Gestão

Há sempre um caminho

Caroline Marino
21 de novembro de 2011
Reprodução
Fabiana Batistela, da Resource: contribuir com a integração dos deficientes

Encontrar pessoal qualificado para as vagas em aberto em época de grande competitividade é um dos desafios que, muitas vezes, tira o sono de inúmeros gestores de recursos humanos. Para algumas empresas, essa dificuldade também é verificada em outras situações. Não é incomum ouvir de muitos executivos que o não cumprimento da chamada Lei de Cotas tem como um de seus obstáculos encontrar deficientes preparados para o mercado de trabalho.

De fato, não se trata de algo pouco crível, muito embora algumas empresas ancorem muitas desculpas para não atingir o percentual exigido por lei nessa dificuldade. Já outras companhias, que também passam pela mesma provação, mostram que cumprir a legislação demanda um olhar que vá além dos problemas, um olhar que enxergue as possibilidades de parcerias.

A Resource IT, integradora brasileira de soluções de tecnologia da informação, é um exemplo desse grupo de empresas. Fabiana Batistela, gerente corporativa da companhia, sabe da falta de mão de obra qualificada para contratação, e diz que muitas organizações querem não apenas cumprir a lei, mas contribuir para a inclusão dos deficientes no setor produtivo. No caso da Resource, isso vem sendo feito com uma equipe de 11 surdos, que está em processo de adaptação para, depois, fazer parte de seu quadro de funcionários.

Acordo fechado
Isso foi possível por meio de uma parceria da empresa com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) e a Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação da PUC-SP (Derdic). Por meio dessa união de esforços, foi possível contribuir de forma decisiva na seleção e treinamento desses deficientes auditivos. “Sem esse apoio, seria muito difícil preencher as vagas, pois precisávamos de pessoas que compreendessem seu real papel dentro da empresa”, lembra Fabiana. A Brasscom mobilizou-se como entidade representativa das empresas de
TI e fechou um acordo com a Derdic, instituição reconhecida na formação de surdos.

Os novos colaboradores passaram por um treinamento de seis meses, período em que aprenderam a lidar com os pacotes de software para escritório como o Office, além de e-mail, internet, intranet e noções de hardware. As aulas na Derdic ainda reforçaram os conteúdos de português e matemática. “A preparação é importante para que esse profissional valorize competências individuais e do grupo com maior compromisso e motivação”, afirma Fabiana Bellinatti, gerente de treinamento e desenvolvimento da Resource.

Após a primeira fase do treinamento, que terminou no final de julho, o grupo passou para a segunda etapa, na qual permaneceu três dias por semana dentro da Resource e dois dias na Derdic. Na companhia, eles foram alocados, de acordo com seu perfil e habilidades, nos departamentos pessoal, de recrutamento e seleção, de contabilidade, de infraestrutura e de projetos internos. Na opinião de Douglas Santos, 20 anos, um dos novos integrantes do quadro de funcionários, essa é uma importante oportunidade. “Atualmente, é muito difícil para os surdos conseguir vagas nas empresas. Sei disso porque enviei muitos currículos e nunca fui chamado”, declara.

Diferentemente dele, Vagner Lima Rodrigues, também de 20 anos, já trabalhou em duas grandes empresas anteriormente. Ele tomou conhecimento do programa da Resource em parceria com a Derdic por meio de amigos e professores. “Estou apostando em adquirir mais conhecimento e, ao terminar o prazo do programa, espero continuar trabalhando na empresa em período integral”, conta, animado.

Boa colocação
Quem também coloca boa parte de suas fichas nessa iniciativa é Cândida Fabiola Marques Rodrigues. Com 20 anos de idade, ela relata que aprendeu muito sobre tecnologia e ambiente corporativo por meio dessa iniciativa, desde como redigir e-mails até a importância da responsabilidade e pontualidade no trabalho. Cândida chegou ao curso por intermédio de um tio que conhece a Derdic. A jovem adianta que seu objetivo futuro é conquistar uma boa colocação na empresa, ter um bom salário e mostrar o valor e a capacidade da pessoa surda para todos os colegas de trabalho.

A ação vem impactando a empresa de forma extremamente positiva, como ressalta Fabiana Batistela, pois cada um desses novos trabalhadores traz a reboque sempre uma mensagem de superação. “Temos percebido que está sendo muito mais um trabalho de responsabilidade social do que qualquer cumprimento de legislação ou de cota. Todos nós estamos envolvidos e gostando de fazer parte disso. É simplesmente gratificante recebê-los aqui. Aprendemos muito”, observa.

A segunda fase do treinamento desse pessoal, que tem término previsto para o fim deste ano, ainda é considerada como período de adaptação. Somente em 2012, os deficientes auditivos passarão a trabalhar cinco vezes por semana e em tempo integral dentro da companhia. Mesmo nessa última fase, todo o processo será sempre acompanhado de perto pelos educadores da Derdic.


 

Tamanho do desafio
Criada em 1991 e regulamentada por decreto em 1999, e mais conhecida como Lei de Cotas, a Lei 8.213 é um marco divisor no esforço de inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Ao tornar obrigatória, para empresas com mais de cem funcionários, a reserva de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência, antes marginalizadas nos processos de recrutamento e seleção, essa lei contribuiu para acelerar o processo de inclusão social e provocou empresas públicas e privadas a se especializarem na capacitação profissional e na colocação desse público.

No entanto, mesmo com todo esse avanço, a inclusão de deficientes no mercado de trabalho ainda é um desafio. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), entre 2007 e 2010, o número de trabalhadores com deficiência formalmente empregados caiu 12%. Aproximadamente 42,8 mil vagas para pessoas com deficiência foram fechadas. Ainda dentro desse levantamento, 348,8 mil trabalhadores empregados no Brasil tinham alguma deficiência em 2007. Três anos depois, esse número caiu para 306 mil. Contudo, o total de
trabalhadores empregados formais no país passou de 37,6 milhões para 44,1 milhões. De acordo com as informações do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem, no Brasil, aproximadamente 24,5 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o que representa um universo de 14,5% da população.

 

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