualmente são denominados de “pragmáticos” e lançaram o mote ‘‘não importa a cor do gato, o importante é que ele mate o rato’’, ou seja, ‘‘capitalismo na economia, Partido Comunista no poder’’.

Essas diferenças de comportamento podem dificultar a negociação entre os dois países tanto na relação entre líderes e funcionários quanto entre membros de uma equipe formada por chineses e brasileiros. Não basta apenas a boa vontade e a intenção de aproximação entre os dois países. É preciso conhecer as peculiaridades de cada um e trabalhar essas questões tanto de forma individual quanto em grupo.
Do ponto de vista das ferramentas interculturais, conhecer o modelo de Hofstede é de grande contribuição. Um aprofundamento nesse estudo por meio de testes de competências interculturais desenvolvidos pelo pesquisador pode ser um diferencial no mercado de trabalho que busca cada vez mais profissionais bem preparados para lidar com equipes multiculturais. Mas de forma alguma o modelo é uma estrutura fechada e definitiva. Pelo contrário, funciona como ponto de partida para fomentar e auxiliar a discussão sobre o tema.

Cabe ao Brasil promover uma maior integração com a cultura chinesa, que construa laços sólidos e sustentáveis em longo prazo, indo muito além de estereótipos limitadores. É um trabalho de desenvolvimento de competência intercultural a ser realizado tanto do ponto de vista individual dos profissionais quanto macro e corporativo. Uma parceria bem-sucedida certamente inclui ganhos em diversas esferas que vão além do aspecto unicamente financeiro.

*Almiro dos Reis Neto é presidente da Franquality Consultoria e da diretoria executiva da ABRH-SP.

*Cristiana Lobo é gestora de conteúdo da Sietar Brasil, ONG internacional com presença em 16 países, fundada no Brasil em 2010.

 

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