Gestão

Firmes e fortes

Mariana Pereira
22 de junho de 2012
Adriano Vizoni
Sabbag, da FGV: resistir às pressões do dia a dia

Você já deve ter ouvido algo parecido: é preciso ser muito resiliente no mundo corporativo. As cobranças são cada vez maiores e as mudanças, mais constantes que nunca. Por isso, lidar com problemas, superar obstáculos, resistir à pressão, entre outras coisas, são características fundamentais para quem quer se tornar um diferencial para o mercado e um exemplo para os colegas de trabalho. E isso se chama resiliência – um conceito emprestado da física que se refere à capacidade de um corpo voltar ao normal depois de sofrer a ação de uma força.

Carlos Eduardo, diretor e partner da doers consultoria, acredita que os tempos atuais vêm fazendo com que esse tema vá ganhando o mercado. Ele conta que, há 20 anos, a frequência dos problemas era outra: em média, tinha-se um a cada três meses. Isso exigia menos dos profissionais, pois não havia desafios constantes. “Já hoje, todos os dias precisamos enfrentar desafios, bater metas, entregar resultados etc.”, diz. Apesar de ainda não figurar como uma competência em todas as empresas, ao lado de tantas outras exigidas dos profissionais, a resiliência tem virado tema de muita conversa nas rodas de executivos e especialistas. Para muitos, por exemplo, ela não é considerada somente uma competência, mas uma atitude presente em diversas situações (ao menos deveria estar presente). 

Para Paulo Sabbag, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), ela é fundamental em diversos momentos, pois permite ao dirigente enfrentar crises e mudanças significativas com maior efetividade; permite aos funcionários resistir melhor às pressões do dia a dia e aceitar melhor as mudanças e amplia a colaboração na companhia, enquanto aumenta a empatia do pessoal. “A resiliência confere tenacidade à organização, isto é, a capacidade de persistir na busca por resultados e também permite maior dinamismo, promovendo mudanças organizacionais com menor sofrimento. Ela melhora o clima e gera uma positividade que se contrapõe à negatividade, que muitas vezes ocorre em momentos difíceis”, completa Sabbag. 

O fato de estar atrelada ao comportamento faz com que não seja possível desvencilhar, quando se fala em resiliência, os aspectos profissionais e pessoais. Um dos pontos a ser destacados nos resilientes, aliás, é a capacidade de equilibrar esses dois lados, como afirma o CEO da Chubb Seguros, Acácio Queiroz. “Não há como separar uma coisa da outra. Ela tem de ser lida em 360 graus. Você precisa ser resiliente na empresa, em casa, na comunidade. Para atingi-la, a pessoa tem de praticar esporte, ter bom humor, conversar com outros, pois essas atividades funcionarão como uma válvula de escape. Também é muito importante procurar sempre o lado positivo das coisas, jamais o negativo”, conta.

Enraizada ou adquirida?
Com tantas ações a fazer, é possível pensar que ser resiliente não é uma tarefa fácil. É possível mudar, capacitar ou desenvolver essa competência, então? Márcia Vespa, diretora de educação corporativa da Leme Consultoria, acredita que por ser competência, ela pode ser desenvolvida. “É na adversidade que encontramos a oportunidade para ser a pessoa que gostaríamos de ser”, diz a consultora, que também afirma que não há crescimento sem dor, pensamento compartilhado por Jair Pianucci, diretor de recursos humanos da Metlife. Ele afirma que grandes desafios o ajudaram a se tornar mais resiliente. “Após algumas situações na minha vida profissional e no meu amadurecimento como ser humano, aprendi a ter mais paciência. Isso me deu tranquilidade e controle de ansiedade, fazendo com que eu  soubesse lidar melhor com os momentos difíceis que eu teria de passar e enfrentar”, diz o executivo.

Escala
Desenvolver a resiliência não é uma tarefa simples, pois exige certo grau de autoconhecimento e nem sempre temos tempo ou queremos ter mais contato com o nosso interior. Por isso, ela passa a ser, ainda mais, uma competência tão importante, que torna o executivo especial para o mercado. O professor da FGV, Paulo Sabbag, elaborou uma escala para ajudar a descobrir o nível de resiliência do indivíduo e, assim, ajudar no desenvolvimento dele. “Criei a escala ERS, na qual cada um avalia sua resiliência em situações usuais. Conhecendo o escore de resiliência e os nove subescores, a pessoa pode fazer o esforço sistemático para desenvolvê-la. Ela depende pouco de traços de personalidade e depende muito do que foi aprendido e internalizado na forma de valores. Isso reforça que ela é uma competência que pode ser desenvolvida em um esforço metódico e sistemático”, diz o professor. Ele ainda afirma que, seguindo essas práticas, a autoestima, que já foi um dos fatores mais importantes para a falta ou excesso de resiliência, não se torna mais tão importante.

Adriano Vizoni
Pianucci, da Metlife: “aprendi a ter mais paciência”

Queiroz, da Chubb Seguros, acrescenta que ter uma liderança com bom grau de resiliência auxilia no desenvolvimento da autoestima. “Na nossa empresa, acreditamos que um bom líder é resiliente e trabalhamos esse conceito com eles. Eu, por exemplo, invisto 25% do meu tempo de trabalho treinando, cobrando, motivando e valorizando o funcionário. Gosto de gente e de fazê-las crescer, mostrando a importância da inteligência emocional no dia a dia. Sempre digo que a melhor maneira de atingir bons graus de resiliência é tendo o exemplo de um bom líder, aquele que ajuda o colaborador a controlar os seus impulsos, mas que também o pressiona na medida certa. Esse líder também deve dizer coisas positivas e contribuir para moldar essa resiliência”, afirma o CEO.  

Pianucci, da Metlife, acredita que resiliência ainda não está no primeiro lugar da lista de competências dos executivos brasileiros por razões externas. “O Brasil é um país que não enfrenta, há muitos anos, situações que exijam grandes tomadas de decisões. Isso, com certeza, afeta a mentalidade geral da população e, consequentemente, também a dos executivos”, acredita. Países que costumam passar por desastres naturais, como Japão, ou que vivem crises financeiras, como Grécia, Portugal, Espanha e EUA, tendem a incorporar mais a resiliência, desde os mais altos executivos, governantes, até a população comum, que também precisa enfrentar os desafios, como a perda de parentes, imóveis, empregos e outras coisas que geram instabilidade. Por motivos como esses, Sabbag coloca o Brasil como um país de resiliência média.

Geração Y
Autoconhecimento, perdas drásticas, aprendizado pela dor, tudo o que auxilia no desenvolvimento da resiliência está presente no dia a dia da geração Y? Assim como o professor da FGV, muitos acreditam que a imaturidade impede que os jovens sejam executivos de sucesso em longo prazo. “Programas de aceleração de carreira, como os de trainees, e substituição de executivos contribuem para termos uma grande quantidade de jovens audaciosos e imaturos em posições de comando. Por isso, prego um retorno ao básico: a educação corporativa deve voltar a apoiar o executivo para torná-lo mais maduro, para ampliar sua capacidade de aprender e para ampliar sua resiliência. Isso os programas de desenvolvimento de liderança convencionais infelizmente não têm contemplado”, afirma Sabbag. Já a diretora da Leme Consultoria, Márcia Vespa, não vê relação entre idade e baixa resiliência, mas também confirma que a imaturidade pode gerar alguns problemas. “A geração Y, os nascidos a partir de 1980, em postos de comando, pode cometer falhas por falta de maturidade e ausência de habilidade, mas não necessariamente por  descontrole emocional.” Ela acredita que esse público específico tem uma facilidade grande de dar a volta por cima, às vezes até rápido demais, sem a reflexão necessária para o aprendizado. “Afinal, crescer dói. Sem dor, não há ganhos, nem crescimento. Esse pode ser o maior problema”, completa.


Os nove fatores
O que compõe a resiliência, segundo a escala ERS, criada pelo professor Paulo Sabbag

Autoeficácia – Crença na própria capacidade de organizar e executar ações requeridas para produzir resultados desejados. Está associada à autoconfiança e transforma-se em “combustível” para a proatividade e a solução de problemas.

Solução de problemas – Característica dos agentes de mudança, indivíduos equipados para diagnosticar problemas, planejar soluções e agir, sem perder o controle das emoções. Aliada à proatividade, tenacidade e flexibilidade social, mobiliza para a ação, contrapondo-se à postura de idealizar positivamente o futuro.

Temperança – Está associada ao controle da impulsividade. Significa maior capacidade de regular emoções com flexibilidade, mantendo a serenidade (ou a “frieza”) em situações difíceis ou de pressão.

Empatia – Habilidade básica e promotora tanto da competência social quanto da solução de problemas. Significa compreender o outro a partir do quadro de referência dele.

Proatividade – Está associada a desafios, a conviver com incertezas e ambiguidades. Refere-se à propensão a agir e à busca de soluções novas e criativas. Reativos tendem a esperar pelos impactos de adversidades enquanto os proativos tomam iniciativas.

Competência social – Apoio externo diminui sintomas de estresse e reduz a vulnerabilidade de indivíduos submetidos a condições adversas. A ERS considera não só a abertura a receber apoio de outros, mas a busca proativa e flexível de apoios (flexibilidade social).

Tenacidade – Persistência e/ou capacidade de aguentar situações incômodas ou adversas.

Otimismo – Na ERS, o otimismo se alia à competência social e à proatividade, tendo por base a autoeficácia.

Flexibilidade mental – Está relacionada a uma maior tolerância à ambiguidade e a uma maior criatividade. O pessimismo faz com que o indivíduo de baixa resiliência insista teimosamente em cursos de ação que não se mostram efetivos. Já o resiliente, em oposição, é flexível: pensa em opções, age, e se a ação não é efetiva, escolhe outra opção e persiste.

 

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