Fim do jogo e do confete

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Seguradora americana entra no epicentro de uma outra crise: a dos modelos de remuneração. (Foto: Justin Lane/epa/Corbis)

O fiasco provocado pela megasseguradora AIG (American International Group), em mais um grave capítulo da crise financeira mundial, serviu ao menos para jogar luz num ambiente muito restrito: o da política de remuneração de grandes executivos que, por anos, fizeram arriscadíssimos (e irresponsáveis) movimentos no mercado financeiro. Independentemente de quanto as instituições norte-americanas consigam avançar na regulação desse assunto, há, pelo menos, um consenso: o modelo, em que até o fracasso é premiado, é algo do passado.

“O episódio terá um efeito intimidador. Pois, na prática, os executivos estavam agindo como crianças mimadas e alguém teve de lhes impor um limite”, afirma David DeBosque, Ph.D. em contabilidade e professor assistente da Escola de Contabilidade Charles W. Lamdem da Universidade de San Diego.

Os milhões de dólares pagos em bônus a executivos da AIG incendiaram a indignação popular de tal maneira que a própria credibilidade política do presidente Barack Obama foi ameaçada. A primeira revelação, trazida à tona pelo procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, deu conta do pagamento de 165 milhões de dólares a altos funcionários da unidade de produtos financeiros – exatamente a divisão que provocou o colapso da seguradora. O governo americano socorreu a empresa com 173 bilhões de dólares e agora controla 80% da companhia. Dias depois da denúncia, o procurador de Connecticut, Richard Blumenthal, revelou que o montante pago em bônus era, na verdade, ainda maior: 218 milhões de dólares, distribuídos, segundo ele, “como confetes”.

“Os executivos da AIG atuaram de maneira irresponsável, fizeram uma gestão incompetente e são responsáveis por parte da destruição do sistema econômico da América. Por isso, eles não mereciam bônus”, diz Jean Stevens, coordenadora de mídia nacional do Codepink, grupo de mulheres ativistas que marcou as sessões do Congresso americano sobre a AIG com manifestações, cartazes e blusas cor-de-rosa.

A ira popular não é por nada: os bônus foram pagos com dinheiro dos contribuintes. Alguns dos culpados pelo caos financeiro foram premiados com pilhas de dinheiro enquanto para a população sobraram demissões, despejos, quebradeira e estagnação dos negócios. “Nós, os contribuintes, não demos permissão para que o dinheiro do pacote de ajuda virasse bônus. E isso é muito problemático”, disse Jean. A ativista avalia que o episódio deixou um saldo negativo para a credibilidade do sistema financeiro. “Essa controvérsia levará a sociedade a aumentar sua desconfiança com relação aos bancos, às corporações e às prioridades de Wall Street”, afirma a coordenadora.

A primeira tentativa de regular o modelo de remuneração veio sob a forma de punição. No calor dos protestos, a Casa dos Representantes (Câmara dos Deputados) dos EUA aprovou com votos dos republicanos e democratas, por 328 a 93, uma lei para taxar em 90% os pagamentos de bônus feitos por empresas que receberam ajuda do governo para se manter em pé em meio à crise.

Mas, antes de partir para votação do Senado, o próprio presidente Barack Obama resolveu esfriar os ânimos dos congressistas. “Não podemos usar o sistema de impostos para punir pessoas. Temos de encontrar maneiras de lidar com os bônus que são legais e justos”, afirmou ele em entrevista ao programa 60 Minutes, da CBS. Segundo Obama, a lei seria inconstitucional. Mas, na prática, o temor do presidente era de que essa taxação pudesse afastar o setor privado das negociações de compras de ativos “podres” do governo no âmbito do mais recente plano de socorro de 1 trilhão de dólares anunciado para o setor financeiro.

Na semana seguinte à votação da proposta, os congressistas recuaram da ideia. “À luz das significativas preocupações levantadas pelo presidente Obama e os senadores republicanos, nós decidimos recuar e discutir os passos futuros”, disse Jim Manley, porta-voz do líder da maioria no Senado, o democrata Harry Reid, do estado de Nevada. A proposta também acabou perdendo força depois que, a pedido do CEO da AIG, Edward M. Liddy, feito publicamente durante audiência no Congresso, os funcionários começaram a devolver parte dos bônus pagos. Na primeira semana, 50 milhões de dólares retornaram aos cofres públicos.

Reforma do sistema
O debate sobre a taxação dos bônus serviu, no entanto, como o começo da conversa. A aposta do mercado continua sendo na mudança das regras para o pagamento dos executivos. “O pagamento desses bônus vai impactar por muito tempo a maneira como as companhias pagam seus executivos. Não haverá mais garantias incondicionais para um futuro imprevisível”, afirma Jeanne E. Branthover, diretora de gestão da Boyden Global Executive Search, em Nova York. A Boyden é uma empresa de headhunting presente em 40 países, entre eles, o Brasil.

Segundo Jeanne, os modelos de compensações estão em processo de evolução, sendo debatidos e reinventados. “Os dias das garantias em bônus ficaram para trás. Qualquer dinheiro pago na forma de bônus será contabilizado e as razões para o pagamento serão medidas por meio de um sistema que será transparente”, aposta. A diretora de gestão da Boyden afirma que a base salarial dos executivos atenderá a um padrão de maior clareza com relação à política de cálculo das compensações. “Bônus estarão atrelados à performance das companhias e não devem mais receber o nome de bônus”, diz.

Na opinião de Jeanne, os contratos também sofrerão mudanças. “Os futuros contratos devem conter novas cláusulas para tratar da devolução de dinheiro pago sob certas situações ou garantias de que não haverá pagamento em certas circunstâncias, como a do pacote de ajuda financeira do governo”, sustenta.

O professor da Universidade de San Diego David DeBosque levanta outra questão. Para ele, qualquer mudança na política de remuneração, mesmo a taxação de bônus, não resultará em fuga de talentos, como tentaram fazer crer recentemente banqueiros europeus e de Wall Street. Frente à notícia da possível taxação em 90% sobre os pagamentos, os executivos alertaram para o risco de um êxodo de talentos do setor financeiro. “É puro nonsense acreditar num êxodo em massa. Para onde vão esses executivos? Eu não tenho dúvidas de que eles aceitarão os novos contratos sem questioná-los na justiça”, avalia DeBosque.

Apesar de ter desencorajado a taxação sobre o pagamento dos bônus, o presidente dos EUA reafirmou a sua determinação em “fazer Wall Street entender que precisa rechaçar a velha maneira de fazer negócios”. E preparou o país para discutir a reforma do sistema financeiro. No Congresso, os parlamentares também se mostram dispostos a discutir a questão. O senador democrata Ron Wyden, do estado de Oregon, um dos autores da lei de taxação dos bônus, disse que, mesmo com a devolução dos pagamentos realizados pelos altos funcionários da AIG, ele continuará pressionando o Senado a agir para prevenir novas rodadas de repartição de compensações por empresas que recebem ajuda financeira do governo. “É importante estabelecer políticas para evitar novas rodadas de pagamento de bônus”, disse a jornalistas.

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