Gestão

Há vagas

Rafael Adamowski
29 de novembro de 2013

Dados de uma pesquisa realizada recentemente pela Fundação Dom Cabral, com executivos de empresas de grande porte de todo o Brasil, revelam que 92% dos empregadores encontram dificuldades para preencher vagas com profissionais qualificados. A pesquisa revelou que os principais obstáculos são a escassez de profissionais capacitados, em 81% dos casos, a falta de experiência na função (49%) e deficiência na formação básica (para 42%). Diante desse cenário, resta aos empresários investir em alternativas que possam amenizar a situação. 

A cidade de Cianorte, localizada na região noroeste do Paraná, tem um grande polo da indústria têxtil. As empresas da região, assim como as demais do ramo localizadas em outros estados brasileiros, sofrem com a falta de mão de obra. Alberto Nabhan, 1º vice-presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Cianorte (Sinveste), afirma que a situação não teve muitas alterações nos últimos 10 anos. “Até piorou um pouco; a região cresceu, surgiram novas oportunidades de trabalho e muitos preferem não trabalhar como costureiros”, explica.

De acordo com Nabhan, a estratégia para tentar amenizar o problema é, além de buscar quem está atrás das primeiras oportunidades no mercado de trabalho, oferecer treinamentos por meio de parcerias com o Senai. “São 220 horas de carga horária, com aulas à noite. Após esse período, o funcionário ainda passa pela capacitação de três meses, já registrado na empresa, totalizando sete meses de preparação total”, destaca. Apesar de utilizar a didática e metodologias aplicadas nos cursos do Senai, os instrutores das novas turmas geralmente são os encarregados das próprias empresas da região.

Quem também investe em capacitação é a rede de supermercados paranaense Condor. Annelise Marcengo, coordenadora de RH da empresa, destaca que a falta de funcionários é uma situação presente no Paraná, principalmente em grandes centros como Curitiba, que hoje apresenta um índice baixo de desemprego. Encontrar profissionais dos setores da área técnica, como padeiro, confeiteiro e açougueiro é algo complicado, afirma. “Para suprir essa demanda e contribuir com o crescimento profissional de nossos colaboradores, e também proporcionar oportunidade de desenvolvimento para a comunidade em geral, a Escola Técnica Operacional, que integra a estrutura da Universidade Corporativa Condor, em parceria com o Grupo Educacional Bagozzi, formou 36 alunos no curso de padaria e confeitaria”, afirma a coordenadora.

Segundo Annelise, também existe um foco especial no recrutamento e seleção da Rede Condor, que funciona em diversos pontos de atendimento de Curitiba e região metropolitana, com o objetivo de facilitar o deslocamento do candidato que está à procura de emprego.

Outro exemplo de trabalho diferenciado vem do município de União da Vitória, localizado na fronteira do Paraná com Santa Catarina. Lá está localizada a empresa Pormade, especializada na fabricação de portas internas de madeira e acessórios. Muito do diferencial da Pormade começa com os trabalhos de responsabilidade social realizados pela empresa. Em 2008, foi criado um projeto de inclusão digital, que oferece aulas de informática na própria empresa. De acordo com Hermine Schreiner, diretora de recursos humanos, inicialmente a maioria dos participantes era formada por funcionários, e com o passar dos anos o quadro se modificou e hoje entre os participantes das aulas 40% são funcionários, 40% familiares e 20% comunidade. “Dentro do projeto já apareceram alguns potenciais talentos. É muito comum perceber que muitos dos candidatos que buscam trabalhar na empresa tiveram a formação com o nosso programa”, relata Hermine.

A Pormade também disponibiliza internamente cursos técnicos, com módulos, grades e conteúdos programáticos já estabelecidos. As aulas são ministradas por professores de fora e também por profissionais da própria empresa, que são preparados para repassar de forma didática todo o conteúdo que conhecem. “Nem sempre todos que têm o conhecimento sabem ensinar. Por isso realizamos alguns cursos de reciclagem com métodos técnicos de ensino”, afirma Hermine. Todos os projetos compõem uma espécie de universidade corporativa. Com a abertura de oportunidades, a própria empresa colhe ótimos resultados, uma vez que muitos dos candidatos às vagas na Pormade já conhecem a cultura da empresa. 

O mercado de seguros é outro setor que também enfrenta dificuldades. Tânia Regina Bini, gerente da Diplomata Corretora de Seguros, que tem sede em Curitiba, destaca que a situação da falta de mão de obra qualificada chegou a um ponto de caos total. “As pessoas se apavoram com tanta informação e não há tempo para que possamos ficar treinando. Acabamos reféns de um gasto e a pessoa não consegue exercer a função”, relata Tânia. Na opinião dela uma das soluções seria fornecer ao novo contratado um curso básico fora da corretora. No entanto, ela destaca que existe a necessidade de que entidades do setor trabalhem no sentido de promover a abertura deste curso.

As dificuldades também são encontradas na Andina Corretora de Seguros, que também está localizada na capital paranaense, conforme relata Adela Lopes, sócia-gerente da corretora: existe a necessidade de crescimento, ou da abertura de um departamento novo, mas o mercado não tem o profissional qualificado.

“Estamos pegando pessoas sem experiência e preparando-as na política da empresa. Tem um custo alto, leva alguns meses para terminar a preparação, e é arriscado não poder contar com o profissional depois”, explica. Na visão de Adela, o ideal seria oferecer cursos rápidos para que os candidatos tenham noções básicas sobre seguros, para atuação em assessoria e vendas. Segundo ela, os cursos também precisam ser direcionados ao trabalho nas seguradoras e corretoras, com a aplicação dos conhecimentos específicos em cada caso.

Sobram ofertas
Não é novidade que o aumento da oferta de vagas de emprego torna os candidatos mais exigentes. Dados da Secretaria de Trabalho, Emprego e Economia Solidária do Paraná (SETS) confirmam que alguns setores sofrem mais com a falta de trabalhadores, mesmo quando não se exige qualificação. De acordo com Ângela Carstens, coordenadora da Divisão de Intermediação de Mão de Obra, hoje existem cerca de 16 mil vagas de emprego abertas nas Agências do Trabalhador do estado. Destas, mais de 4.600 são para Curitiba.

Entre as funções que mais têm vagas em aberto estão caixa em geral (de supermercados, lojas e outros estabelecimentos), com mais de 400 ofertas, auxiliar de cozinha, com mais de 160 vagas, e para atendente de balcão são mais de 100 vagas, número próximo às oportunidades abertas para cozinheiros. A construção civil também segue com dificuldades, e na SETS estão registradas mais de 170 vagas para pedreiros e auxiliares. 

“Temos muitas vagas na área de comércio, indústria e serviço, principalmente pela rotatividade nestes setores. O papel se inverteu e o trabalhador está mais exigente. Hoje as pessoas se preocupam com questões como o horário em busca de mais tempo para cuidar de sua vida pessoal e também para continuar os estudos”, relata Ângela. Ela explica que setores como o da alimentação exigem cargas horárias maiores. Estabelecimentos como restaurantes, lanchonetes, bares e supermercados, que funcionam também em fins de semana e feriados, encontram dificuldades em contratar.



Parcerias de qualificação
A coordenadora técnica de estratégias de ação do Senai Paraná, Estela Pereira, afirma que por meio de parcerias com o governo são executadas políticas públicas de educação profissional. “Nos últimos anos, o Senai tem sido executor do Plano Territorial de Qualificação, PlanTeQ, realizado com a Secretaria do Estado do Trabalho, Emprego e Economia Solidária. O PlanTeQ é um programa que tem o objetivo de qualificar trabalhadores que fazem parte da população prioritária prevista no Plano Nacional de Qualificação do Ministério do Trabalho e Emprego”, explica.

De acordo com Estela, o Senai também tem forte atuação no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). “O programa, cuja gestão nacional é do Ministério da Educação, tem o objetivo de ampliar e diversificar a oferta de educação profissional e tecnológica gratuita no país, integrar programas, projetos e ações de formação profissional e tecnológica e democratizar as formas de acesso à educação profissional e tecnológica para públicos diversos”, diz a coordenadora.

Dados do Senai Paraná revelam que no ano passado foram realizadas mais de 11 mil matrículas pelo Pronatec. Em 2013, o programa foi ampliado com a oferta de mais de 44 mil vagas até o final do ano. “Ao todo são previstos cursos do Pronatec em 39 unidades fixas do Senai e também em 406 unidades remotas, que são pontos de atendimento descentralizados, uma estratégia para possibilitar que mais pessoas tenham acesso ao programa”, relata Estela.

Em relação aos setores da indústria que recebem maior atenção e têm mais necessidades para suprir a ausência de mão de obra, a coordenadora afirma que o Senai Paraná distribui suas ofertas considerando sempre as demandas industriais locais. “Nossas unidades ofertam cursos atendendo às áreas de atuação de maior pujança em suas regiões. Estudos são realizados para verificar as tendências de crescimento industrial como forma de direcionar as novas ofertas de cursos”, diz Estela.

De acordo com Estela, uma das principais demandas apresentadas pelos empresários é por educação profissional. “Traz sempre a necessidade de que ao concluir o curso, o trabalhador não só domine o conteúdo técnico, mas também seja capaz de trabalhar em equipe, que detenha capacidade crítica e seja capaz de gerir seu próprio trabalho”, diz. Para contribuir com essa demanda, Estela cita a Metodologia Senai de Educação Profissional, que possibilita que a prática pedagógica dos cursos do Senai seja sintonizada com as demandas do mundo do trabalho.

 

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