Gestão

Formar o futuro

22 de março de 2010

Ela promete ser uma das bases do mercado do século 21, marcado por pesquisas a partir das riquezas naturais de nossa flora e fauna. Sua participação na composição do Produto Interno Bruto, estima-se, não ultrapassa os 3%. Embora essa parcela seja pequena em relação a outros setores da economia, o fato é que a área de biotecnologia está em franca expansão. E a perspectiva de crescimento desse setor é tão forte, além de estratégica, que dá ao governo federal a sustentação para uma meta ambiciosa: transformar o Brasil em líder mundial desse segmento nos próximos anos.

Mas transformar esse objetivo em realidade pressupõe a necessidade de investimentos em algumas frentes, desde pesquisas e projetos, passando pela formação de mão de obra – leia-se pesquisadores altamente especializados, em geral com títulos de mestres e doutores. Algumas instituições como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), até mesmo por estar localizada em ambiente rico em biotecnologia, é um exemplo de centro de formação desses profissionais.

Para superar parte dos desafios em alçar o país à liderança desse mercado, foi criado, há três anos, o decreto de Política Nacional de Biotecnologia. Ele prevê investimentos de cerca de 10 bilhões de reais, dos quais 2,3 bilhões de reais para o desenvolvimento de 20 produtos fármacos e para o fomento de cinco centros de desenvolvimento. Para este ano, considerado como o ano internacional da biodiversidade, o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) garantem empregar 500 mil reais (provenientes do Fundo Setorial de Biotecnologia) em projetos de pós-graduação, focados em análises e conservação de recursos genéticos, sequenciamento de DNA, biocombustíveis, desenvolvimento de vacinas, diagnóstico de enfermidades humanas, animais e vegetais. Desses projetos e pesquisas surgem os profissionais que serão disputados a peso de ouro em muitos casos por instituições da iniciativa privada e setor público.
 
No Brasil, estima-se que existam 110 companhias dessa natureza distribuídas em 18 Estados, 72,7% delas situadas no Sudeste e 13,6% no Sul. Composto por uma parcela de 47% de micro e pequenas empresas, o setor gera cerca de seis mil empregos diretos, de acordo com pesquisa realizada em 2008 pela Fundação Biominas, instituição que promove o desenvolvimento de bionegócios.

Souza, da Embrapa: segmento incipiente, porém em expansão no Brasil

Pouco mais de 5% das empresas do setor são beneficiadas por políticas de isenção fiscal e, em contrapartida, contribuem com o país no desenvolvimento de pesquisas como, por exemplo, no combate a doenças, na produção de vacinas, remédios e no desenvolvimento de plantas resistentes a pragas.

Rumo ao Norte
Segundo o Criatec, um fundo de investimentos de capital semente, destinado à aplicação em empresas emergentes inovadoras, nos últimos dez anos, o Brasil formou cerca de 10 mil doutores na área de biotecnologia. Em função das pesquisas em curso e das possibilidades de projetos, esse número pode parecer pequeno, fazendo com que o mercado de trabalho esteja sempre de braços abertos a profissionais. Na farmacêutica Genzyme, por exemplo, há perspectivas de contratação, dependendo do tipo de pesquisa a ser desenvolvida, conforme explica Carlos Ruchaud, diretor médico da empresa.

Com faturamento anual de 4,6 bilhões de dólares, a companhia, que ocupa a quarta posição mundial do segmento, aplica 20% da receita bruta em pesquisas e conta com 400 cientistas que atuam no desenvolvimento de medicamentos para doenças renais, de ortopedia, câncer, cardiovasculares, entre outras. No total, a Genzyme emprega 11 mil pessoas nos 100 países em que atua.

“O segmento de biotecnologia, apesar de ainda incipiente e muito acadêmico, encontra-se em ampla expansão e pode ser grande oportunidade de mercado em áreas como agronegócio (biofábricas de plantas) e saúde (humana e vegetal).” A avaliação é do pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Antonio da Silva Souza, que é graduado em engenharia agronômica e tem doutorado em biotecnologia com ênfase em cultura de tecidos vegetais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para ajudar na formação dessa mão de obra, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) – criada em 1909 e considerada a primeira do país -, possui um programa de pós-graduação de biotecnologia há sete anos. No total, hoje são 110 alunos matriculados no doutorado, com duração de quatro anos. O curso conta com apoio financeiro da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação; da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e CNPq, ambos vinculados ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Cerca de 20% da biodiversidade do mundo está concentrado na Amazônia. Com essa vasta fauna e flora, os doutorandos encontram inúmeras oportunidades de trabalho na região. Oriundos de outros estados, muitos deles migram para o Norte apostando na biotecnologia como ferramenta fundamental para transformar riqueza biológica em riqueza econômica.

Esse é o caso de André Luiz Willerding, 41 anos, formado em agronomia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e que, há 15 anos, decidiu deixar o Sul e percorrer mais de quatro mil quilômetros rumo ao Amazonas. O que motivou essa mudança foi a convicção de que a biodiversidade seria uma matéria-prima de grande contribuição para a economia no século 21. Acreditando nisso, o catarinense entrou no Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas (Inpa)
para se especializar em tecnologia de madeira e se tornar mestre em manejo florestal. Também fez doutorado na Ufam, em biotecnologia com ênfase em biotransformação de óleos vegetais.

Astolfi, da Ufam: capacidade para formar recursos humanos qualificados

Hoje, Willerding é coordenador substituto do laboratório de bioquímica e biologia molecular do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), onde atua no desenvolvimento de projetos provenientes da biodiversidade como tecnologia enzimática ou química verde (detectam potenciais fontes microbianas, analisam capacidade de purificação de moléculas e aplicam em processos biotecnológicos que geram a biotransformação de biomassa).

Disciplinas variadas
Essas experiências, por exemplo, desenvolvem a produção de biodiesel, que tem por objetivo minimizar a produção de subprodutos tóxicos e combater a agressão ao meio ambiente. Segundo o vice-coordenador do curso de doutorado da Ufam, Spartaco Astolfi, os doutorandos cursam três disciplinas básicas: estatística experimental, metodologia da pesquisa científica e gestão em biotecnologia. E partindo desse embasamento, escolhem as disciplinas optativas que variam desde biodiversidade amazônica, engenharia genética, processos bioindustriais, farmacologia, fitoterapia e fitocosméticos, bioinformática, bioética e biossegurança, empreendedorismo, fisiologia da produção vegetal, aquicultura, produção de hemoderivados, controle biológico de insetos, controle biológico de vetores de doenças tropicais, microbiologia industrial, além de outras 23 disciplinas.

Rica biodiversidade
“Nosso programa tem capacidade para formar recursos humanos altamente qualificados e capazes de atuar no âmbito das instituições de ensino e pesquisa, universidades públicas, privadas e empresas”, salienta Spartaco.

Com o intuito de empreender, Carlos Gustavo Nunes da Silva, de 36 anos, também aposta na rica biodiversidade. Há 15 anos deixou a cidade de Bauru, a 345 quilômetros de São Paulo. Investiu 3 mil reais numa bioindústria que está incubada na Ufam há um ano, onde fez doutorado em biotecnologia com ênfase em clonagem de genes, genômica e bioinformática (programa que permite comparar sequências dos bancos de dados como DNA, textura de proteína e a função dos genes).

“Sempre quis empreender. Na graduação de engenharia agrônoma, pensava em algo para montar, baseado nos conhecimentos adquiridos na academia. Depois das especializações, percebi que tinha muito conhecimento acumulado, consegui identificar oportunidades e surgiu a ideia de entrar no mercado com algo inovador”, ressalta Silva. Ele acredita que dentro de três anos a empresa de enzimas industriais (que utiliza a amplificação de DNA, importante para pesquisas envolvendo genética ou biologia molecular, utilizadas também nas investigações forenses) terá condições de deixar a incubação e se tornará líder de vendas no mercado nacional e sul-americano.

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