Função crítica

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    Aprender a conviver com pessoas criativas, desenvolver seus potenciais, compreender e distinguir a economia da inovação e do conhecimento. Esses são, na opinião de Paulo Barone, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, de Minas Gerais, alguns dos pontos principais sobre os quais a formação de qualquer pessoa deve estar baseada.

    Para o professor, a necessidade de aumento da escolaridade global da população brasileira, para atender às exigências do mundo contemporâneo, faz com que, em primeiro lugar, o país tenha de oferecer uma educação básica de qualidade, associada à formação para o mundo do trabalho que permita a inserção de trabalhadores em todos os níveis da cadeia produtiva e a expansão sustentada da atividade econômica.

    Responsável pela palestra A formação de RH – O desafio da organização , a ser realizada durante a 20ª edição do Encontrarh, congresso promovido pela ABRH-DF (veja quadro), Barone acredita que a área de recursos humanos não deve furtar-se a encarar esses desafios. “Com o crescimento acelerado, uma empresa só pode contar com pessoas bem formadas. Então, uma tarefa permanente da companhia é girar o processo formativo, ou seja, atualizar permanentemente as competências das pessoas para as novas demandas de trabalho. As corporações têm suas metas e os profissionais suas perspectivas; é preciso que essas duas linhas se encontrem e que haja um diálogo entre o mundo do trabalho, o setor público e os formadores. A falta de dialogo é mortal para qualquer pretensão de uma empresa”, diz.

    MELHOR Há uma grande discussão sobre a falta de mão de obra qualificada. O que esse discurso apresenta de novo?
    Paulo Barone – Por longas décadas, governos, empresariado e até segmentos da elite cultural do país agiram de forma a minimizar a importância de prover educação de qualidade para toda a população. A estrutura básica da economia brasileira, centrada na produção de baixa sofisticação e de baixo valor agregado, assim como as concepções de que bastava ao país treinar mão de obra para a execução de tarefas de baixa complexidade, são causas da falta de valorização da educação de boa qualidade para todos entre os empresários. Para os governos, as perspectivas combinavam as mesmas do empresariado à desvalorização da formação educacional para a cidadania e o consequente desenvolvimento humano da população. Para parte das elites culturais, teve peso a avaliação de que a educação de boa qualidade, nos mais altos níveis de formação, deveria ser reservada a um determinado estrato social. Ao mesmo tempo  que esses aspectos indicam parte das causas da atual situação, também apontam caminhos para a sua superação. A necessidade de aumento da escolaridade global da população brasileira para atender às exigências do mundo contemporâneo, ao lado das rápidas mudanças sociais e econômicas que vivemos, recomenda, em primeiro lugar, que o país ofereça educação básica de qualidade para toda a população, associada à formação para o mundo do trabalho que permita a inserção de trabalhadores em todos os níveis da cadeia produtiva e a expansão sustentada da atividade econômica.

    Como transformar o RH no coração de uma empresa?
    Deve-se partir de duas constatações. A primeira, de que a operação de qualquer empresa é fortemente dependente da atuação dos seus recursos humanos. Isso é mais evidente para as empresas dos setores mais sofisticados da economia, de mais alto valor agregado, inclusive as do setor de serviços, mas vale para toda a cadeia produtiva. A segunda constatação é a de que a economia e a sociedade contemporâneas se estruturam em torno do conhecimento, que é produzido, disseminado e estocado em pessoas. Isso revela a importância estratégica do setor de RH das empresas.

    Como instrumentalizar essa ideia na área de recursos humanos?
    Toda empresa, certamente, tem seu aspecto diverso que requer uma estratégia diferente, e cada uma dessas características da inserção dos recursos humanos na economia brasileira é diferente. Mas, de qualquer maneira, uma das coisas importantes é valorizar o RH como centro do processo, porque é muito frequente ele se posicionar, dentro do processo, por causa de logísticas, fontes de insumos, ou até dos custos. É preciso, mudar o conceito de recursos humanos quando se está perdendo colaboradores para os concorrentes. Então, isso significa que as companhias devem deixar o discurso e passar a investir mais, inclusive do ponto de vista salarial porque não dá para ter gente boa com salário baixo.

    Em que medida o RH influencia todas as áreas de uma empresa, ou deveria influenciar?
    Deveria influenciar e ser reconhecida com competência para tal. Infelizmente, acontece o contrário. As empresas priorizam, exclusivamente, mais as questões ligadas ao imediatismo e ao resultado financeiro de curto prazo do que sua sustentabilidade. É preciso que as corporações tenham uma visão sistêmica para mudar sua postura. É claro que a empresa não vai funcionar sem fluxo de caixa e sem realizar as suas questões metabólicas, produzir, vender, faturar, mas o setor nobre é o RH. Sem ele é impossível tocar os demais. Uma forma simples de verificar isso é diagnosticar as severas limitações às projeções de crescimento de novos negócios das empresas em função da indisponibilidade de pessoal qualificado para a operação da atividade.

    Como preparar o profissional dessa área frente aos desafios e novos cenários do mercado e da sociedade, como a estabilidade da moeda, a recessão que tomou conta de muitos países, as deficiências em educação e saúde, as desigualdades sociais e o desemprego nas grandes regiões metropolitanas?
    Eu diria que esses desafios são aqueles que todos os profissionais enfrentam, com níveis e postos diferentes. Porém, o fundamental é que, em primeiro lugar, a formação de qualquer pessoa, inclusive dos profissionais de RH, precisa estar centrada em uma atitude contemporânea, como aprender a conviver com pessoas criativas, desenvolver seus potenciais, compreender e distinguir a economia da inovação e do conhecimento. Portanto, há uma cadeia de expedientes de caráter geral e outra especifica para recursos humanos, principalmente a inserção nessa nova economia, que é o atributo mais relevante para a formação de um profissional de recursos humanos hoje. Esse profissional deve compartilhar com todos os demais as competências de natureza geral, que envolvem a compreensão do mundo contemporâneo, capacidade gerencial, comunicação, liderança etc. Isso requer uma formação educacional muito boa, nos níveis básico e superior. Além do mais, deve ser capaz de avaliar a complexidade dos problemas sociais e econômicos que afetam o país e as empresas, de modo a intervir em seu campo sem o viés do imediatismo puro que caracterizou a política e a atividade econômica por muito tempo.

    Mas de que forma prática deve ser feito isso?
    Desenhar os currículos com os objetivos da pessoa, e esse é um grande problema para muita gente, porque ela desenha seu currículo variando a partir do currículo anterior, fazendo ajustes dos antigos. É preciso redesenhar os objetivos desejados; sem isso, a coisa não anda.

    De que forma o profissional de RH pode preparar as bases para o crescimento e as mudanças de uma organização?
    Acredito que a atuação do profissional de RH passa por diagnosticar os processos em relação ao negócio, de tal que modo que ele possa perceber qual a carência, os pontos fortes e as oportunidades que a corporação deve focar. Com o crescimento acelerado, uma empresa só pode contar com pessoas bem formadas. Então, uma tarefa permanente da empresa é girar o processo formativo, ou seja, atualizar permanentemente as competências das pessoas para as novas demandas de trabalho. As corporações têm suas metas e os profissionais suas perspectivas; é preciso que essas duas linhas se encontrem e que haja um diálogo entre o mundo do trabalho, o setor público e os formadores. A falta de dialogo é mortal para qualquer pretensão de uma empresa.

    E qual o papel dos governos na educação?
    É preciso reconhecer que a questão da educação básica é um problema do país como um todo, não é o caso de cada um defender apenas seu ponto de vista. É necessário encontrarmos consensos nacionais para mudar rapidamente a condição da educação no Brasil.

    O desafio da organização
    Com o tema A formação de RH – O desafio da organização , o professor Paulo Barone pretende abordar a questão da preparação da mão de obra em palestra no Encontro Anual de Recursos Humanos do Planalto Central, o 20º EncontraRH, congresso promovido pela ABRH-DF, que acontece nos dias 24 e 25 de novembro, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, e cujo tema principal é Gestão de talentos e valores –
    O Desafio das organizações.
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