Humanizar a gestão

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    Martins, da Acesso Digital: cultura que prioriza encantar as pessoas
    Quando Janete Vaz quis conhecer um pouco mais os colaboradores da empresa, em 2010, teve uma surpresa. Uma das fundadoras, há mais de 30 anos, do Laboratório Sabin, Janete sabia que 77% dos cargos de liderança eram ocupados por mulheres, mas desconhecia que a maioria das funcionárias não possuía máquina de lavar roupa por questões financeiras. Com esse dado do Censo Sabin, como foi chamada a pesquisa, a executiva buscou parcerias com uma cadeia de varejo e uma fabricante de produtos de linha branca para permitir que suas colaboradoras pudessem realizar o sonho de aposentar o tanque. “E oferecemos condições de compra não apenas para esse eletrodoméstico, mas para outros de necessidade básica”, acrescenta Janete. Dois anos depois dessa iniciativa, metade das mulheres que trabalham na maior rede de laboratórios do Centro-Oeste já contavam com uma máquina de lavar ou estavam prestes a comprar uma.

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    “Acredito que os resultados organizacionais são alcançados quando há um equilíbrio entre a realização de sonhos dos colaboradores e os objetivos da organização”, ensina Janete. A empresa, que investe 15% de seu faturamento anual em gestão de pessoas, não tem do que reclamar, já que de 2005 a 2011 seu turnover caiu de 28% para 6% ao ano (e pretende atingir menos de 5% até o final de 2103), além de ter 1,8 mil funcionários satisfeitos e responsáveis por entregar mais de 1 milhão de exames e atender 170 mil cedentes no mesmo período.  “O trabalho é parte da vida, dos sonhos e da realização das pessoas, e é nele que colocamos nossas principais expectativas”, reforça Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work Institute Brasil (GPTW). Isso explica por que, de uns tempos para cá, conceitos como sonho e alma vêm ganhando espaço no mundo corporativo. Mas até que ponto negócios e alma combinam?

    O foco principal das pesquisas e listas feitas pelo GPTW é a avaliação do que os colaboradores fazem de onde trabalham. E a principal conclusão é que negociar com alma é, sim, possível e as principais empresas que receberam a melhor avaliação nos rankings transmitem de forma clara Í  sua “comissão de frente” o seu propósito, seu sonho, sua alma, seus valores. Dessa forma, conseguem inspirar quem está dentro da companhia e quem está fora dela, que passa a desejar fazer parte do time. E não existe propaganda melhor a uma companhia do que ser desejada. Nesse processo, o RH exerce um papel importante, mas sem esquecer um ponto fundamental, como destaca Shiozawa: “Ele não tem de ser o parceiro de negócio, mas parte dele”. Carlos Morassutti, vice-presidente de RH e assuntos corporativos do Grupo Volvo América Latina, conta que, na empresa, a área de recursos humanos está 100% inserida nos processos de negócios há mais de 20 anos. “Em muitos casos, ela puxou os planos de negócios. Acredito que esse seja um dos principais fatores para que o grupo tenha tanta constância, o que mostra que o caminho é olhar para as pessoas e disso conquistamos o engajamento dos 4,7 mil colaboradores brasileiros que, hoje, integram um total de 6,5 mil funcionários do Grupo Volvo América Latina, que tem como sede a cidade de Curitiba (PR)”, diz.


    Humanização do trabalho
    Autor do livro O lado humano do sucesso – como a Volvo do Brasil se tornou uma empresa de classe mundial e uma das melhores do país para trabalhar (Editora Alaúde), Morassutti ressalta, de sua experiência, a necessidade de humanização no ambiente de trabalho. Ou seja, que é preciso mostrar ao gestor que não interessa qual o plano que se faz na organização, mas pessoas para dar a vida a ele. “É tratar gente como gente. Há 40 anos, via isso no discurso, mas não na prática. Pessoas vão continuar fazendo a diferença”, conta. E pessoas são feitas de corpo e alma. Sim, a alma do negócio são elas, ainda mais quando se fala em nova economia. (Confira entrevista completa com Morassutti no site da Melhor.) Nas empresas da era do conhecimento, de forma mais acentuada, o líder tem uma importância de destaque na hora de alinhar sonhos, e “encantar” os colaboradores em torno de um propósito. Quando criou a Acesso Digital, o presidente da empresa, Diego Martins, definiu primeiro a alma do negócio, depois, a carta de princípios e, na sequência, começou a discutir qual seria o segmento de atuação. Seu principal sonho era ser a melhor empresa para trabalhar, tendo como fonte de inspiração o Google.

    Criada em 2007 e especializada em digitalização de documentos, a Acesso Digital realiza ações para impactar positivamente a vida dos seus colaboradores, o que surgiu da vontade de Martins de ter uma companhia em que as pessoas gostariam de trabalhar. “Desenvolvemos uma cultura que prioriza encantar as pessoas”, explica, acrescentando que o importante não é “fazer por fazer”, mas ter um comprometimento genuíno com as pessoas, algo que é percebido numa empresa que hoje vale mais de 100 milhões de reais.  Os exemplos de Martins e Janete, do Sabin, mostram que lideranças, negócios e alma devem caminhar sempre juntos. Para o master coach e mentor Eduardo Rodrigues, os termos negócios e alma são inclusos nas empresas, onde o novo modelo de gestão será pelo método de competências, individuais e de equipes. “Toda a força de uma empresa está nas lideranças. E o trabalho de coaching é efetivamente ajudar o RH nesse processo, começando pelos altos gestores das empresas, transformando-os em líderes com alma”, explica ele.


    Inspiração
    E foi alinhando a alma dos funcionários com a alma da cidade do Rio de Janeiro que Fred Gelli, cofundador e diretor de criação da Tátil Design de Ideias, conseguiu vencer uma disputa com outras 139 agências de todo o mundo para protagonizar o sonho da maioria (se não todos) dos profissionais de sua área: criar a logomarca dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016. O resultado capta, em um único símbolo, 12 atributos da cidade, tais como a natureza, o jeito carioca de ser, entre outros – tudo para exprimir o principal cartão-postal da olimpíada. Nesse processo, foi essencial dar vazão Í  sensibilidade de cada colaborador para que  o símbolo criado transmitisse a essência desse grande evento. “Mantenho as pessoas sempre motivadas na agência, aliando projetos atraentes, um local de trabalho agradável e, principalmente, o compromisso com práticas ecologicamente corretas e sustentáveis”, define Gelli. “A ideia de gerar lucro somente não se sustenta. Acredito que as empresas e pessoas são protagonistas e agentes da construção do futuro.”

    Na Elektro, concessionária de distribuição de energia, as pessoas também atuam como protagonistas. Elas são, como define Márcio Fernandes, diretor-presidente da companhia, “autoras” da história da empresa. Segundo o executivo, os colaboradores são incentivados a cultivar sua vida pessoal nos mais diferentes aspectos, seja saúde, família ou comunidade. “A vida deles acontece lá fora enquanto estão aqui na empresa. Por isso, precisam trabalhar tranquilamente de forma que todas as outras partes integrantes de sua vida estejam em harmonia”, esclarece.  Uma das medidas adotadas pela concessionária que ajudam a traduzir a humanização da gestão e do alinhamento entre negócios e alma é o Encontro Elektro, quando Fernandes e os demais diretores da companhia percorrem mais de 10 mil quilômetros para visitar funcionários em todas as cidades em que atuam.

    Não é hora de se falar em resultados nem metas, mas de realizações pessoais. “Multiplicamos bons exemplos, valores pessoais, nossas felicidades e desafios, e fazemos um pacto de que vamos vencer juntos”, diz o diretor-presidente. Fernandes também destaca outro programa, realizado com as lideranças da empresa. Nele, esses líderes são motivados a trabalhar “a sua alma”, pensando na comunidade que cerca a empresa, por meio de projetos realizados pelos próprios colaboradores, como reforma de creches e auxílio a moradores no caso de acidentes, catástrofes ou epidemias. “Assim, os colaboradores também são incentivados a ter ´alma´ e a multiplicar na sociedade os valores que praticam diariamente na empresa”, diz. E nessa conta de multiplicar, ganham todos.





    Para discutir a nova alma das empresas, Ruy Shiozawa, Carlos Morassutti e Fred Gelli irão participar do Congresso de Gestão de Pessoas RHRIO 2013, promovido pela ABRH-RJ nos dias 22 e 23 de maio, no Centro de Convenções SulAmérica, e que tem como tema central Negócios com alma: criando uma nova economia. Mais informações no site www.abrhrj.org.br/rhrio2013

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